Apoio ao golpe de 1964 à crítica a Flávio Bolsonaro: por que o alerta de um dos jornais mais conservadores do país chama atenção.
Ninguém pode acusar o Estadão de ser um jornal de esquerda. Muito menos de ser lulista. O Estado de S. Paulo é um dos jornais mais tradicionais do país, historicamente identificado com posições conservadoras e liberais na economia. Seus editoriais fazem duras críticas ao governo Lula, ao PT e ao próprio presidente. Por isso, quando um jornal com esse perfil publica um alerta grave sobre Flávio Bolsonaro, vale prestar atenção. Não estamos falando de um veículo fazendo campanha para Lula, mas de um jornal conservador olhando para uma candidatura da direita e levantando questões que considera preocupantes.
E isso ganha ainda mais peso quando olhamos para a história do próprio Estadão. O jornal apoiou o movimento militar que derrubou o presidente João Goulart em 1964. Isso não é uma acusação feita hoje pela esquerda. O próprio Estadão reconhece em seu acervo histórico que apoiou a intervenção militar, embora sustente que imaginava que ela seria transitória. Não foi. O que muitos acreditavam que seria uma intervenção passageira abriu caminho para uma ditadura que permaneceu no poder por 21 anos.
Com o passar do tempo, porém, a relação do jornal com o regime mudou. O Estadão percebeu que os militares não estavam dispostos a simplesmente devolver o poder aos civis e passou a fazer oposição ao autoritarismo. Em dezembro de 1968, quando veio o AI-5, tentou publicar o editorial “Instituições em frangalhos”. A edição foi impedida de circular. Mais tarde, a censura passou a funcionar dentro do próprio jornal. Matérias eram proibidas e textos eram cortados. Para mostrar aos leitores que alguma coisa havia sido censurada, o Estadão ficou conhecido por colocar trechos de Os Lusíadas, de Camões, nos espaços das notícias proibidas.
A história tem dessas ironias. O jornal que havia apoiado a derrubada de João Goulart acabou experimentando os efeitos da censura do regime que inicialmente apoiara. Isso não apaga o apoio de 1964, assim como o apoio inicial não apaga a resistência posterior à censura. As duas coisas fazem parte da história e ajudam a entender a dimensão do que o Estadão está dizendo agora.
Mais de 60 anos depois, chama atenção o editorial publicado pelo jornal em 23 de setembro de 2026, com o título “Flávio e a sombra dos milicianos”. Não se trata simplesmente da opinião de um jornalista ou de um colunista. Editorial é a manifestação da posição institucional do jornal. E o Estadão fez uma advertência pesada ao relacionar episódios da trajetória política de Flávio Bolsonaro ao que considera o risco de as milícias alcançarem o topo do poder da República.

É importante fazer uma distinção. Essa é uma avaliação política do Estadão, não uma sentença da Justiça contra Flávio Bolsonaro. Mas o jornal apresenta fatos para sustentar sua preocupação. Entre eles está uma fala de Flávio quando ainda era deputado estadual no Rio de Janeiro. Em 2007, na tribuna da Assembleia Legislativa, ele falou das milícias como um “novo tipo de policiamento” e criticou o que considerava uma generalização dos crimes praticados por integrantes desses grupos. A declaração está registrada nos documentos da própria Alerj.
O editorial também aborda relações políticas envolvendo pessoas que posteriormente apareceram em investigações e processos relacionados ao crime organizado. Um dos nomes mencionados é Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”, condenado pelo Supremo Tribunal Federal, em 2026, por integrar organização criminosa armada. O jornal também questiona uma negociação envolvendo recursos de emenda parlamentar. Flávio Bolsonaro respondeu que a destinação dos recursos ocorreu dentro da legislação e que a responsabilidade pela prestação de contas caberia ao destinatário. É importante registrar sua versão porque uma coisa é apresentar os fatos e os questionamentos existentes; outra é transformar questionamento político em condenação judicial.
Talvez seja justamente isso que torne o editorial tão significativo. Não estamos falando de um jornal simpático a Lula ou próximo do PT. Estamos falando de um jornal conservador, crítico ao atual governo e que historicamente apoiou o movimento que derrubou João Goulart em 1964. Depois, esse mesmo jornal rompeu com a ditadura e conheceu dentro da própria redação o peso da censura.
Não significa que seja preciso concordar com tudo o que o Estadão escreve. Jornal nenhum é dono da verdade. Podemos concordar com algumas posições e discordar profundamente de outras. Mas quando um veículo com essa história e essa posição política decide colocar no centro do debate eleitoral uma preocupação dessa gravidade, pelo menos vale conhecer os fatos que levaram seus editorialistas a chegar a essa conclusão.
A democracia também é feita da capacidade de aprender com a história. Em 1964, muita gente acreditou que aquela ruptura seria passageira. Depois, o Brasil descobriu que destruir instituições democráticas pode ser muito mais rápido do que reconstruí-las. Talvez essa seja uma das grandes lições daquele período e talvez seja por isso que certos alertas mereçam ser ouvidos com atenção, principalmente quando partem de quem quase nunca pensa como a gente.
*Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Onze de Maio
Jorge Francisco de Oliveira Guimarães é Cientista Social, professor de sociologia e escritor, foi sindicalista e trabalhou na Câmara dos Deputados. É um dos fundadores da Associação de Solidariedade e pela Autodeterminação do Povo Saaraui. Trabalhou no INEP, contribuindo com a educação pública, e foi diretor da Fundação de Assistência Social de Porto Alegre.