Partidos que não apoiam a reeleição de Caiado e de Bolsonaro podem estar juntos num mesmo palanque já no primeiro

Marcus Vinícius de Faria Felipe

 

Em Goiás, toda vez que o governo consegue dividir a oposição, vence as eleições. O governador Ronaldo Caiado (DEM) sabe disso. Esta estratégia foi aplicada várias vezes com maestria pelos ex-governadores Iris Rezende (MDB) e Marconi Perillo (PSDB), e garantiu a ambos o domínio do Estado por 32 anos (16 no irismo e 20 no marconismo). Este ano o desafio do governador é confirmar o caiadismo como opção política da maioria dos eleitores. Mas não será fácil.

Caiado se elegeu como governador num momento de esgotamento político do marconismo. O sucessor escolhido por Marconi,  o ex-governador José Eliton não conseguiu empolgar as bases situacionistas e nem avançar além delas. O resultado: derrota. Caiado, por sua vez, trouxe para si o irismo e angariou votos de eleitores marconistas irritados com a condução do governo, e por isto venceu. Este ano de 2022, no entanto, a história é outra.

Em 2018 contribuiu sobremaneira para a eleição de Ronaldo Caiado a “onda Bolsonaro”. Ele surfou como poucos neste maremoto político que tomou conta do Brasil naquela eleição. Mas agora, em 2022, esta onda quebrou na praia e Bolsonaro ao invés de ajudar, pode atrapalhar Caiado. O presidente da República é agora um aliado incômodo, em queda nas pesquisas, amargando altos índices de impopularidade e com uma administração que só entregou insucessos, dentre eles, inflação alta, combustíveis com os preços nas alturas e a taxa de juro na estratosfera, que endivida as famílias, inibe o consumo e a retomada do desenvolvimento econômico.

Esse quadro de derrocada econômica produz  terreno fértil para um pacto que implique num pós-Bolsonaro e em tudo o que ele representa, e a primeira manifestação deste novo arranjo político são as negociações para formação da chapa Lula (PT) presidente e Geraldo Alckmin, vice. A ideia de que desta chapa saia do plano das ideias e se torne uma realidade tem recebido manifestações de apoio de políticos de diversas matizes. A mais recente foi a do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), que disse que a aliança entre o ex-tucano e o petista pode ajudar a superar a desunião no país .

No meio jornalístico, a principal comentarista política do o Globo, Miriam Leitão  avaliou que o desastre na economia produzido pelo governo de Jair Bolsonaro, com aumento da fome, da pobreza e do desemprego devem levar a eleição do ex-presidente Lula já no primeiro turno.

Ação e reação

Em Goiás, os atores políticos da oposição já se movimentam. O prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha é cada vez mais candidato a governador, e as pesquisas, como a do Instituto Voga, divulgada no dia 28 de dezembro pela TV Gazeta, confirma que ele está credenciado na disputa, iniciando de um patamar alto (21,07%). Esta mesma pesquisa revelou que o ex-governador Marconi Perillo também está no páreo (10,76%).

Este levantamento mostrou que o governador Ronaldo Caiado (DEM), que  obteve 34,94%, continua sendo o favorito para carimbar o segundo mandato, mas há sinais preocupantes para o inquilino da Casa Verde.

Uma união entre Gustavo Mendanha (21,07%) e Marconi Perillo (10,76%), levaria, em tese, a uma chapa com potencial de votos de 31,83%, o que já seria um empate técnico com o governador. Se a estes se juntassem os votos dos candidatos do PT (1,96%), do Major Vitor Hugo (3,32%) e do senador Vanderlan Cardoso (4,46%), a soma dos votos oposicionista pode totalizar 41,01%, praticamente oito pontos percentuais a mais que o total de votos do governador.

Mas isto são cogitações.

Nada garante que toda oposição esteja num mesmo palanque.

O senador Vanderlan Cardoso, por exemplo, pode muito bem refluir e apoiar a reeleição do governador, levando para a aliança governista o PSD, que tem hoje como uma de suas estrelas Henrique Meirelles, pré-candidato ao Senado, e atualmente desempenhando a função de secretário da Fazenda do Estado de São Paulo. Uma chapa Ronaldo Caiado (DEM) governador, Daniel Vilela (MDB) vice e Henrique Meirelles (PSD) senador, coloca o mandatário numa situação muito mais confortável do que ele está hoje.

Mas nada está no automático. O governador Ronaldo Caiado também lida com dificuldades para confirmar o último lugar na chapa majoritária. Há uma pressão do Palácio do Planalto para que a vaga de candidato ao senado na chapa situacionista seja dada ao ministro dos Transportes, Tarcísio Ribeiro (PL). O PP, principal partido de sustentação do presidente Bolsonaro também quer impor o nome do ex-ministro Alexandre Baldy para a senatória. Como se vê, não está fácil para Caiado fazer a amarração final de sua chapa.

A questão do vice

De outro lado, uma aliança entre o Gustavo Mendanha  e Marconi Perillo, tendo o prefeito como candidato ao governo e o ex-governador candidato ao Senado também pode render bons frutos a ambos. E o vice? Quem ou qual partido seria escolhido para esta função?

O governador Ronaldo Caiado fez o cálculo de que tendo um vice do MDB, trazia para o seu lado o eleitorado do até então principal partido de oposição em Goiás, além, é claro, de dezenas de prefeitos, vereadores e o tempo de televisão.

A oposição pode fazer o mesmo cálculo, e analisar a possibilidade de ter um nome do PT na vice, afinal o partido tem o nome que lidera a disputa pela presidência, com possibilidade inclusive de vitória no primeiro turno. Além de Lula o PT também tem o maior tempo de televisão, e isto entra na conta no cálculo eleitoral deste ano.

Há ainda a possibilidade real do ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin se filiar ao PSD, do ex-ministro Gilberto Kassab, e aí, como fica a aliança dos pesedistas em Goiás?

O jogo eleitoral de 2022 é muito mais complexo do que aquele de 2018, quando o eleitor goiano votou contra a continuidade do marconismo e fez uma aposta no “mito” do ex-capitão. O que se impõe é um desafio para o governo e para oposição: Quem melhor interpretar a vontade do eleitor é que irá cruzar a linha de chegada em primeiro lugar.