Titulo de Padroeira não fere laicidade do Estado’, afirma sociólogo
André Ricardo de Souza conta que fundador da igreja que Flávio Bolsonaro faz parte já atacou a santa em um livro.
Na reta final da campanha, Nossa Senhora Aparecida vem ocupando o centro do debate eleitoral. Isso porque, desde a semana passada, circulam nas redes sociais notícias que apontam que, se eleito presidente, Flávio Bolsonaro (PL) tiraria o título da santa de padroeira do Brasil. A informação é falsa e surgiu a partir de um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes de que haveria um movimento da direita para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.
Na realidade, existiu um projeto, em 2007, o PL 2.623, apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli, à época do PMDB de Mato Grosso, que sugeria alterar a Lei nº 6.802, de 1980, substituindo a referência a Nossa Senhora Aparecida como “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta não tem ligação com Flávio Bolsonaro e não foi adiante. O comentário de Fernandes ganhou tração nas redes sociais. Flávio então culpou o PT e a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pela fake news.
A CNBB divulgou uma nota nesta segunda-feira (28) em resposta às acusações do candidato à presidência, afirmando que “mentiras não se combatem com mentiras”. Ainda neste contexto, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, expediu uma liminar liberando conteúdos sobre o tema, depois que André Mendonça, na última sexta-feira (25), havia ordenado a remoção dessas postagens.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, André Ricardo de Souza, professor de sociologia da UFSCar e coordenador do Núcleo de Estudos de Religião, Economia e Política, aponta que, independentemente da religião, Nossa Senhora Aparecida se tornou um símbolo da identidade nacional, assim como a bandeira. “Tem uma trajetória histórica e é reverenciada por chefes de Estado e políticos dos mais diferentes espectros”, afirma, ao recordar o episódio em que um pastor evangélico chutou a imagem em um canal de TV e isso gerou imensa repercussão.
Souza observa que o fato de Nossa Senhora Aparecida ter o título de padroeira do Brasil não fere a laicidade do Estado brasileiro. “É um patrimônio cultural e isso não limita o caráter laico do país”, reforça. O professor lembra que a definição da padroeira partiu da própria igreja ainda na década de 1930, momento em que o país não era mais atrelado à Igreja Católica. “O Brasil dava os primeiros passos na direção de uma definição de um país laico, o que viria a culminar na Constituição de 1988.”
Questionado sobre a função de uma instituição religiosa na sociedade, André Ricardo de Souza defende que é exatamente a que vem exercendo a CNBB. “A função da parte de uma instituição séria que respeita a laicidade do Estado é exatamente fazer a valorização da democracia e da soberania do país, e o estímulo ao voto. E me parece ter sido esse o papel da CNBB: a valorização do voto e da participação popular nas eleições”, avalia.
Independentemente do fato de a informação que atrela Flávio Bolsonaro a essa ideia de remover o título de Aparecida de padroeira do Brasil, o sociólogo conta que o pastor João Batista Carvalho, fundador da Igreja Comunidade das Nações, à qual Flávio é frequentador, tem um livro no qual defende o combate à santa. “Ele faz ataques duros à Aparecida, dizendo que ela é associada à Rainha do Céu e que seria equivalente a divindades do paganismo antigo e que promoveria perversidades, coisas terríveis. Essa é a igreja frequentada pelo Flávio Bolsonaro”, destaca. “Você tem elementos concretos que levaram a essa interpretação.”
Para ouvir e assistir
Durante o horário eleitoral, até 1º de outubro, o jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira das 12h25 às 14h, e a segunda, sem alteração, a partir das 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
BdF – Foto: José Cruz/Agência Brasil