No primeiro ano do MotoGP de Goiânia o artista plástico emprestou o seu talento para criar uma marca icônica
Marcus Vinícius de Faria Felipe
Aquele ano de 1987 foi marcante para toda uma geração de brasileiros. No dia 2 de fevereiro Ulysses Guimarães foi eleito presidente da Assembleia Nacional Constituinte, e dava início aos trabalhos que levariam à promulgação da Constituição Cidadã de 1988. No 31 de maio, pilotando a sua Lotus dourada, Ayrton Senna vencia pela primeira vez o GP de Mônaco de Fórmula 1. Neste mesmo ano a revista Playboy trouxe capas marcantes com as atrizes Maitê Proença, Sônia Lima e Lídia Brondi, a garota de Ipanema Helô Pinheiro a modelo Magda Cotrofi, e em setembro (mês do MotoGP) a gatíssima Luma de Oliveira.
O MotoGP mexeu com o orgulho dos goianienses. A cidade respirava novos ares, com a cena artística e cultural em alta. Goiânia vibrava ao som da MPB, Pop-rock e samba. Pasmen: Goiânia não era a ‘Nashville Brasileira’. A música sertaneja não tomava conta de 80% das rádios. Nas FM’s da época, como a RBC FM, Rádio Araguaia e Antena 1, era mais fácil ouvir Legião, Barão Vermelho, Titãs, João Caetano, Marcelo Barra, Pádua, Gustavo Veiga, Juraildes, Laércio Correntina, Gilberto Correia, Amaury Garcia. Em Goiânia o ‘bar sertanejo raiz’ era o Gingas Chopp, em Campinas. Foi ali que Leandro e Leonardo começaram a se apresentar.
As artes plásticas estavam bombando na cidade. Antônio Poteiro, vendia suas esculturas de barro na Feira Hippie (que era na Avenida Goiás). Ele passou a expôr suas obras nas galerias graças a Dona Célia Câmara, grande mecenas dos artistas goianienses. Nas artes cênicas, Hugo Zorzetti e seu elenco da peça “Eta Goiás!” divertia o público no Teatro da Galeria 1 (que depois seria transformado na icônica boate Zoomp).

Nestes distantes anos 1980 eu era serígrafo e tive uma oportunidade de ouro em 1987. A empresária Maria Célia, em cuja confecção minha mãe, Euza Faria, era modelista, teve uma ótima ideia: pediu ao artista plástico Siron Franco permissão para imprimir em camisetas a marca que ele havia criado para o MotoGP. O resultado final foi esta T-shirt da foto, que foi impressa no nosso silk-screen, que funcionava na Rua da Imprensa, no Setor Rodoviário. Foram confecionadas 50 mil camisetas. Levei uma semana de trabalho noite adentro para entregar a tempo de serem costuradas na facção. Valeu a pena. Maria Celia vendeu todas, e eu, feliz com o resultado e o inusitado de uma vez na vida ter “pintado” uma obra de Siron.

A corrida, todos sabem o resultado. Wayne Gardner venceu e conquistaria o título de campeão naquele mesmo ano. Ele foi o o primeiro australiano a vencer o mundial de 500cc. Randy Mamola, que era o preferido dos goianienses ficou em terceiro lugar. Em 1989, enquanto o público curtia mais uma edição do MotoGP, uma família no Bairro Popular abria a capsula do césio 137. Mas esta é uma outra história.


