Vinte e cinco anos após a privatização do Banco do Estado de Goiás (BEG) e décadas após a traumática liquidação da Caixego, o governo de Goiás decide, a meses da eleição majoritária, que é hora de o Estado voltar a ter seu próprio “guichê” bancário. Rebatizado com o nome do fruto mais simbólico do cerrado, o Pequi Bank surge como a grande aposta de inovação de Daniel Vilela. No entanto, o projeto nasce sob o escrutínio de quem teme um “replay” de velhos escândalos, agora turbinado por capital internacional e tecnologia de ponta.

BEG e Caixego

Nas eleições de 1998, quando o PMDB foi destronado do poder pelo PSDB do “moço da camisa azul”, um dos assuntos que mais trouxe desgastes para o então candidato Iris Rezende foi o “escândalo BEG/Caixego”, quando foi denunciado que cerca de R$ 5 milhões de reais da Caixego foram supostamente desviados no segundo turno daquela eleição para bancar a tentativa de virada do candidato peemedebista. Esta suspeita levaria à troca do liquidante da Caixego e à intervenção do Banco Central no Banco do Estado de Goiás (BEG), que seria depois federalizado e privatizado. Este escândalo custaria caro ao PMDB e voltaria de novo à pauta nas eleições de 2002 e 2006, tirando votos do PMDB e levando à derrota dos governadoriáveis do partido.

Matéria da Folha de S. Paulo detalha o escãndalo BEG/Caixego

Conexão Silicon Valley
O que mais chama a atenção no projeto não é apenas a estrutura estatal, mas quem está por trás da tecnologia. O governo selecionou, via chamamento público, o Stark Bank S.A. — uma fintech que ostenta em seu quadro de investidores ninguém menos que Jeff Bezos, o fundador da Amazon, dono de uma das maiores fortunas dos Estados Unidos e do mundo.

A entrada de um gigante global no sistema financeiro goiano levanta um debate acalorado na Assembleia Legislativa (Alego): por que o Estado está entregando a movimentação de R$ 16,7 bilhões de reais e os dados sensíveis de milhares de servidores a uma plataforma privada controlada por fundos estrangeiros e magnatas da tecnologia?

Os “Gargalos” do Pequi Bank em Ano de Urnas
A reportagem apurou pontos críticos que prometem incendiar os debates parlamentares nesta semana:
1. Soberania e o “Dono” dos Dados: Críticos apontam que, ao adotar o modelo Banking as a Service (BaaS) do Stark Bank, o governo de Goiás pode estar terceirizando a inteligência financeira do Estado. “O cérebro do banco é do Bezos, mas o risco é do povo goiano”, afirmam parlamentares da oposição.
2. O Risco de Ingerência Política: O temor é que o Pequi Bank se transforme em uma ferramenta de populismo econômico. Com a previsão de liberar R$ 120 milhões de reais em microcrédito justamente no ano em que Daniel Vilela busca a reeleição, a pressão por critérios técnicos em vez de políticos será imensa.
3. Transparência no Chamamento:* O fato de o Stark Bank ter sido a única empresa habilitada no Edital 011/2025 gera desconforto. Questiona-se se o modelo de “chamamento” foi desenhado para atrair apenas um perfil específico de fintech, limitando a concorrência.
4. A Memória do BEG e da Caixego: O trauma histórico de bancos estatais que serviram de “caixa” para campanha do PMDB ainda assombra o estado. A oposição questiona se o conselho do Pequi Bank será técnico o suficiente para resistir a pressões do Palácio das Esmeraldas.
O Que Diz o Governo
O governo Vilela reage com firmeza. Alega que a parceria com uma instituição do porte do Stark Bank, chancelada por investidores como Jeff Bezos, é a maior garantia de idoneidade e modernidade que Goiás já teve. Segundo o Palácio, o banco é 100% digital e auditado por algoritmos, o que impediria as fraudes manuais e o uso político que quebraram o BEG no passado.

O Veredito na Alego
Com o contrato de parceria prestes a ser assinado, a oposição na Alego exige a abertura do plano de negócios e as cláusulas de remuneração da fintech de Bezos. A corrida é contra o relógio: o governo quer o aplicativo nas mãos dos goianos em junho de 2026. Resta saber se o Pequi Bank será um motor de desenvolvimento ou se Goiás está apenas trocando o “coronelismo” do passado pelo “tecnopopulismo” do futuro.

Jornal Folha de Londrina: R$ 5 milhões foram para campanha do PMDB –  https://www.folhadelondrina.com.br/geral/testemunha-diz-que-r-5-milhoes-da-caixego-foram-para-campanha-146553.html

Folha: Entenda o escândalo BEG/Caixego

Em 1990, a Caixego (Caixa Econômica do Estado de Goiás) é liquidada extrajudicialmente pelo governo Collor (90-92).

Considerando-se prejudicados, 124 funcionários vão à Justiça cobrar direitos trabalhistas. Em 1998, ganham o direito de receber R$ 14 milhões, mas concordam em dividir R$ 5 milhões.

Apesar do acordo, R$ 10 milhões são sacados dos cofres da Caixego cinco dias antes do segundo turno das eleições para o governo de Goiás. O desvio torna-se público, e o advogado Valdemar Zaidem é acusado de ter ficado com o dinheiro.

O Ministério Público diz que a verba foi gasta na campanha do senador Iris Rezende ao governo goiano. Derrotado por Marconi Perillo (PSDB), Iris nega a acusação.

Entre janeiro e março de 2000, a Justiça decreta a prisão de Edivaldo Andrade, ex-liquidante da Caixego, e Otoniel Machado, irmão e suplente de Iris.

Em março de 2000, R$ 5 milhões são depositados em segredo na conta da Caixego. Em setembro de 2001, apuração do BC aponta a empresa Alstom Brasil Ltda. como dona do dinheiro. O relatório do BC desmente as acusações a Zaidem. A verba é parte de um empréstimo do BNDES a Alstom. (Texto referente à reportagem da Folha em 27/12/2001.

 

Em manifestação no Senado, Iris destaca devolução do dinheiro da Caixego- https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2000/03/14/iris-diz-que-devolucao-do-dinheiro-da-caixego-prova-a-sua-inocencia