Quem assistir na Netflix ao documentário “Águas turbulentas”, da serie Rotten, nunca mais põe uma garrafa d´água da Nestlé na boca e nem consome mais nenhum produto desta empresa anglo-suíça ou de outras multinacionais que fazem lobby pela privatização de água do planeta.

Marcus Vinícius de Faria Felipe

 

O documentário mostra o caso da Nigéria, onde a Nestlé privatiza a água dos rios, e dificulta o acesso das fontes às comunidades tribais. Os suíços, que tem rede estatal de abastecimento de água e esgoto, exploram o país africano, que não contam com este serviço e lucras bilhões de dólares no mercado de US$ 6 bilhões de Lagos, a capital de Nigéria com seus 21 milhões de moradores, 90% deles sem rede de abastecimento e que dependem da compra de água engarrafada.

Privatização e crueldade

Mais a crueldade é ainda maior, porque o vídeo mostra que todos os anos dezenas de mulheres morrem atravessando uma rodovia de duas pistas para pegar a água do rio que foi privatizada pela Nestlé, que prometeu fornecer água gratuita aos aldeões, para compensar o uso do rio, mas não o fez.

A Nestlé está por trás do lobby da privatização da água no Brasil também. Numa entrevista em 2005, o CEO da empresa, Peter Brabeck-Letmathe, já disse que a “Água não é um direito básico humano e tem que ser privatizada. “ Ou seja, para os suíços, água estatal na torneira de cada família, para o resto do mundo, as garrafinhas de água da Nestlé. Simples assim.

 

A frase de Peter Brabeck-Letmathe  durante entrevista para o documentário que saiu em setembro de 2005 chamado “We Feed the World”, em português “Nós alimentamos o mundo”, do realizador  austríaco Erwin Wagenhofer. Nele são traçadas, de um ponto de vista crítico, as origens dos alimentos que ingerimos e a sua produção industrial, desde a pesca industrial, as sementes transgênicas, a falta de alimentos ou mesmo água potável nalgumas zonas do planeta. É este último tema que conta com a tal posição do presidente da Nestlé que é resumida a um discurso “retrógrado e anti-humanista”, em que (segundo essas sinopses) chega a afirmar que “a água deve ser toda privatizada e comercializada de acordo com um preço definido pelo mercado”.

 

Engarrando água que deveria ser pública

No documentário “Águas turbulentas”, da série Rotten, da Netflix, fica demonstrado como empresas como da Nestlé, Coca-Cola e Pepsi ganham bilhões de dólares engarrafando água tratada e vendendo caro para consumidores na África, no Brasil e nos Estados Unidos. Traduzindo: as multinacionais envazam água da torneira, aromatizam com sais minerais, e vendem dezenas de vezes mais caro do que a mesma água que é fornecida pelas empresas de saneamento.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) ainda reputa como essencial o abastecimento de água e, por este motivo, deve ser oferecido de forma gratuita para aqueles que não podem pagar. Mas a Nestlé pensa o contrário: através de sua marca Pure Life”, joga no mercado a sua versão de água purificada e adicionada de sais, desenvolvida especialmente para os chamados países do “Terceiro Mundo”. Por se tratar de um “conceito” internacional, a “Pure Life” deve ter sempre a mesma fórmula e o mesmo padrão, seja ela produzida no Brasil, na África, na Índia ou no Paquistão.]

 

Degradação de fontes de águas minerais

Não para por aí. Movimentos sociais entraram na Justiça contra a Nestlé por conta de danos ambientais causados pela empresa na captação de águas minerais no município de São Lourenço (MG). O coordenador regional das Promotorias de Justiça do Meio Ambiente da Bacia do Rio Grande, Bergson Guimarães, ele esteve em Berna, na Suíça, para demonstrar os danos ao meio ambiente causados pela Nestlé, no município mineiro, tem detém as melhores fontes de águas minerais do Brasil.

Ele destacou em entrevista ao site suíço SWI que a Constituição brasileira cita a proteção do meio ambiente em seu artigo 225 como um “bem de uso comum do povo”. Bergson ressalta que o Ministério Público Estadual de Minas Gerais moveu uma ação contra a Nestlé em 2001, depois que a população protestou por alterações no sabor e na vazão das águas no Parque das Águas no município de São Lourenço (MG). A multinacional suíça é a proprietária das fontes de água mineral desde que comprou as empresas Perrier em 1992.

A razão dos relatos foi apontada na denúncia do ministério público: superexploração das águas. A média de 6,2 milhões de litros extraídos em 1972 saltou para 27,6 milhões em 1999. A Nestlé assumiu em 1994 a Perrier Vittel do Brasil e desde então passou a ter direito de explorar o subsolo e as águas minerais no município.

O resultado final do embate jurídico foi um Termo de Ajuste de Conduta onde a empresa se comprometeu, entre outras ações, a acabar com as atividades ilegais, interrompendo a produção de Pure Life, e a reflorestar 26m² do parque com mata nativa. No entanto, moradores estão novamente na justiça denunciando a empresa por ter secado os lençóis freáticos de todo o parque.

Em sua resposta ao SWI, por email, a direção da Nestlé disse que a atuação da empresa suíça no Brasil na captação de água mineral ocorre de forma responsável e voltada à preservação e à sustentabilidade dos recursos minerais, com todos os cuidados necessários para que sua disponibilidade não seja afetada e em total acordo com as determinações das autoridades competentes, como o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), além de organismos de controle ambiental.

Assistir ao ao documentário “Águas turbulentas”, no Netflix, é conscientizar-se dos perigos da privatização das águas pelos grandes processadores de alimentos no mundo, e sobretudo, entender como o equilíbrio natural pode ser ameaçado pela ganância da chamada “livre iniciativa”, que na verdade constitui-se, cada vez mais de um grupo minoritário de pessoas que controlam os recursos naturais que impactam na vida de bilhões de pessoas no planeta.

 

Com informações do Netlix, The Intercept, SWI, Youtube, Nova Democracia