Contaminação acelera em todo o país: Atualmente, cada dez infectados transmitem a doença para mais 14 pessoas. Na Europa, segundo a OMS, mais da metade da população do continente será infectada pela ômicron até daqui a dois meses.

O Ministério da Saúde admitiu na terça-feira (11) que a variante ômicron do novo coronavírus já é predominante entre os brasileiro. Mais transmissível, a nova cepa é responsável pela explosão de casos em todo o mundo. Por aqui, não é diferente.

“Infelizmente, ela já é prevalente aqui no Brasil, nós estamos assistindo ao aumento de casos”, afirmou o ministro Marcelo Queiroga.

Nesse sentido, a taxa de transmissão da covid-19 no país chegou a 1,4. Isso significa que, a cada 10 pessoas que contraem a doença, outras 14 são contaminadas. É o maior avanço no contágio desde março do ano passado, quando o país enfrentou o pico da pandemia.

De acordo com a plataforma Info Tracker, uma parceria entre USP e Unesp, esse índice deve chegar a 1,55 na próxima semana. Há diversos indícios de que a ômicron seja menos grave que as cepas anteriores. Ainda mais diante do aumento da vacinação. Ainda assim, dada a elevada capacidade de transmissão, a nova variante também é um desafio para os sistemas de saúde.

Em Campo Grande, capital sul-mato-grossense, 93% dos leitos de UTIs da rede pública voltados para pacientes com covid-19 estão ocupados. Com exemplos assim, e diante da omissão do governo federal, prefeituras e governadores estão reforçando medidas de controle e isolamento.

Restrições

A cidade de São Paulo, por exemplo, passou a exigir comprovante de vacinação em todos os eventos, independentemente do número de pessoas. Até então, a exigência valia apenas para públicos acima de 500 pessoas. Em todo o estado, a taxa de ocupação de leitos de UTI para covid-19 saltou de 25% para 35%, em uma semana. Na região metropolitana, o salto foi de 32% para 42%. Da mesma forma, Belo Horizonte também reabriu leitos de UTI voltados para a doença.

Em Pernambuco, o governo estadual vai começar a exigir comprovante de vacinação para o acesso a bares, restaurantes, cinemas, museus e teatros. A medida começa a vale a partir da próxima sexta-feira (14). Também foi limitada para 3 mil pessoas a lotação em todos os eventos públicos no estado. Além do passaporte de vacinação, deverá ser apresentado teste RT-PCR negativo realizado 24 horas antes.

Na Bahia, o governador Rui Costa (PT) classificou a situação como de “pré-colapso”. Isso em função do aumento na procura por atendimento médico nas emergências municipais e estaduais, UPAs e postos de saúde. Os eventos também estão limitados a 3 mil pessoas, com comprovante de vacinação e uso de máscaras obrigatórios.

Risco ômicron

O pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Leonardo Bastos explica o risco coletivo da ômicron. Ele utilizou duas cidades hipotéticas com 1 milhão de habitantes cada. Uma delas enfrentando um surto de uma doença que ele chamou de D1: menos transmissível, contagiando 5% da população. Porém mais grave, com 1% dos contaminados evoluindo para casos graves. Outra, atravessando um surto mais leve, D2, similar à ômicron, com apenas 0,5% evoluindo para casos graves. Porém mais transmissível, contaminando 20% da população.

Nesse modelo, após três meses, espera-se 50 mil infectados e 500 casos graves para a primeira cidade. Na segunda, no entanto, o total de infectados chegaria a 200 mil, com 1.000 casos graves.

“É um exemplo bem simples, mas mostra que, numa primeira vista, D2 é melhor, pois a chance de evolução para caso grave é menor. No entanto, a chance de um conhecido passar por complicações aumenta (pois mais conhecidos vai se infectar)”, explicou o especialista, no Twitter.

Bastos ressalta que, “do ponto de vista populacional, há uma chance do sistema de saúde entrar em colapso por conta da combinação entre gravidade e transmissibilidade, que pode levar a muitos hospitalizados em um mesmo período”. Ele comparou ao pico da covid causado pela variante gama em Manaus, no início do ano passado, quando o sistema de saúde colapsou.

Sinais trocados

Apesar do avanço no número de casos, o ministério da Saúde adotou mais uma medida controversa. A pasta decidiu ontem (10) reduzir de dez para sete dias o período recomendado de isolamento para pacientes com covid-19. Existe ainda a possibilidade de encurtar ainda mais o tempo de isolamento. Se no quinto dia o paciente não tiver mais nenhum sintoma respiratório, não apresente febre e estiver há 24 horas sem usar medicamento antitérmico, ele pode fazer um teste rápido de covid-19. Assim, se o teste der negativo para o vírus, ele também está liberado.

No entanto, para o neurocientista Miguel Nicolelis “não faz sentido nenhum” reduzir o tempo de isolamento. Pelas redes sociais, ele afirmou que essa medida prioriza a economia, e não o bem-estar da população. Além disso, o especialista também ressaltou que os dados utilizados para definir o período de isolamento são baseados nas variantes anteriores, e não na ômicron.

Números da Covid no Brasil

Após um mês de apagão de dados no Ministério da Saúde, o Brasil registrou nas últimas 24 horas 70.765 novos casos de covid-19. Especialistas afirmam que não é possível dimensionar o aumento de casos, em função dos dados represados do último período. No entanto, o número de novos infectados mais que dobrou em relação ao dia anterior. Por outro lado, no mesmo período, foram 147 óbitos registrados oficialmente. Ao todo, 620.238 pessoas morreram vítimas da doença, desde o início da pandemia. Os casos somam mais de 22,6 milhões (22.629.460). A coleta de dados é feita pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

Europa

variante omicron

OMS destaca que “vacinas aprovadas atualmente continuam a fornecer uma boa proteção contra sintomas graves e morte, inclusive para a ômicron

Segundo o diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa, Hans Kluge, mais da metade da população do continente será infectada com a variante ômicron até daqui a dois meses. Somente na primeira semana de 2022, a Europa teve mais de sete milhões de casos oficiais de covid-19, mais que o dobro do mesmo período duas semanas antes.

“Nesse ritmo, o Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde prevê que mais de 50% da população da região será infectada com a ômicron nas próximas 6 a 8 semanas”, disse Kluge em entrevista coletiva.

O diretor da OMS relatou que 50 países já registraram casos de infecção pela variante ômicron e ela está “rapidamente se tornando o vírus dominante na Europa Ocidental e agora está se espalhando nos Balcãs”.

“A partir de 10 de janeiro, 26 países relatam que mais de 1% de sua população está adquirindo covid-19 a cada semana”, disse ainda Kluge.

Com informações da RBA e Agência Brasil