O separatismo de Zema e a lucidez de Tancredo, Lula e Caiado

O separatismo de Zema e a lucidez de Tancredo, Lula e Caiado

Marcus Vinícius de Faria Felipe

É antigo o adágio popular de que “tem gente que para burro só faltam as orelhas”.

Nos seus quatro anos de presidência Jair Bolsonaro (PL) trabalhou diariamente para dividir o país. Seja nas suas lives no facebook, twitter ou em declarações à imprensa, Bolsonaro atacou nordestinos, nortistas, pretos, pobres, favelados, petistas, comunistas, tucanos e o centrão (do qual depois virou refém para não sofrer o impeachment).

Como resultado de seu discurso hidrofóbico, Bolsonaro é o único presidente na história da República, desde 1998, que não foi reeleito.

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) segue o exemplo do “Mito”, e, a cada passo, aumenta o tamanho das orelhas.

Sua mais recente fala contra os brasileiros nascidos no Nordeste e no Norte do país é um exemplo de estupidez política, daqueles que desconhecem a história do próprio Estado.

Mas o que esperar do único governador de Minas Gerais, que além de não se orgulhar da Inconfidência Mineira, se juntou à coroa portuguesa para criminalizar outra vez os inconfidentes, dizendo que eles mereciam ser presos por ousarem liberar um movimento para libertar o Brasil de Portugal?

Fosse Zema mais sábio, e mais fiel aos políticos do seu Estado, poria os seus pés junto das pegadas do ex-governador Tancredo Neves (PMDB), ao invés de seguir os passos de Bolsonaro.

Zema não leu Tancredo

Tancredo foi eleito presidente da República no Colégio Eleitoral, justamente porque soube unir os votos do Sudeste aos do Norte, Nordeste e Centro Oeste, quando rachou o PDS, partido da ditadura militar, trazendo para o seu lado o presidente da legenda, o senador Maranhense José Sarney, e outro prócere do partido de sustentação do regime militar, o senador pernambucano Marco Maciel. Juntos, Tancredo, no PMDB, Sarney e Maciel no PFL, derrotaram a ditadura dentro do seu jogo de cartas marcadas no Colégio Eleitoral.

Mas se Zema não leu nada sobre o papel da Inconfidência Mineira na Independência do Brasil, o que esperar dele sobre o papel de Minas Gerais na redemocratização do país?!

“Quem não lê, fica com orelha maior”, me disse Tia Nelinha, minha professora no pré-escolar, no Colégio Álvaro de Melo, em Ceres, ao me entregar a cartilha “Caminho Suave”, livro utilizado naqueles tempos para a alfabetização escolar.

Mas voltemos a Zema.

Ele defende que é o Sul-Sudeste contra o Norte-Nordeste. “É nós contra eles” e que os estados nordestinos e nortistas teriam supremacia no Conselho Federativo da República, órgão que vai regular a divisão de receitas após a reforma tributária consolidar as mudanças na arrecadação dos impostos no Brasil.

Caiado defende unidade

Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado (União Brasil) que é casado com a baiana de Ilhéus Gracinha Caiado, rejeitou a fala xenofóbica do seu colega mineiro.

“O Centro-Oeste, no que depender de Goiás, será sempre este elo forte para nunca permitir o avanço de qualquer sentimento separatista, o que é responsabilidade de todos nós, governadores e governadoras”, frisa Caiado.

Caiado creditou a fala de Zema ao estresse de alguns governadores com a Reforma Tributária, que já foi aprovada na Câmara Federal e passa agora por análise final no Senado.

Para Caiado, os gestores estaduais devem se unir e lutar pela autonomia dos Estados e contra perdas de receitas para União. Ele avalia que é possível equilibrar o jogo e evitar perdas aos estados no Conselho Federativo.

“O Conselho Federativo pode ser benéfico para alguns neste momento, mas amanhã o pêndulo pode mudar de lado”, aponta Caiado.

Caiado participou da fundação da Frente Liberal, que depois viria a se tornar o PFL (Partido da Frente Liberal) atual União Brasil.

No dia 8 de janeiro deste ano, quando terroristas bolsonaristas invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e a sede do Supremo Tribunal Federal, o governador de Goiás ligou para o ministro da Justiça Flávio Dino e anunciou que estava enviando tropas da Polícia Militar à Brasília para dar sustentação ao governo federal na defesa da democracia.

Caiado leu Tancredo e se afastou das posições mais radicais do bolsonarismo já na pandemia, quando defendeu o uso de máscaras e a vacina contra a covid-19.

Zema, coitado, ainda não leu nem a cartilha Caminho Suave…

Lula leu Getúlio

O presidente Lula está no terceiro mandato, e não é obra do acaso. Ele leu Getúlio Vargas, leu Tancredo Neves e leu Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Dom Evaristo Arns e Dom Helder Ribeiro.

Lula soube costurar uma frente ampla de apoio, do Sul, Sudeste, Norte, Nordeste e Centro-Oeste que o levou à presidência. Seu vice, Geraldo Alckmin, foi governador de São Paulo, seus principais acordos eleitorais foram com o PSB, MDB e setores do PDT, garantindo votos no Nordeste e Sudeste à sua eleição.

Agora, na presidência, Lula costura os apoios do PP de Arthur Lira e do Republicanos, do Bispo Edir Macedo para consolidar a governabilidade.

Lula aposta no diálogo e na unidade. E foi por isto que ganhou as eleições.

Caiado também fez costuras políticas. Em 2014 apoiou a candidatura de Iris Rezende ao governo do Estado e foi eleito Senador com apoio do MDB. Em 2018, teve a maioria do MDB ao seu lado na eleição ao governo, e em 2022, foi reeleito, tendo Daniel Vilela (MDB) na vice e o respaldo uma ampla frente de partidos.

Tancredo, Lula e Caiado venceram porque apostaram na política.

Zema já entra perdendo porque segue os passos de um perdedor. E a orelha, vai ficando cada vez maior…

A cartilha que Zema não leu…