Best-seller do New York Times, O Projeto demonstra como a transformação que a extrema direita está promovendo nos Estados Unidos é resultado de um plano de ação abrangente. No prefácio, o Doutor em Sociologia Celso Rocha Barros mostra como o governo Trump se utiliza de métodos que foram usados pela presidência de Jair Bolsonaro (2019-2022) para destruir a democracia por dentro intimidando servidores públicos, atacando os órgãos de controle (PF e Judiciário) e utilizando o messianismo e a religião para demonizar adversários.
No seu Postfácio, o autor do livro, o jornalista David A. Graham, mostra que Trump e Bolsonaro são irmãos siameses paridos pela extrema-direita:
“Uma das ligações mais diretas entre esses movimentos nacionais é a que existe entre Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no Brasil. De certa forma, Bolsonaro foi precursor de Trump, participando ativamente da vida política bem antes que seu homólogo norte-americano se candidatasse à presidência. Mas Trump chegou lá primeiro, vencendo o pleito de 2016. Eleito presidente do Brasil dois anos depois, Bolsonaro foi aclamado como o “Trump dos Trópicos”. Ambos aceitaram o apelido, e Trump deu as boas-vindas a Bolsonaro na Casa Branca. Derrotados na tentativa de reeleição, os dois incitaram revoltas populares, e Bolsonaro, quando se viu encurralado pela justiça brasileira, fugiu para a Flórida — o mesmo estado onde Trump se refugiou para articular sua volta ao poder”.
Segundo Graham, “políticos de direita do mundo inteiro estão de olho em Donald Trump para ver o que ele consegue realizar no segundo mandato presidencial — e para descobrir o que podem aprender com isso e o que é possível fazer sem arcar com as consequências. Quem quiser barrar o avanço desses políticos também
deve ficar atento e aprender com os Estados Unidos”, adverte.
O livro da Editora Zahar pode ser adquirido pela internet por apenas R$ 79,00. Vale a pena ler para entender que o projeto da extrema-direita é um só, seja nos Estados Unidos ou no Brasil: acabar com as liberdades democráticas e governar pelo medo.
Confira abaixo o prefácio do Dr. Celso Rocha Barros

Celso Rocha de Barros
Se você está surpreso com a quantidade de coisas, quase todas ruins, que aconteceram já nos primeiros meses do segundo mandato de Donald Trump,
este livro foi feito para você. O Projeto , de David Graham, explica por que tudo foi tão rápido: desde a largada, havia um plano.
O documento Projeto 2025 é esse plano. Elaborado sob os auspícios do think tank conservador Heritage Foundation, tem entre seus principais autores Russell Vought e Paul Dans, dois militantes da ala mais extrema do Partido Republicano. Suas propostas são tão extremistas que, durante a campanha de 2024, Trump acusou-as de serem “ridículas e abissais”.
Após a vitória republicana, quadros ligados ao Projeto foram nomeados para posições-chave na administração. E é muito fácil ver as digitais do Projeto 2025 em tudo o que Trump fez até agora, do Departamento de Eficiência Governamental (Doge) e Elon Musk até a guerra contra as universidades, passando, é claro, pela luta contra o Poder Judiciário, marca de todos os líderes autoritários modernos.
O Projeto 2025 propõe medidas para criar uma Presidência imperial nos Estados Unidos. Seus autores acreditam que Trump, no primeiro mandato, não falhou: foi sabotado. Tal sabotagem teria vindo do Judiciário, do funcionalismo público e de todos os limites que a democracia americana, desde sua origem, impôs aos presidentes.
Seria necessário, portanto, já começar a próxima Presidência republicana desmontando essas instituições e os controles, do jeito que fosse, com todos os meios necessários e sem nenhum respeito pela tradição democrática dos Estados Unidos. Um dos autores citados por Graham deixa claro que essa
“Segunda Revolução Americana” será realizada sem derramamento de sangue, mas apenas “se a esquerda deixar”.
O objetivo é destruir o que chamam de “bolsões de independência” dentro do Estado: as agências reguladoras, o FBI , os órgãos de controle que investigam a conduta das autoridades e, é claro, o Judiciário (1).

Note-se que não se trata, absolutamente, de um esforço para aumentar a eficiência do setor público, como as reformas administrativas ao redor do mundo tentaram fazer nas últimas décadas. Longe disso, as reformas administrativas bem-sucedidas aumentaram a independência dos órgãos públicos em relação à classe política. O que os trumpistas têm em mente é o exato oposto, é fazer com que todo funcionário público se veja obrigado a seguir qualquer ordem do presidente da República, por mais corrupta ou ilegal que seja. O esforço declarado é reduzir drasticamente o número de funcionários de carreira e substituí-los por indicações políticas. Os trumpistas querem um funcionalismo público “traumatizado” por cortes e ameaças, o contrário do que existe em todos os países com setor público eficiente (2).

O aspecto autoritário do desmonte do Estado empreendido por Trump é evidente: a independência da burocracia é, em grande parte, resultado da alternância de diferentes partidos no poder. Os partidos aceitam ter menos poder quando ganham a eleição porque isso lhes dá segurança de não sofrer abusos nas mãos de seus adversários quando perderem. Um governo de direita que pretenda continuar se submetendo a eleições regulares não vai dar à Presidência da República poderes abusivos que poderão ser usados por um governo de esquerda na eleição seguinte — e vice-versa. Ninguém acredita que Trump planeja criar uma Presidência imperial e depois transferi-la pacificamente para as mãos, digamos, da presidente Alexandria Ocasio-Cortez.
Isso fica claro também na ofensiva recente de Trump contra as universidades americanas. O presidente diz que, uma vez que as universidades recebem verbas públicas para realizar suas pesquisas, deveriam se sujeitar à agenda política do governo (3). Alguém acredita que os republicanos aceitarão que um futuro governo de esquerda tenha esse atributo? Afinal, se os instrumentos de poder ilimitado propostos pelo Projeto 2025 fossem colocados nas mãos de um presidente de esquerda, ele poderia facilmente fechar a Heritage Foundation.

Logo, se Trump está desmontando os limites da Presidência, é porque não pretende perder eleições nunca mais. O único jeito de obter esse resultado é desmontando a democracia. Durante a campanha de 2024, ele declarou o seguinte, perante membros de uma organização religiosa: “Daqui a quatro anos vocês não terão que votar de novo”.
Segundo David Graham, o Projeto 2025 era hostil às Big Techs. Seus autores suspeitavam da integração das grandes empresas de tecnologia com a China e defendiam o fim das políticas de combate à disseminação de fake news e campanhas de ódio (4). Longe de representar uma defesa do princípio da liberdade de expressão, a ofensiva trumpista buscava facilitar a prática consagrada dos novos autoritários: inundar o discurso público com notícias falsas até que a própria esfera pública se tornasse irrelevante.

Nos primeiros cem dias do governo Trump, essa ofensiva não foi necessária. Talvez inspiradas pela “energia masculina” de que falou Mark Zuckerberg, 2 as
Big Techs se renderam preventivamente a Trump já durante a campanha. Elon Musk se tornou uma liderança importante da extrema direita internacional, intervindo em debates deste setor da política em países como o Reino Unido e a Alemanha, e aliando-se ao golpismo bolsonarista no Brasil. Zuckerberg extinguiu a checagem de fatos em suas redes sociais. O dono da Amazon, Jeff Bezos, impediu que seu jornal, o Washington Post , declarasse apoio a Kamala Harris em 2024. Pouco depois, Bezos anunciou que as páginas de opinião do jornal agora só aceitariam artigos de defensores das “liberdades individuais e econômicas”.
Desde o anúncio do pacote de tarifas de Trump, entretanto, a lua de mel parece ter acabado. Musk vem criticando Peter Navarro em suas redes sociais. A Amazon anunciou que informará aos consumidores o quanto dos novos preços dos produtos será resultado das tarifas, o que a Casa Branca interpretou como um ato de hostilidade contra o presidente.
Ainda é cedo para saber se, diante de Trump, as Big Techs irão se orientar mais pela ganância ou pela covardia. Nenhuma delas, até o momento em que escrevo, voltou atrás nas concessões vergonhosas feitas a Trump ainda antes da posse. De um ponto de vista mais geral, é provável que as tensões entre as facções mais liberais e mais nacionalistas do Projeto 2025 sejam uma marca da era Trump.
Com uma Presidência imperial na mão e a sociedade civil sob ataque, os trumpistas pretendem realizar na prática sua visão “nacionalista-cristã” (6). Tratase de um rótulo profundamente enganoso — afinal, não há nada de errado em ser nacionalista ou cristão. O que haveria de errado em ser as duas coisas ao mesmo tempo? Na verdade, o nacionalismo cristão dos trumpistas é algo completamente diferente: nacionalismo e cristianismo só estão ali para um anular as virtudes do outro. O cristianismo está no trumpismo para minar a solidariedade nacional entre os americanos, criando cidadãos de primeira e de segunda classe conforme sua adesão à leitura fundamentalista da Bíblia feita pelo reacionarismo moderno (5). E o nacionalismo está no trumpismo para evitar que a empatia universal exigida dos cristãos pelo Evangelho se aplique a imigrantes e minorias. Daí em diante o projeto é claro: substituir a educação pública por educação religiosa ou familiar, proibir inteiramente o aborto, discriminar e excluir pessoas lgbtqiapn+ , promover uma caça às bruxas no sistema universitário — para eliminar qualquer perspectiva crítica ao discurso dominante —, intimidar a mídia, expulsar imigrantes e combater a diversidade cultural. A segunda parte do livro de Graham analisa cada uma dessas propostas com um nível de detalhes assustador.

Já se tornou clichê dizer que os novos autoritarismos destroem a democracia por dentro, aos poucos, em geral começando pela Suprema Corte (o alvo número um em toda parte) e pela legislação eleitoral (7). Isso torna fundamental perceber cada medida anunciada pelo governo dentro do quadro geral de sua atuação. Por exemplo, considerada isoladamente, uma lei que proíbe o controle de conteúdo nas redes sociais pode ser vista como um ato de defesa da liberdade de expressão. Mas, dentro de uma ofensiva contra a democracia que mobilize seus militantes pelas redes sociais e tenha na disseminação de notícias falsas um instrumento central de atuação, a mesma lei tem significado completamente diverso.
(7) Bolsonaro atacou urnas eletrônicas mais de 100 vezes, mostra matéria da BBC
Se o mesmo governo que extingue a moderação de conteúdo sequestra estudantes pró-Palestina nas universidades e os manda para campos de prisioneiros, como Trump vem fazendo, os sequestros não são “inconsistências” do discurso pró-liberdade anterior; na verdade, o discurso pró-liberdade era apenas um instrumento necessário para instalar a ditadura que sequestra estudantes.
Da mesma forma, é inteiramente legítimo discutir se o presidente americano — ou brasileiro, ou francês — deveria ter mais poderes. Reformas políticas acontecem periodicamente em muitos países democráticos. Mas se a proposta de fortalecimento do Executivo é feita por um movimento que tem no seu histórico a tentativa de golpe de Estado trumpista de 6 de janeiro de 2021, seria ridículo tratá-la apenas como um debate de estudiosos de sistemas políticos comparados.
Nesses casos, é importante entender os vários passos em direção ao autoritarismo como um conjunto. Talvez este seja o principal mérito do livro de David Graham: mostrar que cada uma das medidas anunciadas por Trump é parte de um projeto publicado e assinado pelos trumpistas com objetivos autoritários muito claros. Por isso é fácil entender a irritação de Trump com o Projeto 2025 durante a campanha: se um dia as instituições americanas voltarem a funcionar, Trump será julgado por ter conspirado contra a democracia. Nesse julgamento, o Projeto 2025 será uma dessas provas que fariam qualquer promotor sorrir.
São Paulo, maio de 2025
*Celso Rocha de Barros é Doutor em Sociologia pela Universidade de Oxford, servidor federal e colunista do jornal Folha de S. Paulo