Depois de cinco anos operando no Brasil, a UberEats encerra o serviço de entrega de comida de restaurantes. A empresa anunciou que vai finalizar suas operações em 7 de março

Gabriela Moncau, para o Brasil de Fato

O app de delivery que hegemoniza o segmento no país é o iFood. Com a saída da Uber desse mercado, a colombiana Rappi se posiciona como a principal concorrente da gigante brasileira.

De acordo com o jornal Valor Econômico, a dificuldade de competição com o iFood é um dos motivos do fim do serviço da UberEats. Questionada sobre o tema, a Uber se limitou a enviar um comunicado no qual não explica a razão da decisão.

Para o cientista político e pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) Mathias Alencastro, a hipótese aventada no Valor Econômico faz sentido. “Vivemos uma situação aberrante de monopólio de empresas na economia digital”, afirma.

Além disso, no caso da Uber, Alencastro destaca uma deterioração da imagem da empresa ao longo dos anos, bem como um fenômeno de associação da marca. “Quando alguém diz Uber, se pensa no motorista. Quando diz iFood, se pensa no entregador. Há uma situação em que esse tipo de consumo se automatizou ao mesmo tempo em que há um monopólio do iFood”, descreve.

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Em coluna publicada na Folha de S. Paulo, o pesquisador sugere, ao analisar a diminuição da oferta de motoristas de Uber no Brasil e no mundo, estarmos vivendo um momento em que, diante da inviabilidade financeira de exercer o emprego, trabalhadores estão aderindo a um movimento espontâneo e global de greve da economia digital.

Lais da Silva Oliveira trabalha há um ano como entregadora da UberEats na cidade de Mauá, região metropolitana de São Paulo. “Vai ficar complicado, pois é uma fonte de renda e é um app que não é tão cheio de regras”, relata.

Sobre possíveis motivos do fechamento do serviço, Laís opina que “falta estrutura e planejamento” por parte da empresa. “A taxa mínima que a UberEats paga por entrega é de R$ 5 tanto para moto quanto para bicicleta, e dependendo das distâncias não compensa para a gente se deslocar”, diz.

A Uber anunciou que vai seguir fazendo entregas de supermercados por meio da Cornershop – uma startup chilena adquirida em 2019 -; entregas de pacotes pelo UberFlash; e um serviço de entregas rápidas feitos para empresas, o UberDirect.

Em nota, a empresa disse que “segue seu compromisso com seus mais de 1 milhão de motoristas parceiros que geram renda fazendo viagens e entregas pela plataforma – o volume de viagens no Brasil já é maior do que o registrado no período anterior à pandemia”.

As batalhas contemporâneas das relações de trabalho

Para Alencastro, um dos problemas da reforma trabalhista em vigor hoje no Brasil é o fato de ela “criar um ambiente de trabalho totalmente precário para os trabalhadores digitais”.

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Citando o fato de o pré-candidato do PT à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, ter afirmado recentemente que, se eleito, revogará a reforma trabalhista –  inspirado em recente movimento semelhante na legislação espanhola -, o cientista político narra como na Espanha uma enorme população de jovens desempregados foi absorvida pela digitalização da economia. “E passou a trabalhar em condições muito precárias, pois enfrentam um vazio jurídico”, diz.

“Quando se fala em repensar essa reforma trabalhista no Brasil, é necessário incorporar essa questão. Seja em nome dos direitos dos trabalhadores, seja pelo fato de ser uma economia extremamente problemática e sem regulação”, avalia Alencastro.

“O Brasil é um caso exemplar. Há uma empresa, o iFood, que por um lado dita o futuro dos restaurantes do país, pois os restaurantes só se viabilizam se forem competitivos nessa plataforma. E, por outro, tem um poder de negociação brutalmente desigual com os trabalhadores”, elenca, ao salientar que “se o aplicativo desliga o entregador, praticamente ele retira toda a sua renda”.

“Como garantir a autonomia sem a precariedade?”, questiona Mathias Alencastro, para quem “esse é um desafio da luta pela revisão das atuais relações de trabalho”.

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Edição: Vinicius Segalla