Economia
5 meses atrás

Entenda os principais pontos do acordo Mercosul-UE

Após mais de 25 anos, o acordo entre Mercosul e a União Europeia (UE) foi assinado neste sábado (17), em Assunção, no Paraguai. O presidente Lula não esteve na cerimônia por questões de agenda. Em seu lugar esteve o chanceler Mauro Vieira.

Na sexta-feira (16), Lula recebeu a presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e reafirmou o acordo como vitória do multilateralismo. Já na cerimônia de assinatura, o presidente do Paraguai e do Mercosul, Santiago Peña, destacou a importância do presidente Lula para a finalização do tratado, negociado principalmente no último ano durante a liderança brasileira do grupo sul-americano.

“Sem o presidente Lula, talvez não tivéssemos chegado a este dia. Ele foi um dos responsáveis fundamentais deste processo”, disse Peña.

Apesar do avanço, o acordo é visto com ressalvas pela indústria nacional — embora represente um importante negócio para os produtos do agronegócio, que ganharão mercado no bloco europeu. Segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), existem riscos para setores industriais e os empregos na área.

“Contra a lógica das guerras comerciais que segregam economias, empobrecem nações e aumentam a desigualdade, Mercosul e União Europeia assinam um dos acordos mais amplos do século XXI”, destacou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em artigo publicado na sexta-feira (16/1), em 27 jornais europeus e do Mercosul.

O entendimento é de que o mercado brasileiro não está preparado para enfrentar os produtos europeus e precisará de políticas setoriais para não perder espaço. Apesar disso, o instituto descarta um colapso industrial. Para o presidente executivo da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), José Velloso, a concorrência será desafiadora para a indústria de transformação nacional, que tem um custo maior e é menos avançada.

Já analistas como Paulo Nogueira Batista Jr. e Manoel Casado são mais críticos. Para eles, o acordo coloca o Brasil e os outros países do Mercosul mais próximos de uma neocolonização do que uma neoindustrialização.

Assinatura

Durante o ato de assinatura, autoridades sul-americanas e europeias comemoraram o acordo, costurado em mais de duas décadas, em tom de salvaguarda do multilateralismo em tempos de ameaças à governança global, principalmente vindas dos Estados Unidos.

Também estiveram presentes o presidente do Conselho Europeu, António Costa, além dos presidentes de Uruguai e Argentina, Yamandú Orsi e Javier Milei, respectivamente.

Na sua fala, Ursula von der Leyen destacou que os blocos optaram por “comércio justo em vez de tarifas” e “parcerias de longo prazo em vez de isolamento”.

Já Peña disse que o ato é histórico, uma vez que envolve 720 milhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 22 trilhões entre os blocos: “um dia verdadeiramente histórico […] unir dois dos mais importantes mercados globais, o que demonstra que o caminho do diálogo, da cooperação e da fraternidade é o único caminho”, salientou.

Apesar de assinado, o acordo precisará ser ratificado pelos países dos dois blocos envolvidos, podendo enfrentar desgaste por parte de alguns países neste processo, como na França, principal opositora à negociação.

Em publicação nas redes sociais, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, o Itamaraty, reforçou que “a União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Em 2025, o comércio entre Brasil e UE alcançou US$ 100 bilhões, equivalente a 16% do nosso comércio exterior.”

Além disso, para o Brasil, os acordos do “Mercosul com a União Europeia, Singapura e a EFTA devem impulsionar o PIB em R$ 67,6 bilhões, aumentar os investimentos em R$ 25,3 bilhões e reduzir os preços ao consumidor brasileiro.”

Entenda em 13 pontos o acordo Mercosul–UE
09/01/2026 - Embaixadores da UE aprovam provisoriamente acordo com Mercosul. Foto: União Europeia/Mercosul

Embora celebrado por governos e setores industriais, o acordo ainda enfrenta resistência de agricultores europeus e ambientalistas, que criticam possíveis impactos sobre o clima e a concorrência agrícola. A implementação será gradual e os efeitos práticos devem ser sentidos ao longo de vários anos.

 

Confira os principais pontos do acordo:

1. Eliminação de tarifas alfandegárias

  • Redução gradual de tarifas sobre a maior parte dos bens e serviços;
  • Mercosul: zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos;
  • União Europeia: eliminará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.

2. Ganhos imediatos para a indústria

  • Tarifa zero desde o início para diversos produtos industriais.

>>Setores beneficiados:

  • Máquinas e equipamentos;
  • Automóveis e autopeças;
  • Produtos químicos;
  • Aeronaves e equipamentos de transporte.

3. Acesso ampliado ao mercado europeu

  • Empresas do Mercosul ganham preferência em um mercado de alto poder aquisitivo;
  • UE tem PIB estimado em US$ 22 trilhões;
  • Comércio tende a ser mais previsível e com menos barreiras técnicas.

4. Cotas para produtos agrícolas sensíveis

  • Produtos como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol terão cotas de importação;
  • Acima dessas cotas, é cobrada tarifa;
  • Cotas crescem ao longo do tempo, com tarifas reduzidas, em vez de liberar entrada sem restrições;
  • Mecanismo busca evitar impactos abruptos sobre agricultores europeus;
  • Na UE, as cotas equivalem a 3% dos bens ou 5% do valor importado do Brasil;
  • No mercado brasileiro, chegam a 9% dos bens ou 8% do valor.

5. Salvaguardas agrícolas

>>UE poderá reintroduzir tarifas temporariamente se:

  • Importações crescerem acima de limites definidos;
  • Preços ficarem muito abaixo do mercado europeu;
  • Medida vale para cadeias consideradas sensíveis.

6. Compromissos ambientais obrigatórios

  • Produtos beneficiados pelo acordo não poderão estar ligados a desmatamento ilegal;
  • Cláusulas ambientais são vinculantes;
  • Possibilidade de suspensão do acordo em caso de violação do Acordo de Paris.

7. Regras sanitárias continuam rigorosas

  • UE não flexibiliza padrões sanitários e fitossanitários.
  • Produtos importados seguirão regras rígidas de segurança alimentar.

8. Comércio de serviços e investimentos

>>Redução de discriminação regulatória a investidores estrangeiros.

>>Avanços em setores como:

  • Serviços financeiros;
  • Telecomunicações;
  • Transporte;
  • Serviços empresariais.

9. Compras públicas

  • Empresas do Mercosul poderão disputar licitações públicas na UE;
  • Regras mais transparentes e previsíveis.

10. Proteção à propriedade intelectual

  • Reconhecimento de cerca de 350 indicações geográficas europeias;
  • Regras claras sobre marcas, patentes e direitos autorais.

11. Pequenas e médias empresas (PMEs)

  • Capítulo específico para PMEs;
  • Medidas de facilitação aduaneira e acesso à informação;
  • Redução de custos e burocracia para pequenos exportadores.

12. Impacto para o Brasil

  • Potencial de aumento das exportações, especialmente do agro e da indústria;
  • Maior integração a cadeias globais de valor;
  • Possível atração de investimentos estrangeiros no médio e longo prazo.

13. Próximos passos

  • Assinatura prevista para 17 de janeiro, no Paraguai;
  • Aprovação pelo Parlamento Europeu;
  • Ratificação nos Congressos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai;
  • Entrada em vigor apenas após conclusão de todos os trâmites;
  • Acordos que extrapolam política comercial precisam ser aprovados pelos parlamentos de cada país.
  • Com agências – foto: Carlos Cruz/MRE