O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender a soberania dos países, citando especificamente os cenários da América Latina e do Brasil, onde, segundo o presidente, há tentativas de influência estrangeira sobre processos políticos nacionais.

Lula disse que a região da América Latina e do Caribe convive com pressões decorrentes da proximidade com grandes potências.
“Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto do recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou durante discurso na cerimônia de abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (22) em Nova York.
“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais, a divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais com recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos”, destacou, ao citar contextos recentes registrados na Venezuela, na Nicarágua, no Haiti e em Cuba.
Segundo o presidente, a região percorreu um longo caminho para consolidar regimes democráticos após períodos de ditadura e autoritarismo. Nesse contexto, ele defendeu maior integração regional e o respeito à autodeterminação dos povos.
“Precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para uma maior integração entre vizinhos. Os países da região reconheceram os horrores dos regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular”, disse.
Acompanhe o discurso do Lula no jornal da TVT:
Democracia em xeque
Lula também alertou para o que classificou como retorno de práticas incompatíveis com a ordem internacional contemporânea. “A democracia está novamente em xeque”, afirmou. Em seguida, acrescentou que o mundo voltou a assistir à “ingerência externa em processos eleitorais”, à divisão de países em zonas de influência e a “investidas neocoloniais” em busca de recursos estratégicos.
Ao citar países da região, o presidente afirmou que cada povo deve definir seu próprio caminho. Segundo ele, o povo venezuelano deve decidir seu destino sem interferências externas, enquanto a Nicarágua não solucionará seus problemas impedindo a participação da oposição nas eleições.
Lula também mencionou a crise humanitária no Haiti e voltou a criticar o embargo econômico imposto a Cuba.
Redes de desinformação
Lula também citou a atuação de redes de desinformação durante campanhas eleitorais e afirmou que o Estado brasileiro estará atento a possíveis tentativas de interferência.
“Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem contaminar o debate público durante a campanha”, afirmou.
Em seguida, ressaltou a confiança nas instituições e no sistema eleitoral do país.
“Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos ou externos, atentem contra a vontade popular. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho”, declarou.
Negacionismo
Lula destacou ainda os perigos das chamadas fake news, sobretudo no que diz respeito aos achados científicos em temas como saúde e meio ambiente. “Na era da desinformação, os obscurantistas resistem às evidências da ciência”, disse, ao defender o combate ao negacionismo.
“Nunca esqueceremos das milhões de vidas perdidas pelo descaso no enfrentamento à covid-19. Campanhas contra vacinas estão trazendo de volta doenças que julgávamos estar erradicadas. Enfraquecer a Organização Mundial da Saúde (OMS) torna todos mais vulneráveis.”
“Até pouco tempo, a reposta à mudança do clima estava consolidada no centro da agenda internacional. Este ano, o tema desapareceu dos debates do G7 e do G20, fóruns que reúnem os maiores emissores de carbono do mundo. É hora de retomar a ofensiva e impor uma derrota ao negacionismo.”
Segurança pública
Ao tratar da segurança pública, Lula rejeitou a participação de forças estrangeiras no combate ao crime organizado em território nacional e defendeu a cooperação internacional em áreas específicas, como o combate ao tráfico de armas e à lavagem de dinheiro.
“Não vamos transferir a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo”, afirmou.
O presidente acrescentou que o enfrentamento ao crime deve ocorrer por meio da cooperação entre governos, e não por ações militares externas.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas; precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado”, disse.
Segundo Lula, o Brasil apresentou aos Estados Unidos proposta de cooperação para combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior.
O presidente também afirmou que o país vem fortalecendo a coordenação entre os estados e ampliando as ações de combate às organizações criminosa.
Confira os principais trechos do discurso do Lula
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu o discurso afirmando que a ONU atravessa um dos momentos mais críticos de sua história. Segundo ele, a organização perdeu capacidade de agir diante dos conflitos e de proteger populações vulneráveis.
“O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra.”
Lula afirmou que a credibilidade da organização está em seu nível mais baixo e criticou a falta de ação do Conselho de Segurança. Para o presidente, o atual cenário deixa países sem capacidade militar à mercê das decisões das grandes potências.
“Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel.”
Conflitos e corrida armamentista
Ao tratar do cenário internacional, Lula afirmou que 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Ele também criticou o volume de recursos destinado à corrida armamentista e alertou para o risco de conflitos regionais assumirem proporções maiores.
“Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Tensões geopolíticas ameaçam transformar conflitos regionais em uma conflagração de proporções globais.”
O presidente defendeu que os integrantes do Conselho de Segurança assumam responsabilidade diante desse cenário e voltem a se reunir para buscar soluções diplomáticas.
“Não desconheço a realidade do poder, mas as concessões e a lei do mais forte já passaram dos limites. Isso não é idealismo, é o mais puro realismo.”
Guerra em Gaza e conflitos no Oriente Médio
Lula dedicou parte do discurso à situação no Oriente Médio. Ao falar sobre Gaza, afirmou que gerações de palestinos carregarão as consequências do conflito e responsabilizou o governo de Benjamin Netanyahu pelas mortes de mulheres e crianças.
Ao mesmo tempo, mencionou os ataques do Hamas e afirmou que civis israelenses também foram vítimas do radicalismo e da intolerância.
“Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo de Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância expressos nos atos terroristas do Hamas.”
O presidente também defendeu a solução de dois Estados e criticou a expansão dos assentamentos na Cisjordânia. Segundo ele, ameaças de destruição e escaladas militares não produzem estabilidade na região.
Lula ainda mencionou o estreito de Ormuz e afirmou que a passagem, importante para o comércio internacional, acabou transformada em uma frente de guerra.
Guerra da Rússia e Ucrânia: defesa da diplomacia
Sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, Lula destacou os impactos internacionais do conflito, especialmente sobre os preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos.
“A guerra entre a Rússia e a Ucrânia se arrasta há anos, em um drama humanitário que continua a ceifar vidas.”
Para o presidente, a saída para os conflitos deve ser buscada pela negociação. Lula citou o Grupo de Amigos da Paz, iniciativa criada por Brasil e China, como exemplo de articulação internacional voltada ao diálogo.
“Todos sabemos que não haverá vencedores no campo de batalha. A diplomacia é a única opção.”

Abertura do Debate Geral de Alto Nível da 81.ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas – Foto: Ricardo Stuckert / PR
América Latina, soberania e democracia
Ao falar sobre a América Latina e o Caribe, Lula defendeu que os países da região mantenham relações baseadas em cooperação e desenvolvimento, sem submissão a interesses externos.
“Sobretudo em um contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas, o Brasil não cabe no quintal de ninguém.”
O presidente também criticou interferências externas em processos eleitorais e afirmou que diferenças ideológicas não deveriam impedir uma maior integração entre os países latino-americanos.
“A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais.”
Na sequência, mencionou Venezuela, Nicarágua, Haiti e Cuba. Sobre os venezuelanos, afirmou que o povo do país deve ter o direito de decidir seu próprio destino. Também criticou a situação política da Nicarágua e o embargo econômico contra Cuba.
Combate ao crime organizado
Lula também dedicou parte do pronunciamento ao combate ao crime organizado. O presidente afirmou que o Brasil não pretende transferir a responsabilidade pela segurança de suas fronteiras e pela proteção da população a outros países.
“As pessoas estão cansadas da violência, mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender as nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo.”
Ele defendeu a cooperação internacional para combater o fluxo de armas e dinheiro que abastece organizações criminosas e citou uma proposta apresentada pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos para enfrentar a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando as nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e dinheiro que abastece o crime organizado.”
Lula também mencionou operações realizadas no Brasil contra organizações criminosas, apreensões de drogas, bens e recursos ilícitos e a aprovação da lei antifacção.
“Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime.”
Na sequência, associou o combate ao crime organizado ao enfrentamento da corrupção:
“Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei.”
Mudanças climáticas e transição energética
A crise climática também ocupou espaço no pronunciamento. Lula criticou o que classificou como perda de centralidade do tema nos debates internacionais e defendeu uma retomada das ações contra o aquecimento global.
“É hora de retomar a ofensiva e impor uma derrota ao negacionismo.”
O presidente citou o derretimento das geleiras do Himalaia e os possíveis efeitos de fenômenos climáticos, como um Super El Niño, sobre diferentes regiões do planeta. Segundo ele, os impactos atingem principalmente as populações mais vulneráveis.
Lula também apresentou o Brasil como um país capaz de combinar crescimento econômico e redução das emissões. Mencionou a produção de petróleo, a pesquisa por novas reservas e a manutenção da agenda ambiental.
“Não renunciaremos à agenda ambiental.”
Ele ainda defendeu a valorização econômica da floresta em pé e citou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30, como parte dessa estratégia.
Inteligência Artificial, Big Techs e bets
Na área tecnológica, Lula defendeu a regulamentação das grandes empresas de tecnologia e da Inteligência Artificial. O presidente afirmou que a ausência de regras e transparência traz riscos para a sociedade.
“Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das Big Techs e da Inteligência Artificial.”
Lula também criticou o que chamou de “tecno-oligarcas” e defendeu que o desenvolvimento tecnológico seja acompanhado de responsabilidade.
Ao falar sobre as bets, afirmou que o setor transforma o vício em fonte de lucro e relacionou a expansão das apostas ao endividamento e a problemas familiares.
“A indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro. Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares.”
O presidente ainda defendeu medidas de proteção a crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital e afirmou que o governo pretende garantir remuneração a artistas, músicos e produtores de conteúdo audiovisual. Também criticou pressões de multinacionais sobre o Pix.
Desigualdade, trabalho e direitos das mulheres
Ao abordar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, Lula relacionou desigualdade e subdesenvolvimento a decisões políticas. Defendeu políticas de distribuição de renda, investimentos em educação e saúde e redução de privilégios.
“É possível colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos pagarem a sua parte.”
O presidente também afirmou que mudanças sociais não devem significar perda de direitos ou retrocessos e defendeu um Estado democrático capaz de formular políticas públicas.
No campo do trabalho, Lula falou sobre as transformações nas relações profissionais e defendeu o fim da escala 6×1, com dois dias de descanso por semana.
“O trabalhador precisa de tempo para descansar, se qualificar e conviver com a família.”
Ele relacionou a mudança também à divisão das tarefas domésticas, afirmando que a redução da jornada poderia aliviar uma sobrecarga que ainda recai sobre as mulheres.
Lula encerrou esse trecho defendendo um país em que mulheres possam ocupar espaços de poder e participar do mercado de trabalho sem enfrentar barreiras relacionadas ao gênero, além de reforçar a necessidade de combater o feminicídio.

Abertura do Debate Geral de Alto Nível da 81.ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas – Foto: Ricardo Stuckert / PR
ONU e a defesa do multilateralismo
Na parte final do discurso, Lula retomou a história da ONU e destacou a atuação da organização em temas como descolonização, direitos humanos, desenvolvimento sustentável, proteção de migrantes e refugiados e combate ao racismo e à intolerância religiosa.
“A ONU nasceu sob o signo da esperança.”
Para Lula, as transformações promovidas pela organização foram resultado da ação de lideranças que se recusaram a aceitar guerras, colonialismo e sistemas de segregação como inevitáveis.
“Diante da paralisia das Nações Unidas, precisamos reencontrar a vontade política para que volte a ser o templo da paz.”
Eleições brasileiras e defesa da democracia
No encerramento, Lula voltou-se para o cenário político brasileiro e afirmou que milhões de eleitores irão às urnas para escolher presidente, governadores e representantes do Legislativo.
O presidente apresentou a eleição como uma disputa relacionada ao futuro da democracia brasileira e mencionou a atuação de redes de desinformação e a influência de interesses estrangeiros.
“Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão.”
Lula afirmou ainda que o Brasil possui um sistema eleitoral que, segundo ele, é capaz de garantir o processo e defendeu a atuação da imprensa livre e de uma cidadania plural.
“A democracia brasileira pertence aos brasileiros.”
O discurso terminou com uma afirmação sobre a soberania nacional:
“O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém…!!! Ninguém nos afastará desse caminho.”
Lula volta a defender reforma do Conselho de Segurança
A reforma do Conselho de Segurança aparece nos discursos analisados desde a primeira participação de Lula na abertura da Assembleia Geral. Atualmente, o órgão possui cinco membros permanentes, Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França, que têm poder de veto.
Qualquer alteração na Carta da ONU depende do aval desses países, o que está entre os pontos relacionados à discussão sobre mudanças na estrutura da organização.
Em 2003, Lula classificou o papel da ONU na promoção da paz e da justiça como “insubstituível”. Anos depois, o tom mudou. Em 2024, o presidente afirmou que a organização estava cada vez mais “esvaziada e paralisada”. No discurso de 2025, disse que sua autoridade estava “em xeque”.
A mudança também aparece na agenda dos pronunciamentos. Entre 2003 e 2008, Lula abordava temas como os subsídios agrícolas concedidos por países ricos, a Rodada de Doha, os biocombustíveis e os efeitos da crise financeira. A partir de seu retorno à tribuna, em 2023, passaram a ganhar espaço assuntos como a extrema direita, as mudanças climáticas, a regulação das grandes plataformas digitais, a inteligência artificial e a defesa da soberania.

Soberania e relação com os Estados Unidos
A versão mais recente do discurso não faz referência direta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nem ao chamado Escudo das Américas, iniciativa de segurança norte-americana na região que é interpretada pelo governo brasileiro como uma reedição do Plano Colômbia, com foco na repressão e no afastamento da China do hemisfério.
Isso não significa, porém, que temas relacionados à relação entre Brasil e Estados Unidos estejam fora da fala. Lula deverá defender a soberania brasileira, repudiar interferências externas e defender a cooperação internacional em áreas de interesse comum.
Nas relações comerciais, a expectativa é de que o presidente critique a adoção unilateral de barreiras tarifárias pelos Estados Unidos. A orientação apresentada para o discurso é evitar que essa crítica se transforme em um confronto direto com o governo norte-americano.
A posição busca combinar a defesa da autonomia brasileira com a tentativa de manter abertas as relações diplomáticas e comerciais com Washington.
Combate ao crime organizado entra na agenda
Outro assunto que ganhou espaço na preparação do discurso é o combate ao crime organizado. Lula deverá defender a cooperação entre países no enfrentamento às organizações criminosas, ao mesmo tempo em que deve sustentar que as políticas de segurança adotadas dentro do território brasileiro precisam respeitar a soberania nacional.
O tema ganhou maior sensibilidade nas relações com os Estados Unidos depois que o governo Trump classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Nesse contexto, o governo brasileiro demonstra preocupação com possíveis iniciativas externas que possam ser interpretadas como interferência em assuntos domésticos. A expectativa é que Lula trate da necessidade de cooperação internacional sem abrir mão da autonomia do Estado brasileiro para definir suas próprias políticas de segurança.
Dez discursos e mudanças no cenário internacional
A participação desta terça-feira será a décima abertura de Assembleia Geral da ONU feita por Lula. Ao longo desse período, seus pronunciamentos acompanharam transformações no cenário internacional e também mudanças na agenda política brasileira.
Temas presentes desde os primeiros discursos, como paz, fome e reforma do Conselho de Segurança, continuam no roteiro. Ao mesmo tempo, questões que ganharam força nos últimos anos, como democracia, soberania, mudanças climáticas, inteligência artificial e regulação das plataformas digitais, passaram a ocupar mais espaço.
Para 2026, a fala deve reunir esses diferentes eixos, com atenção aos conflitos internacionais, à situação em Gaza, à reforma das instituições multilaterais, à defesa da democracia, à soberania dos países e à cooperação no combate ao crime organizado.
Por tradição, após Lula, o segundo discurso da abertura será feito pelo representante dos Estados Unidos, Donald Trump. O encontro desta terça-feira, portanto, também colocará em sequência as manifestações dos presidentes dos dois países sobre temas que envolvem relações internacionais, comércio, segurança e soberania.

Íntegra do discurso do Presidente Lula na abertura da
81ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas
Meus cumprimentos ao Presidente da Assembleia Geral, Embaixador Khalilur Rahman, de Bangladesh. Saúdo cada um dos Chefes de Estado e de Governo e delegadas e delegados presentes. Dirijo-me em particular ao Secretário-Geral das Nações Unidas.
Ao longo de seus dois mandatos, António Guterres foi testemunha direta dos crescentes desmandos das superpotências.
Senhor Presidente,
Esta é a décima ocasião em que abro o Debate Geral desta Assembleia. Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas.
O sentimento que me move hoje é o da indignação.
A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis – os que não têm exército, nem arsenais – nunca foi tão pequena.
Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel.
Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto. Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez.
A esse pecado original soma-se agora uma profunda crise de liderança. O ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial.
Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma conflagração de proporções globais.
Os que detêm as rédeas das decisões cruciais devem atuar com responsabilidade e sentido de urgência. Os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir.
Não desconheço as realidades do poder.
Mas as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites. Isso não é idealismo. É o mais puro realismo.
A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política.
Num mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses da pátria com os da humanidade.
Essa é a constatação de alguém que representa uma nação amante da paz e da liberdade.
Alguém que lutou contra uma ditadura militar e defendeu seu país contra um golpe de Estado. É a convicção de um operário eleito três vezes presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome.
Esta Assembleia corrigiu recentemente distorções históricas.
Reconheceu o tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. Aprovou a representação mais precisa do mapa-múndi.
Agora deve se debruçar sobre temas determinantes para o futuro da humanidade.
Somos chamados a optar entre:
- multilateralismo ou unilateralismo;
- democracia ou extremismo;
- soberania ou subordinação.
Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um Estadista.
Yasser Arafat e Yitzhak Rabin foram estadistas. Desafiaram o passado para projetar um futuro de paz.
Foram derrotados pelo ódio.
Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas.
Perseguir o Tribunal Penal Internacional e seus integrantes é um estímulo para que esses crimes fiquem impunes.
A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não pode ser silenciada por dizer a verdade.
Os assentamentos ilegais na Cisjordânia tornam cada vez menos viável a solução de dois Estados, essencial para que israelenses e palestinos possam viver em segurança.
Ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para o Oriente Médio.
O Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra, quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional.
Famílias em todo o mundo pagam pelo aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos.
A guerra entre Rússia e Ucrânia se arrasta há cinco anos, em um drama humanitário que continua a ceifar vidas.
Todos sabemos que não haverá vencedores no campo de batalha.
A diplomacia é a única opção.
Iniciativas como o Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil e China, revelam que há forças na comunidade internacional dispostas a trabalhar pelo diálogo.
Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas.
O Brasil não cabe no quintal de ninguém.
Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento.
Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior integração entre vizinhos.
Os países da região conheceram os horrores dos regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular.
A democracia está novamente em xeque.
Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais.
A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos.
O povo venezuelano merece definir o próprio destino.
A Nicarágua não vai resolver os seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições.
A crise no Haiti continua a testar os limites da indiferença da comunidade internacional.
Em Cuba, o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais.
Senhor Presidente,
O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado.
Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades.
Trabalhadores são roubados. Mães perdem seus filhos. Policiais não voltam para suas casas.
As pessoas estão cansadas da violência.
Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo.
Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime.
Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao Presidente dos Estados Unidos.
Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior.
Por muito tempo, os estados brasileiros atuaram cada um à sua maneira. O crime se aproveitou da falta de coordenação.
Mas isso está mudando.
Criamos em Manaus o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, reunindo autoridades de segurança pública dos nove países amazônicos.
Em 2025, realizamos a maior operação contra o crime organizado da história do Brasil.
Batemos recorde de apreensão de drogas e de bens e recursos ilícitos.
Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime.
A Lei Antifacção que acabamos de aprovar impõe ao crime organizado penas superiores às previstas para o terrorismo.
Crime organizado e corrupção andam juntos.
O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei.
Senhoras e senhores,
Os pilares do multilateralismo estão sendo corroídos.
A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos.
Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas.
Na era da desinformação, os obscurantistas resistem às evidências da ciência.
Nunca esqueceremos das milhões de vidas perdidas pelo descaso no enfrentamento da Covid-19.
Campanhas contra vacinas estão trazendo de volta doenças que julgávamos erradicadas.
Enfraquecer a Organização Mundial da Saúde torna a todos mais vulneráveis.
Até pouco tempo, a resposta à mudança do clima estava consolidada no centro da agenda internacional.
Este ano, o tema desapareceu dos debates do G7 e do G20, foros que reúnem os maiores emissores de carbono.
É hora de retomar a ofensiva e impor uma derrota ao negacionismo.
A natureza nos recorda a cada dia que o planeta é um só.
As geleiras do Himalaia estão derretendo.
Um Super El Niño pode provocar chuvas torrenciais, secas e incêndios florestais em diferentes partes do globo.
Seus efeitos golpearão sobretudo os mais vulneráveis.
O Brasil vem demonstrando que é possível aliar crescimento econômico com redução de emissões.
Conquistamos nossa autossuficiência em petróleo e seguiremos pesquisando o potencial de novas reservas, como as da Margem Equatorial.
Não renunciaremos à agenda ambiental.
Levaremos adiante o Mapa do Caminho para a descarbonização da economia brasileira.
O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30 em Belém, mostra que é possível mudar antigos paradigmas.
A floresta vale mais em pé do que destruída.
Continuaremos reduzindo o desmatamento, que caiu pela metade na Amazônia e atingiu o menor nível em 11 anos.
Temos autoridade moral para rejeitar medidas protecionistas disfarçadas de apego à causa ambiental.
O Brasil é referência mundial em energia verde.
Temos os minerais críticos e as terras raras de que o mundo precisa para realizar a transição energética.
Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro — e é em benefício dele que serão exploradas.
O acesso a nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais.
Senhor Presidente,
Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, com grandes riscos e oportunidades.
Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das Big Techs e da Inteligência Artificial.
Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência.
Estão promovendo uma corrida sem freios éticos à revelia da ONU e do Painel Científico sobre Inteligência Artificial.
Como adverte o Papa Leão XIV, “as decisões sobre tecnologia nunca devem ser separadas da consciência e da responsabilidade”.
Empresas que conhecem os riscos de seus produtos transferem para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos.
A indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro.
Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares.
O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio.
Aprovamos uma das legislações mais avançadas do mundo para proteger crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital.
Vamos assegurar a justa remuneração de artistas, músicos e criadores de conteúdo audiovisual.
Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros.
Senhoras e senhores,
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são alvo de ataques de forças reacionárias, que desejam naturalizar injustiças.
A desigualdade e o subdesenvolvimento resultam de escolhas políticas.
É possível colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos pagarem a sua parte.
É necessário cortar privilégios e investir em educação e saúde gratuitas e de qualidade.
Existe, em todo o mundo, um anseio legítimo por mudanças.
Mas mudar não é retroceder.
Não é subtrair direitos.
Não é reeditar teorias de supremacia racial ou de submissão feminina.
Não é recolonizar o Sul Global.
Mudar é avançar para um futuro de mais participação e mais conquistas.
É criar e compartilhar soluções públicas efetivas para os desafios do desenvolvimento por meio de um Estado democrático, forte, eficiente e capaz.
É apostar no espírito de solidariedade e na cooperação com a África, a Ásia e a América Latina e Caribe.
Iniciativas como a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e o Painel Internacional sobre Desigualdade nascem dessa vontade política.
O Brasil tem pressa de se tornar uma nação desenvolvida e socialmente justa.
Adotamos um modelo econômico que se assenta na distribuição de renda, na geração de empregos e na valorização do salário.
Apostamos na melhoria da produtividade, na ampliação do crédito e na construção de uma rede robusta de proteção social.
O Brasil voltou a crescer de modo sustentado.
Somos o terceiro maior destino de investimento estrangeiro direto.
Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde de exportações.
Ainda há muito a ser feito.
O mundo do trabalho está em transformação.
Pessoas idosas querem permanecer ativas. Jovens desejam empreender.
O trabalhador precisa de tempo para descansar, se qualificar e conviver com a família.
No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da chamada escala 6×1 para garantir ao trabalhador 2 dias livres por semana.
Essa mudança é fundamental para aliviar a sobrecarga doméstica que ainda recai sobre as mulheres.
Estamos construindo um Brasil onde as mulheres não precisam pedir licença para ocupar espaços de poder ou se inserir no mercado de trabalho.
Um país livre do feminicídio, onde nenhuma mulher, dentro ou fora de casa, viva sob a ameaça da violência.
Essa é uma causa que o mundo todo precisa abraçar.
Senhor Presidente,
Ao receber o Nobel da Paz, Martin Luther King afirmou que “aquilo que pessoas voltadas para si mesmas destruíram, outras pessoas voltadas para o próximo podem reconstruir”.
A ONU nasceu sob o signo da esperança.
Ao longo de oito décadas, contribuiu com a descolonização, promoveu os direitos humanos e apoiou o desenvolvimento sustentável.
Protegeu migrantes e refugiados, condenou o racismo, o antissemitismo e a intolerância religiosa.
Essas foram conquistas de lideranças que ocuparam este pódio movidos pela indignação diante das injustiças de seu tempo.
Homens e mulheres que se recusaram a aceitar a guerra como destino, o colonialismo como direito, o apartheid como sistema legítimo.
Foi dessa capacidade de dizer “não” às desigualdades que nasceram algumas das maiores transformações que vivemos.
Diante da paralisia das Nações Unidas, precisamos reencontrar a vontade política para que volte a ser o templo da paz.
Quero concluir com uma mensagem sobre o meu país a todos os que nos ouvem.
No dia quatro de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino.
Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo.
Vão decidir entre democracia e negacionismo. Se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão.
Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão.
Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país.
Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha.
Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto.
Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular.
A democracia brasileira pertence aos brasileiros.
O Brasil continuará sendo um país soberano.
Ninguém…!!! Ninguém nos afastará desse caminho.
Que Deus nos abençoe a todos.
Muito obrigado.
Com Agência Brasil e TVTNews – Foto: Ricardo Stuckert