Nos sete anos de gestão Caiado vendeu a CELG-T, a CELG-PAR, o Serra Dourada, tirou do controle dos servidores o Ipasgo e o Hospital do Servidor e se prepara para privatizar a SANEAGO

 

Marcus Vinícius de Faria Felipe

 

A política de privatização de empresas estatais, iniciados na década de 1990 do século passado, dominou o discurso de governos de orientação neoliberal. Neste período foram privatizados a maioria bancos estaduais, entre eles a Caixa Econômica (Caixego), que foi liquidada extrajudicialmente em 20 de setembro de 1990, por determinação do Banco Central durante o governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992).

Banco do Estado de Goiás foi adquirido pelo ITAU em 2001

Em 31 de maio de 1999 a nova política de desestatização do governo do presidente Fernando Henrique (1995-2002) levou a intervenção do Banco Central no BEG (Banco do Estado de Goiás), que foi inicialmente federalizado no primeiro ano do governo de Marconi Perillo (1999-2002) e no dia 04 de dezembro de 2001 foi vendido num leilão de privatização na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro por R$ 665 milhões.

 

A política de privatização mais danosa foi a venda do sistema elétrico de Goiás e começou com a privatização da Usina Hidrelétrica de Cachoeira Dourada, no dia 5 de setembro de 1997, no governo de Maguito Vilela (MDB) por meio de leilão público, pelo valor de R$ 820 milhões. Na sequência houve a privatização da CELG D, que era detentora das linhas de transmissão de energia em todo o Estado de Goiás. Ela foi vendida no quarto governo de Marconi Perillo (2015-2018) num leilão no dia 30 de novembro de 2016, na BMF&Bovespa, para a italiana Enel Brasil S/A, por R$ 2,187 bilhões.  A operação resultou na entrada de cerca de R$ 1,1 bilhão ou R$ 800 milhões líquidos para o governo de Goiás, porém deixando um passivo de R$ 12 bilhões ao Tesouro Estadual.

Usina de Cachoeira Dourada foi à leilão em 1997 – Foto: divulgação UHE- CD

Já no primeiro governo de Ronaldo Caiado (2019-2022), o Grupo Equatorial Energia adquiriu o controle acionário da distribuidora Celg-D, de Goiás, por R$ 1,575 bilhão, num negócio firmado no dia 30 de dezembro de 2022. No dia 14 de outubro de 2021, penúltimo ano do primeiro governo de Ronaldo Caiado foi privatizada a CELG-T. A empresa foi  desmembrada da antiga Celg Geração e Transmissão, detinha mais de 755 km de linhas de transmissão e 12 subestações. Ela foi arrematada pela empresa portuguesa EDP Brasil por R$ 1,977 bilhão em leilão na Bolsa de Valores B3, em São Paulo.

CELG – foto: divulgação Celg

No dia 26 de setembro de 2025 o governador Ronaldo Caiado assinou  o projeto de lei que autorizando a privatização da CELG-PAR. A empresa detinha as usinas hidrelétricas de Corumbá III, São Domingos, Rochedo, Mambaí e Mosquito, além de 12 subestações e 14 linhas de transmissão.  Este patrimônio foi vendido no dia 3 de outubro de 2025, em leilão na B3 em São Paulo, pelo valor de R$ 227,3 milhões.

Estádio Serra Dourada, foto: Secom

O Estádio Serra Dourada, foi privatizado após receber investimento de R$ 14 milhões em iluminação. No dia 16 de abril de 2025, por  R$ 10 milhões de reais, a empresa Construcap Engenharia e Comércio S/A, adquiriu a concessão para explorar pelos próximos 35 anos, a gestão do Estádio Serra Dourada, do Ginásio Goiânia Arena e do Parque Poliesportivo.

Na área de saúde, o governador Ronaldo Caiado retirou do controle dos servidores estaduais o Hospital do Servidor Público e o IPASGO. Até o ano de 2018, o IPASGO era administrado por uma junta tri-partite, com diretores indicados pelo governo do Estado e pelos servidores públicos. Em 3 de janeiro de 2022, o governo do Estado sancionou a Lei Estadual 21.200 que autorizou o Ipasgo a adquirir por R$ 128 milhões o Hospital dos Servidores Públicos, que foi construído ao longo de 15 anos com recursos oriundos de descontos nos vencimentos dos servidores públicos estaduais. O Hospital do Servidor foi repassado pela Secretaria de Saúde do Estado à OS (Organização Social) AGIR (Associação de Gestão, Inovação e Resultados em Saúde).

 

No dia 23 de março de 2023, o governador Ronaldo Caiado anunciou que o IPASGO deixaria de ser uma autarquia para se tornar uma empresa de direito privado gerido pela Agência Nacional de Saúde, sob o regime de Serviço Social Autônomo (SSA) e a administração deixou de contar com representantes dos servidores públicos na diretoria.

A SANEAGO publicou, no dia 22 de dezembro de 2025 o edital de leilão para Parcerias Público-Privadas (PPPs). O projeto prevê a concessão do esgotamento sanitário em 216 municípios por 20 anos, incluindo mais de 40 cidades que já possuem o esgotamento universalizado pela SANEAGO.

A concessão deve ir à leilão no dia 25 de março na Bolsa B3, em São Paulo.

Em 2024 a SANEAGO registrou lucro líquido recorde de R$ 621,5 milhões, além de apresentar índices elevados de cobertura: 98% de abastecimento de água universalizado e 74% de esgotamento sanitário.

Para os dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Urbanas no Estado de Goiás (STIUEG), assim como ocorreu com o Serra Dourada, o modelo de concessão mascara a privatização, pois se trata de um contrato de longo prazo (20 anos) que desloca decisões estratégicas para a lógica privada e reduz o poder real de controle público e social sobre um serviço que impacta diretamente saúde, meio ambiente, tarifa e desenvolvimento.

 

Considerando os últimos 29 anos, desde a privatização de Cachoeira Dourada em 1997, no governo de Maguito Vilela (PMDB),  o governador Ronaldo Caiado (PSD) vai entrar para a história como o que mais fez privatizações em Goiás: seis (CELG T, CELG PAR, Serra Dourada, SANEAGO), que se somam às mudanças de regime jurídico do Ipasgo e a venda do Hospital dos Servidores, que tirou dos funcionários públicos o controle do seu plano de saúde e do hospital que foi por eles construido. Marconi Perillo (PSDB) vem a seguir com duas privatizações (BEG e CELG D). Neste período, o governo de Alcides Rodrigues (2006-2010) foi o único que não vendeu empresa do Estado. Em 2010, Alcides Rodrigues buscou um empréstimo de R$ 3,728 bilhões para o estado de Goiás para pagamento da dívida da Companhia Energética de Goiás (CELG). Os recursos seriam  repassados pela Caixa Econômica Federal, com prazo de pagamento de 20 anos e juros anuais de 6%. A negociação não foi concluída por ingerências políticas.

 

Foto Leilão CelgPar Romullo Carvalho