Joana Maranhão: Ilusão de meritocracia no esporte despolitiza atletas

Joana Maranhão: Ilusão de meritocracia no esporte despolitiza atletas

No aniversário de 37 anos, Joanna Maranhão não sente mais saudades de participar de Olimpíadas. A nadadora brasileira, dona de 8 medalhas em Pan-Americanos e responsável por, até hoje, o melhor resultado da natação feminina brasileira nos Jogos Olímpicos, afirma que “deixei tudo que eu poderia deixar”.

Maranhão segue atuando no esporte, acompanhando de perto debates e decisões das mais altas entidades envolvidas no tema. Atualmente ela mora Europa. Desde 2022, ela está na Sports & Rights Alliance (Aliança entre Esportes e Direitos, em tradução livre), organização com foro mundial com objetivo de garantir direitos humanos para quem pratica qualquer modalidade em todo o planeta.

A nadadora também faz parte do Conselho de Ética do Comitê Olímpico do Brasil (CECOB).

“O esporte de alto rendimento requer tanto, ele exige tanto fisicamente e mentalmente também, que eu acho que ele impede mesmo que a gente consiga ter uma carreira como na maioria das outras profissões”, explica Joanna Maranhão em entrevista ao programa Bem Viver desta segunda-feira (29).

Porém, as discussões que a ex-atleta propõe para o futuro do esporte são de outro patamar.

Segundo ela, é preocupante como muitos competidores são influenciados por uma ideia de que o alto rendimento é resultado, exclusivamente, de muita dedicação, de mérito do atleta.

Maranhão defende que esse pensamento é resultado do “esporte ter esse caráter competitivo tão forte, ele despolitiza atletas no sentido de que eles acabam achando que chegaram ali simplesmente por mérito próprio”.

“E é absurdo para mim, por exemplo, um atleta brasileiro chegar aos jogos olímpicos e não reconhecer que teve subsídio governamental ali, e muito subsídio governamental”, defende.

“É por isso que a gente viu tantos atletas brasileiros se identificando com o excremento do antigo presidente, inclusive defendendo a extinção do Ministério dos Esportes. Pra mim isso foi o mais absurdo de todos, assim, é meio que barata votando e inseticida mesmo”, critica Maranhão se referendo ao mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Há 20 anos, Maranhão detém o título de melhor resultado da natação feminina brasileira em Jogos Olímpicos: o quinto lugar nos 400m medley, em Atenas 2004. Ela tinha 17 anos na época.

Além disso, tem oito medalhas em Jogos Pan-americanos: três de prata e cinco de bronze, entre as edições de Santo Domingo 2003 e Toronto 2015.

Confira a entrevista na íntegra

Brasil de Fato: Você chegou a participar de quatro olimpíadas. Quando chega uma nova edição, qual é o sentimento? Dá saudades?

Olha, pra ser sincero, eu não tenho saudade, porque eu acho que eu deixei tudo que eu poderia deixar. Tipo, eu vivi intensamente tudo que o esporte poderia me dar. E eu tive uma carreira até longeva pros padrões. Eu nadava a prova de 400 medley e fui pra quatro ciclos olímpicos, nadando esta prova.

Geralmente é uma prova que você vê que a média de idade das finalistas é tipo 23 anos pra baixo e eu tinha 28 anos quando eu participei da última, então eu já estava com mais idade, pode-se dizer.

Eu não sinto saudade por isso, mas de fato eu acho que o esporte de alto rendimento requer tanto, ele exige tanto fisicamente e mentalmente também, que eu acho que ele impede mesmo que a gente consiga ter uma carreira como na maioria das outras profissões.

E não que não existam outros trabalhos que exijam fisicamente, existem e geralmente o que a gente chama de subempregos, que têm essa exigência física, mas no caso do esporte de alto rendimento, eu acho que é essa questão do funil.

O esporte competitivo é por si excludente. Quando a gente fala do esporte como um direito participativo, é uma coisa, mas o esporte competitivo é por si excludente.

Ele está o tempo todo excluindo, ainda exigindo muito de você. Então é humanamente impossível ter uma carreira longeva demais, assim, em alto nível, né?

Você entende que o esporte se transformou nisso em algo excludente ou é algo que está na raiz dele?

Olha, eu acho que depende muito de qual expressão esportiva que a gente está falando. Se a gente está falando do esporte de participação, do esporte escolar… Porque depois disso, a partir do esporte escolar ele começa a ser competitivo.

E vai pro profissional e pro super, ou ultra profissional, como eu chamo, que é esses jogos olímpicos, assim. Então, eu acho que apenas o esporte de participação, mesmo tendo um caráter competitivo, geralmente ele é mais inclusivo.

Todas as outras expressões esportivas, tá na regra do jogo, que pra que você tenha sucesso você tem que vencer o outro.

E aí alguns esportes são de contato, outros são coletivos, outros são individuais como o meu, que aí acaba que além de vencer o outro, tem um outro parâmetro que é o tempo, então tem essa coisa de você vencer a si mesmo.

Tem também esportes que não dependem somente de você, que dependem de juiz ou de um banco de juízes, são todas essas especificidades, mas eu acho muito importante a gente entender que o mais importante é entender que o esporte está imbuído na sociedade,

É importante a gente entender que, assim, qual é a expressão da sociedade que você vai permitir que duas pessoas trocam porrada? Pode se dizer que só no esporte. Existem regras específicas para aquilo. Então isso acaba que a gente coloca o esporte como se fosse um patamar moral acima de outras expressões da sociedade.

Não é bem assim. Ele tem o potencial, realmente, ele transforma a vida e tal, mas ele é excludente por si. Essa transformação vem em detrimento de você abrir mão de muitos direitos, de ter dificuldade em balancear a tua carreira esportiva com a escolar, porque você tem que se dedicar desde muito cedo. É uma exploração, posso dizer, porque atletas competitivos não são vistos como trabalhadores.

Tendo em vista que quando a gente começa os últimos anos da nossa carreira, começa a ver o que eu vou fazer agora? Eu acabei o meu curso superior, mas o que eu vou fazer? Eu vou entrar no mercado de trabalho? Então é muito complexo e muitas vezes a gente não olha muito para isso.

E mais voltado para a minha área de atuação, a gente normalizar comportamentos que, em outros esferas da sua vida, a gente não normaliza, por exemplo, se um aluno não está entendendo o conteúdo que aquele professor está falando, o professor vai encontrar outras maneiras de passar aquele conhecimento. Ele não vai gritar, sabe?

E no esporte, quando o atleta, por alguma razão, não consegue performar, responder ao que o treinador espera no treino ou na competição, a gente acaba normalizando comportamentos que são nocivos, como se isso fosse importante ou uma condição para a performance.

E isso que acaba fazendo com que o esporte seja esse fator de risco para violência, psicológicas, físicas e sexuais.

Não é olhando somente para o lado ruim do esporte, é ter um olhar crítico para ele, entender que esses problemas acontecem e que a gente tem que encontrar maneiras de resolver.

E diante de toda a sua experiência, de toda a sua carreira, você sempre foi muito crítica, sempre olhou para esses processos entendendo que a gente precisa debater. Já encontrou, mais ou menos, uma fórmula, um caminho para a gente conseguir fazer com que o esporte não vire essa máquina de exclusão?

Eu penso no esporte olhando para uma pirâmide. As pessoas mais vulneráveis que estão embaixo da pirâmide são os atletas, são as pessoas com menos poder e decisão, são as pessoas mais vulneráveis. As que mais se dedicam física e mentalmente pelo resultado, pela performance, e sem essas pessoas, sem os praticantes, e nesse caso, atletas, não tem esporte.

E o que a gente percebe é que quando existem violações de direitos humanos dentro dos esportes, as entidades esportivas elas se defendem, elas querem defender o valor do esporte e tal e na verdade é o contrário.

Então eu acho que a gente só vai balancear isso se a gente der mais poder para as pessoas que são mais vulneráveis. E quando a gente fala de atletas, a gente tem que falar quais atletas.

A gente tem que fazer esse recorte interseccional, de gênero, de onde a gente está falando, de recurso, de raça, de orientação sexual, de deficiência, tudo isso.

Então, eu faço uma incidência política muito forte para que atletas sejam inseridos nesses locais com tomada de decisão, principalmente atletas que foram impactados por esses efeitos negativos do esporte.

Essas pessoas não são parte do problema, essas pessoas são parte da solução. A gente não vai conseguir fazer com que o Estado regule o esporte, assim como a gente não consegue fazer com que o Estado regule as igrejas, por exemplo.  São dois ambientes que atuam com certa autonomia.

Então a gente até pode fazer em alguns países onde o Estado financia o esporte, condicionar esse financiamento, algumas medidas de proteção e algumas mudanças, mas de um modo geral a gente tem que entender que o esporte vai sempre atuar com autonomia.

Então é mais essa parte de convencimento e esse convencimento passa por nós [atletas], a gente está fora do sistema conversando e dialogando com as autoridades esportivas, mas existem momentos estratégicos quando casos acontecem e vem a mídia, que é quando a gente consegue fazer com que a população nos ajude a continuar fazendo essa incidência política.

Então é mais ou menos por aí, dá poder aos que hoje, infelizmente, não tem poder para tomar decisão e que sem eles o esporte sequer ia existir.

Você já fez alguns relatos, especialmente, nas Olimpíadas do Rio, dias antes da competição, que sofreu uma série de ataques virtuais na internet por conta do seu posicionamento político. Esse tipo de pressão, esse tipo de ataque é um desafio maior até do que, propriamente, a preparação para estar no nível olímpico para competir? 

Eu não consigo dizer o que que é mais difícil, mas definitivamente o esporte tenta silenciar o ser político dos atletas e dos praticantes. Eu acho que diz respeito àquilo que eu tava falando, né?

Quanto mais atletas falarem, quanto mais eles se posicionarem politicamente sobre o que eles querem transformar dentro do esporte, ou o como querer usar a plataforma do esporte para falar sobre problemas diversos fora da sociedade, o esporte se autodefende no estilo: “não, aqui você fala só da performance”.

São vistos como pessoas que querem criar problemas e não é bem isso, porque não tem como você cortar o ser humano no meio, né? Aqui eu sou apenas a pessoa que bota touca e óculos e nada rápido, e aqui eu sou um ser político.

Quando eu tô atrás da raia, eu sou aquela pessoa que treinou muito pra estar ali, que se empenhou muito, mas um ser político também, que carrega outras coisas também.

Quando eu trouxe, finalmente, ao público o que eu tinha sofrido violência sexual severa dentro do esporte, o que eu queria com aquilo é que as pessoas entendessem muito bem o quanto era difícil para mim estar ali, porque aquelas violências aconteceram ali, então não era somente subir no bloco, era uma série de coisas.

Eu estava lidando e eu estou lidando com trauma, e o trauma não tem um ponto final, você não fala que você superou um trauma, você aprende a lidar com ele, então é muito importante ter gente humanizando os atletas.

Eu acho que hoje vai ser muito difícil, para não dizer impossível, silenciar essas vozes. Mais e mais atletas vão estar falando cada vez mais.

Tem muitos atletas que acreditam que não, que acham melhor não falar sobre, serem críticos. Eu prefiro ter o meu direito de falar e respeitar o seu [direito] de não falar.

Então nem você tenta me calar, e eu não tento te forçar a falar. Eu acho que essa é a melhor forma.

Joana, toda essa pressão que existe de tentar separar o atleta do ser político, você acha que também acaba tendo um impacto nos próprios atletas, de às vezes se alienarem?

Tem esse efeito e eu acho que são duas coisas aí. Uma é o próprio sistema que tenta silenciar realmente, tirar o direito dos atletas de falarem. Se você olhar Olympic Charter, livro oficial das regras olímpicas, tem uma regra, a 50, que ela fala que o atleta só pode se posicionar politicamente, dando entrevista, que ele não pode falar nada na arena de competição, não pode ter nenhuma manifestação política ou religiosa no pódio e tal, então é meio que para manter esse status quo.

E os atletas que falam, todos eles sofrem algum tipo de retaliação ou silenciamento, quando falam por si ou quando falam em defesa de outros. Existem lugares em que atletas sequer podem se sindicalizar e se organizar.

Se você parar para olhar, o Brasil não tem sindicato de atletas, como a NBA tem, como a NFL tem e outros. Então, é um caminho muito longo que a gente precisa percorrer.

Fora isso, eu acho que pelo esporte ter esse caráter competitivo tão forte, despolitiza atletas no sentido de que eles acabam achando que chegaram ali simplesmente por mérito próprio.

E não é assim, é meio que quando a gente fala de objetivos, tem o processo para os nossos objetivos e o objetivo final. O processo para os objetivos é você treinar forte e acordar cedo, se alimentar bem, e tal, e tal, e tal.

Mas fazendo isso não significa que você vai chegar, porque existem outras coisas que podem impedir. Tem muita gente que se dedica demais e tem um mega sonho, mas não tem estrutura financeira para chegar.

Isso não é porque a pessoa não trabalhou ou não se empenhou, então ninguém chega tão somente por mérito próprio. Essa ideia que é vendida faz com que os atletas se distanciam dos seres políticos que são.

E é absurdo para mim, por exemplo, um atleta brasileiro chegar aos jogos olímpicos e não reconhecer que teve subsídio governamental ali, e muito subsídio governamental.

Ainda que você recuse a receber o bolsa atleta, não quero, porque eu ganho só do meu clube, muito provavelmente o teu clube faz parte da CBC, que recebe dinheiro governamental, o comitê olímpico brasileiro recebe de fundo governamental. E isso é política, né?

Se os políticos resolverem acabar com tudo isso, não vai ter subsídio, colega, você não vai conseguir ter, então não faz muito sentido para mim essa lógica. Eu acho que é por isso que a gente viu tantos atletas brasileiros se identificando com o excremento do antigo presidente, inclusive defendendo a extinção do Ministério dos Esportes, que pra mim isso foi o mais absurdo de todos, assim, é meio que barata votando e inseticida mesmo.

Você poderia compartilhar um pequeno panorama de o que podemos esperar do Brasil para estes jogos de Paris?

Olhando para Paris, assim, a gente está naquele último Jogos Olímpicos que a gente ainda está recebendo os benefícios de ter sediado os Jogos Olímpicos. E quando eu faço de benefício eu não estou falando de legado para a cidade do Rio de Janeiro. Eu estou falando de investimento nos atletas do ciclo olímpico.

Acho difícil a gente bater Tóquio em número de medalhas, isso eu acho difícil.

Mas aí, olhando para a natação brasileira, eu acho que a natação brasileira agora vai ter um resultado melhor do que teve em Tóquio. Isso não quer dizer que talvez a gente ganhe mais do que os dois bronzes de Tóquio.

Estou falando que o time de natação do Brasil hoje é mais forte do que o de Tóquio, então eu acho que é importante. Acho que a gente vai ter mais finais, mais medalhas e eu acho que finalmente ninguém mais vai dizer depois de Paris que o melhor resultado de uma mulher da natação foi o meu quinto lugar de Atenas eu acho que a gente tem grandes chances de ter uma mulher brasileira ganhando medalha na natação e eu torço muito por isso.