O presidente Donald Trump voltou a afirmar com veemência que os Estados Unidos “precisam” da Groenlândia por razões de “segurança nacional”, reacendendo uma polêmica diplomática com a Dinamarca. Em entrevista nesta terça-feira (23), em Mar-a-Lago, Trump criticou o país nórdico por “não ter um Exército” e por supostamente negligenciar o território ártico. A declaração ocorre dias após a nomeação de Jeff Landry, governador da Louisiana, como “enviado especial para a Groenlândia” — medida imediatamente classificada como “totalmente inaceitável” pelo governo dinamarquês.
O interesse renovado de Donald Trump pela Groenlândia vai além da retórica: o presidente dos EUA insiste que o território ártico é “essencial para a segurança nacional” e não descarta medidas coercitivas para assegurar influência sobre a ilha. A declaração reacende uma crise diplomática com a Dinamarca e confronta o direito à autodeterminação dos cerca de 57 mil groenlandeses — 90% deles indígenas inuítes — que rejeitam veementemente qualquer tentativa de anexação.
Em resposta à nomeação de Landry — que já defendeu publicamente a incorporação da Groenlândia aos EUA —, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, convocou o embaixador norte-americano e exigiu respeito à soberania e à integridade territorial do reino. “A Groenlândia é parte inseparável da Dinamarca e não é um ativo negociável”, afirmou. A primeira-ministra Mette Frederiksen reforçou: “a Groenlândia é groenlandesa”, lembrando que qualquer decisão sobre o futuro do território cabe exclusivamente ao seu povo.
A União Europeia demonstrou solidariedade à Dinamarca, com os presidentes do Conselho Europeu, António Costa, e da Comissão, Ursula von der Leyen, reafirmando que “a integridade territorial e a soberania são princípios fundamentais do direito internacional”. A escalada retórica de Trump, somada à presença de Donald Trump Jr. em visita “privada” à Groenlândia nesta semana, intensifica a tensão com aliados tradicionais e coloca em xeque a credibilidade da diplomacia norte-americana na região ártica.
Estratégia de Trump mira minerais, segurança e influência no Ártico
O interesse de Trump na Groenlândia não é novo — remonta a 2019 —, mas ganhou contornos mais agressivos sob o argumento de que a ilha é vital para o acesso a minérios estratégicos, como terras raras e urânio, e para conter a crescente influência da China e da Rússia na região ártica. Analistas alertam, porém, que qualquer tentativa de anexação ignoraria tanto o direito internacional quanto a vontade dos cerca de 57 mil habitantes, em sua maioria inuítes.
A Groenlândia detém um dos maiores depósitos conhecidos de terras raras do mundo — elementos cruciais para tecnologias verdes, baterias e defesa militar. Além disso, sua localização estratégica entre a Rota Marítima do Norte e a Passagem Noroeste se tornará ainda mais relevante à medida que o derretimento do gelo ártico abrir novas vias comerciais até 2050. Para os EUA, impedir que potências como a China e a Rússia ampliem sua presença na região é prioridade. Pequim já tentou investir em infraestrutura e mineração na ilha, mas foi bloqueada sob pressão dos EUA e da União Europeia.
Desde a década de 1950, os EUA mantêm na Groenlândia a Base Espacial Pituffik — antiga Thule —, a instalação militar mais ao norte do país. Sua função principal inclui vigilância de mísseis balísticos (early warning); rastreamento de satélites e objetos no espaço; defesa aeroespacial da América do Norte, em cooperação com o Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte (NORAD); e apoio a operações científicas e climáticas no Ártico. Apesar da presença, a soberania do território pertence à Dinamarca — e, cada vez mais, aos próprios groenlandeses, que têm autonomia desde 2009.
Interesse estratégico frente à Rússia e contenção da influência chinesa
Embora os EUA não tenham planos públicos de “militarizar” a ilha no sentido tradicional (como instalar tropas de combate ou bases ofensivas), a presença militar americana já é significativa e tende a se expandir. Essa base é considerada estratégica para a segurança nacional dos EUA, principalmente diante da modernização das forças nucleares russas e do crescente interesse chinês na região ártica.
A população groenlandesa vê com desconfiança qualquer tentativa de interferência externa, especialmente com motivações militares. Além disso, militarizar excessivamente a Groenlândia poderia provocar uma resposta simétrica da Rússia, acelerando a corrida armamentista no Ártico — região até então relativamente estável.
A Rússia mantém uma forte presença militar no Ártico, com mais de 40 bases, sistemas de defesa aérea S-400, radares avançados e uma frota de quebra-gelos nucleares. Além disso, Moscou reivindica soberania sobre rotas marítimas e vastas áreas do fundo oceânico, incluindo trechos do Leste do Ártico que se estendem em direção ao Polo Norte.
A Groenlândia, por sua posição geograficamente oposta à costa russa, serve como um ponto de observação privilegiado para monitorar atividades militares russas no Oceano Ártico e rotas de voo de mísseis intercontinentais. Qualquer tentativa russa de projetar poder no Atlântico Norte passaria perto ou sob vigilância da Pituffik.
Embora a China não tenha fronteira com o Ártico, autoproclama-se “Estado próximo ao Ártico” e investe pesadamente em infraestrutura, pesquisa e recursos naturais na região. Pequim buscou, sem sucesso, investir em mineração, aeroportos e estações de satélite na Groenlândia — o que levantou alertas de segurança em Washington e Bruxelas.
Os EUA temem que a China use presença civil como fachada para operações de inteligência ou ganho de influência político-econômica em territórios críticos. Uma Groenlândia independente — e potencialmente mais vulnerável — poderia, na visão de estrategistas americanos, se tornar um ponto de entrada para Pequim no hemisfério ocidental.
Por isso, a pressão dos EUA para bloquear investimentos chineses na ilha tem sido constante, tanto sob Trump quanto sob Biden.
Embora os EUA já tenham uma presença militar robusta, qualquer expansão significativa dependeria de autorização da Dinamarca — que controla defesa e política externa da Groenlândia — e do consentimento político dos groenlandeses.
Atualmente, há discussões sobre: modernização da infraestrutura da Base Pituffik, incluindo capacidade de apoio a drones e sistemas de defesa antimíssil; aumento da cooperação com a OTAN em exercícios árticos, com participação de tropas dinamarquesas, norueguesas e americanas; proteção de rotas marítimas emergentes, como a Passagem Noroeste.
No entanto, não há indícios de que os EUA pretendam instalar forças de ataque ofensivo (como mísseis de médio alcance ou unidades de combate terrestre) na ilha. O foco permanece em dissuasão, vigilância e defesa.
População groenlandesa rejeita anexação pelos EUA
Apesar do desejo de independência em relação à Dinamarca — 75% apoiam a secessão em algum momento futuro —, os groenlandeses rejeitam categoricamente a ideia de se tornar parte dos Estados Unidos. Pesquisa recente do jornal Sermitsiaq aponta que apenas 6% da população apoia tal hipótese. O primeiro-ministro groenlandês, Múte Egede, aproveitou a pressão externa para acelerar o debate interno: anunciou que proporá um referendo sobre independência total, afirmando que “chegou a hora de remover os grilhões do colonialismo”.
O primeiro-ministro Múte Egede afirmou com firmeza: “A Groenlândia é nossa. Não estamos à venda e nunca estaremos.” Ele chama a atual relação com a Dinamarca de “grilhões do colonialismo”.
História colonial e autonomia em jogo
Embora a Groenlândia seja autônoma desde 2009, a Dinamarca ainda controla defesa, política externa e finanças. A ilha recebe cerca de 500 milhões de euros anuais de Copenhague — quase metade de seu orçamento. Esse apoio econômico é visto por muitos groenlandeses como um freio à independência imediata, mesmo entre os que valorizam sua soberania. Enquanto Trump evoca analogias históricas como a compra do Alasca, estudiosos lembram: diferentemente do século XIX, hoje territórios não se vendem sem o consentimento de seus povos. E na Groenlândia, a resposta é clara: “não estamos à venda”.
Embora já tenha havido tentativas anteriores de compra — como a oferta de US$ 100 milhões feita por Truman em 1946 —, o contexto atual é radicalmente diferente. A Groenlândia goza de direito legal à autodeterminação, e qualquer transferência de soberania exigiria consentimento popular. “Trump age com mentalidade colonial do século XIX”, criticam especialistas. Sua pressão, porém, pode ter o efeito inverso: acelerar o caminho da ilha rumo à independência, longe tanto da Dinamarca quanto dos EUA.
Em dezembro de 2024, o rei Frederico X atualizou o brasão real dinamarquês, substituindo as coroas medievais por um urso polar — símbolo da Groenlândia — e um carneiro, das Ilhas Faroé. A mudança foi interpretada como um recado claro: Groenlândia e Faroé são partes inseparáveis do reino, não “ativos negociáveis”. A primeira-ministra Mette Frederiksen reforçou: “A Groenlândia é groenlandesa — e só seu povo decide seu futuro.”
Com informações do The Conversation e Portal Vermelho