O Brasil começa a achar que o ministro “terrivelmente evangélico” foi longe demais ao afastar o diretor da PF que prendeu Vorcaro e fez as maiores operações contra o crime-organizado no país.

 

Ao pedir o afastamento do diretor da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues e chefe da inteligência da PF, Leandro Almada. do ministro André Mendonça (STF) avançou o sinal várias vezes, primeiro, porque não tem competência e legalidade para este tipo de ação.  Segundo o jurista Wálter Fanganiello Maierovitch, desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP),  “essa decisão é perigosa, é inconstitucional, é arbitrária e é ilegal porque viola a legislação processual penal”. Em segundo lugar, André Mendonça tenta desgastar a dupla (Andrei e Almada) responsáveis pela prisão do banqueiro ladrão André Vorcaro e pela prisão de outros bandidos que assaltavam os cofres do INSS (Instituto Nacional de Previdência Social) e dos fundos de previdência de servidores públicos. Não bastassem estes descalabros, Mendonça determinou a soltura do ex-procurador-geral do INSS, Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, que foi um dos indiciados pela Polícia Federal pelo esquema desvios em aposentadorias envolvendo a autarquia.

Sob o comando da dupla Andrei e Almada, a Polícia Federal fez operações que levaram a descapitalização do crime organizado da ordem de R$ 16 bilhões nos últimos três anos e meio.  De menos R$ 1 bilhão em 2022 (na gestão Bolsonaro), sob a gestão do presidente Lula as operações da PF tomaram R$ 3 bilhões em dinheiro e bens do crime organizado em 2023, atingindo entre R$ 5,6 bilhões e R$ 6,5 bilhões em 2024 e R$ 9,5 bilhões em 2025. O total acumulado supera R$ 16 bilhões em três anos, além de 52 mil prisões e 80 mil indiciamentos. Sob a direção da PF a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) expandiu de 27 para 33 bases.

 

Diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada solucionou o caso Marielle – foto: João Pedro Figueiredo/ALEAM

 

Mendonça, portanto, tenta descredibilizar a instituição (PF) que sob o governo do presidente Lula tem feito mais estragados ao crime organizando, “como nunca antes na história deste país”. O ministro “terrivelmente evangélico”, que foi nomeado à Corte Suprema pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ), age mais como cabo-eleitoral da campanha de Flávio Bolsonaro do que como um ministro cujo dever é defender a Constituição Federal e a isonomia das instituições.

 

A ex-ministra Gleisi Hoffman resume o prejuízo que a decisão de André Mendonça causa ao país:

“Quem investigou os crimes de Daniel Vorcaro e prendeu a quadrilha do Master foi a Policia Federal comandada pelo diretor-geral Andrei Rodrigues. Afastá-lo do cargo, como fez André Mendonça, é proteger e premiar os criminosos do Master, do INSS, da Carbono Oculto e dos traficantes de drogas que a PF combateu como nunca no governo do presidente Lula.  Ao invés de afastar quem investigou e prendeu, André Mendonça tem de abrir o sigilo de toda a investigação envolvendo o Banco Master e André  Vorcaro, inclusive tudo que já foi desoberto sobre as ligações com Flávio Bolsonaro e sua família. Sobre os milhões de Vorcaro para o filme Dark Horse. No fim tudo isso está acontecendo às vésperas das eleições, o que torna a decisão ainda mais questionável”, afirma Gleisi.

 

Aposta alta

Para o cientista político Paulo Roberto de Souza avalia que Mendonça está fazendo uma “aposta muito alta” em uma tentativa de interferir nas eleições. “Ele está transformando toda a campanha eleitoral em uma questão judicializada”, aponta ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Caso Flávio Bolsonaro (PL) vença, ressalta Souza, ele poderá indicar até quatro novos ministros ao STF na sua primeira gestão. “Isso faria Flávio ter seis de 11 ministros do seu lado. Você tem um processo que faz parte de toda uma expectativa desse golpe da extrema direita de, no mínimo, transformação ou esgarçamento de uma democracia à sua imagem e semelhança de forma fundamental. É muito preocupante o que Mendonça está fazendo”, pontua.

O cientista político considera que as movimentações políticas aliadas à crise no STF transformam o cenário em verdadeiro caos. Figuras como Nikolas Ferreira têm aproveitado o contexto para se colocar como antissistema, ao mesmo tempo em que o campo conservador tenta colar o escândalo do Master no governo Lula, embora não haja qualquer prova disso. “Há uma articulação discursiva muito preocupante por parte desses grupos [da extrema direita] que começam cada vez mais a tensionar não só se vencer, mas principalmente se perder”, alerta.

Bolsonaro recebe André Mendonça no Planalto, quando ele era ministro da Justiça –  foto: divulgação

Paulo Roberto de Souza aponta que Mendonça realizou um “atravessamento de poder” e que a expectativa é que Lula recorra ao plenário do Supremo contra afastamento de diretor da PF. “A gente vai ter um cenário de tensionamento constante a partir de agora. Nesse momento não há outra saída para Lula a não ser fazer esse enfrentamento político que ele estava, de forma cautelosa, segurando na semana passada. Chegou a uma situação limítrofe. “Agora é um questionamento de autoridade e enfrentamento aberto não só ao presidente, mas também ao candidato Lula”, afirma.

Além disso, o especialista pondera que existe hoje uma grande parcela da população que apoia o golpismo. “Uma coisa era a senhorinha de Santana de 1964, que não era uma maioria. Inclusive o golpe militar foi muito mais fruto das elites articuladas com os Estados Unidos e não com apoio popular. Hoje nós temos mobilizado há mais de uma década um percentual significativo que apoia [o golpe]”, aponta. “A democracia não estará assegurada enquanto essa extrema direita não for devidamente desbaratada, enquanto ela não for excluída do sistema político-eleitoral brasileiro.”