A autorização do governo de Donald Trump para que a CIA, o serviço de inteligência dos Estados Unidos, busque interferir na gestão de Nicolas Maduro, presidente da Venezuela desde 2013 e herdeiro político de Hugo Chávez (1954-2013), é só mais um capítulo na longa sequência de ações da agência norte-americana em países latino-americanos, aponta reportagem da BBC Brasil. A agência de notícias do Reino Unido, aliás, é vítima de ação do mandatário norte-americano. Trump entrou com dois processos por difamação contra a emissora pública britânica BBC nesta segunda-feira (15). Segundo documentos apresentados à Justiça, ele pediu o pagamento de uma indenização de US$ 5 bilhões (R$ 27 bilhões) em cada uma das ações, totalizando US$ 10 bilhões (R$ 54 bilhões).
Desde que foi fundada, em 1947, a CIA (Central de Inteligência Americana) protagonizou, muitas vezes de forma secreta, trabalhos de coleta, processamento e análise de informações de segurança nacional em todo mundo.
O canal Telesur, os principais envolvimentos da CIA em golpes contra governos democraticamente eleitos na América Latina:
1 – Guatemala em 1954
Em 1944, a violenta e sangrenta ditadura de Jorge Ubico, apoiada pelos Estados Unidos, foi derrubada por um levante popular farto das brutais injustiças. Na verdade, o país havia sido governado até este momento pela The United Fruit Company, uma companhia marionete de Washington que escravizou a população. Retiraram as terras dos camponeses e os obrigaram a trabalhar por migalhas. Quem não obedecia era brutalmente castigado por uma força policial sob as ordens da empresa agrícola norte-americana.

A tranquilidade voltou à Guatemala, mas durou 10 anos somente antes o presidente Dwight Eisenhower implementar um plano para derrubar o governo. Em 1954, a CIA lançou PBSucess. A capital guatemalteca foi bombardeada por aviões estadunidenses. O jovem Ernesto Che Guevara foi rapidamente impactado pela brutalidade. Centenas de lideranças camponesas foram executadas pelas marionetes de Washington. Então iniciou a Guerra Civil Guatemaleca e muitas comunidades camponesas e indígenas maias foram massacradas. No final da intervenção dirigida pela CIA havia morrido mais de 200 mil pessoas. As empresas estadunidenses voltaram a ter lucros no país e Washington estava feliz.

2 – Haiti em 1959
O Haiti é tão estratégico para os Estados Unidos como a República Dominicana e Cuba. Desta forma Washington não titubeia cada vez que seu poder diminui na região caribenha. Por nenhum motivo os Estados unidos permitira que os governos da região se inclinassem à esquerda, e para isso não acontecer, a CIA entra em ação. Claro, Cuba é um exemplo de resistência desde 1959. Neste ano no Haiti houve um levante popular contra o brutal ditador Fraçois Duvalier. A CIA barrou a reação popular. Duvalier criou um exército com apoio de Washington para atuar com violenta repressão contra as comunidades provincianas. Duvalier e seu filho, Jean Claude Duvalier, que herdou o posto do pai na ditadura, ordenaram massacres sangrentos e cruéis. Mais de 100 mil pessoas foram assassinadas. Quando em 1986 começou uma rebelião incontrolável, aí sim um avião da Força Aérea dos Estados Unidos resgatou Jean Claude Duvalier e o levou a viver tranquilamente na França.

3 – Brasil em 1964 e 2016
O ano de 1964 foi de mudanças incríveis no Brasil. O presidente democraticamente eleito, João Goulart, implementou seu plano de Reformas de Base. Ainda que os Estados Unidos sempre tenha mantido controle sobre os povos distantes para manter a ignorância generalizada, havia uma mudança que realmente incomodou o país do norte: uma reforma que reduziria os lucros das corporações multinacionais norte-americanas e de seus aliados. Claro, também incomodava o plano de reforma agrária. Então, a CIA entrou em ação e derrubou o governo de Jango em 1964 e instalou uma brutal ditadura militar que durou 19 anos. Durante este período, milhares foram torturados, presos e assassinados. Também trataram de eliminar toda e qualquer pessoa que tivesse pensamentos de esquerda, em especial os comunistas.
A partir de 2013 a CIA passou a operar uma guerra hídrida contra o governo da presidenta Dilma Roussef (PT). A guerra híbrida é uma estratégia moderna que combina táticas militares convencionais e não convencionais (como guerra irregular, cibernética e de informação, pressão econômica, e interferência política/eleitoral) para desestabilizar um adversário sem um conflito armado direto e em larga escala. Foi largamente utilizada para forçar mudanças de regime em países do Oriente Médio, ficando conhecida a partir de 2010 como “Primavera Árabe”, onde a CIA fomentou uma série de protestos antigovernamentais, revoltas e rebeliões armadas que teve início na Tunísia e se estendeu para o Egito e Síria. No Brasil esta guerra híbrida tomo forma na “Campanha dos 20 centavos” na chamada Jornada de Junho de 2013 com grandes protestos liderados por movimentos de direita que começaram contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, mas rapidamente evoluíram para manifestações massivas contra o PT e o governo Dilma. Este movimento teve desdobramento no Judicário, a partir da Operação Lava Jato, para desestabilizar empresas de engenharia e petróleo. Investigações mostram que o ex-juiz Sérgio Moro e o ex-procurador Deltan Dallagnol que teve apoio da CIA, FBI e Departamento de Estado dos Estados Unidos para grampear a presidenta Dilma, no episódio onde ela conversava com o ex-presidente Lula sobre sua nomeação à Casa Civil. Esta guerra híbrida resultou no Golpe Parlamentar de 2016, que afastou Dilma Roussef fo Poder.

4 – Uruguai em 1969
Durante os anos 60, movimentos revolucionários cresciam na América Latina. O Uruguai estava afundado em uma crise. Surgiram os maiores inimigos dos Estados Unidos: os Tupamaros, uma guerrilha revolucionária urbana. José Mujica formava parte desta organização e sua esposa Lucia Topolanski também. Washington se emprenhou em detê-los porque a influência do grupo estava se expandindo. Nelson Rockefeller foi ao Uruguai para observar como efetivamente se fortalecia um sentimento “anti-ianque” e voltou a Washington para alertar que algo precisava ser feito com urgência.
Rapidamente a CIA respondeu ao chamado e enviou seu agente Dan Mitrione ao Uruguai. Ele foi responsável por treinar as forças policiais locais para a tortura e outras coisas macabras indescritíveis. Então, com a ajuda da CIA se instalou uma ditadura militar no país sob a ordem de Juan Maria Bordaberry, que governou o Uruguai com instruções direitas de Washington durante 12 anos. Centenas de pessoas foram assassinadas e milhares torturadas. A repressão era tão brutal que os uruguaios tinham medo até mesmo de dançar.

5 – Bolívia em 1971 e 2019
As riquezas minerais da América Latina são a grande cobiça dos Estados Unidos e o país faz o possível para poder controla-las. Por décadas as corporações estadunidenses mantiveram sob seu domínio diversas regiões do Chile, Bolívia e Peru. Neste último, escravidão absoluta durante os anos 60. Quando os escravizados se atreviam a rebelar-se eram aniquilados imediatamente aos montes. Che Guevara viajou à Bolívia e se encarregou de incitar a revolução de 1967. Neste período as corporações norte-americanas mantinham até mesmo crianças sob o regime de escravidão. Dois anos depois Che foi assassinado pela CIA e os Estados Unidos instaurou uma junta militar no país.
Mas de novo as coisas não deram tão certo quanto Washington planejou. O general Juan José Torres tomou o poder tratou de implementar reformas para os trabalhadores e os pobres. Os bolivianos estavam iludidos, mas a CIA não e para levar a cabo suas instruções, recrutou o general Hugo Banzer. Ele liderou um golpe contra Torres e em 1971 iniciou sua violenta ditadura. Mandou torturar um incontável número de opositores e executar centenas de líderes políticos. Encarcerou mais de 8 mil pessoas. Todas as medidas foram tomadas sob as instruções de Washington.
Em 2019 ocorreu o golpe contra Evo Morales, que começou logo depois das eleições presidenciais realizadas em outubro de 2019. O candidato opositor Carlos Mesa não aceitou o resultado que reelegeu Morales. O então presidente e seu vice, Álvaro García Linera, foram reeleitos com 2,8 milhões de votos e mais de dez pontos percentuais de diferença em relação ao segundo colocado, Carlos Mesa. Depois do golpe, a ex-senadora Jeanine Añez autoproclamou sua presidência e começou ali um governo que durou de 12 de novembro de 2019 até 8 de novembro de 2020, quando Luis Arce foi eleito. Durante sua gestão, ela promulgou o Decreto Supremo (DS) 4078, para tornar imunes os membros das Forças Armadas, de forma que os autores dos massacres nos protestos não pudessem ser investigados, julgados e condenados.

6 – Chile em 1973
Outro país brutalmente explorado pelas corporações estadunidenses. Outro país condenado à miséria por Washington. Outro país mais que a CIA fez de tudo para desprestigiar nos meios de comunicação nacionais e internacionais o governo do presidente democraticamente eleito, Salvador Allende. Extorsão, tortura, encarceramento e assassinatos como medida de barrar os anti-ianques. Provocar a escassez para que o povo confronta-se o governo no aprovado pelos Estados Unidos, especialmente porque nacionalizou o que esse país mais desejava: suas riquezas minerais. Mas Washington também se incomodou muitíssimo porque Allende promoveu políticas públicas de moradia e educação para milhares de pessoas. Então os EUA fizeram o mesmo que acontece hoje em todo o mundo: golpe de Estado. Em 11 de setembro de 1973 o general Augusto Pinochet liderou o golpe de Estado com todo o apoio da CIA, incluindo armas e equipe militar.
Aviões de guerra bombardearam o palácio presidencial. Assassinaram Allende, que antes de morrer falou ao povo: “não vou renunciar. Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com a vida a lealdade do povo”. Pinochet governou por 17 anos. Mandou prender 80 mil pessoas, torturou mais de 30 mil e assassinou 3.200.

7 – Argentina em 1976
Os argentinos viveram a ditadura mais sanguinária da América do Sul. É traumatizante o simples fato de ler sobre as atrocidades cometidas no país. campos de concentração, centros de tortura, massacres, estupros, agressões contra mulheres grávidas e execução de crianças. No total, 30 mil pessoas foram assassinadas. Por trás de todo este plano estava a CIA. Em 1973, a Argentina resistia a uma crise política tão grave que o presidente Juan Perón desmoronou e morreu de ataque no coração em 1974. Sua esposa, Eva Perón, tomou o poder só para enfrentar os conflitos até mesmo dentro de seu partido Peronista.
A CIA esperou sigilosamente até 1976, quando a situação era tal que foi fácil entrar e fazer o jogo sujo. Claro, recrutaram a um general de nome Jorge Rafael Videla e, novamente, um golpe de Estado em outro país latino-americano e outra ditadura marionete dos Estados Unidos. Nesta ocasião aparece o supervisor da desgraça, o infame secretário de Estado, Henry Kissinger.

8 – El Salvador em 1980
Este país centro-americano não sofreu menos sob a intervenção estadunidense e a supervisão já sabemos de quem: a CIA. Washington havia apoiado uma ditadura brutal que durou exatamente 50 anos entre 1931 e 1981. Camponeses e indígenas foram despejados sem piedade e a sangue frio. Mais de 40 mil foram massacrados. A situação foi tão grave que aconteceu algo inédito, até a Igreja Católica tentou intervir a favor dos pobres. Nesta época El Salvador era controlado por 13 famílias mafiosas donas de 50% do território nacional.
As 13 famílias estavam estreitamente ligadas com Washington. E a CIA treinava o exército e o equipou com todo o necessário. Quando o serviço de inteligência norte-americano soube que os jesuítas ajudavam as massas, mandou matá-los. E pediu para o papa João Paulo falar com o bispo Oscar Arnulfo Romero para pedir que desistisse da resistência. O cardeal se negou e foi assassinado durante uma missa em 1980. El Salvador foi então jogado em uma guerra civil que durou 12 anos e foi supervisionada pela CIA. Quando terminou o flagelo, mais de 75 mil pessoas haviam sido assassinadas, mas os EUA estavam felizes.

9 – Nicarágua 1979
A ocupação estadunidense na Nicarágua teve início em 1909 e só terminou em 1933 principalmente devido a guerrilha promovida pelo general Augusto Sandino contra o exército estadunidense e pelo início da Grande Depressão que tornou dispendioso para os Estados Unidos manter a ocupação. Quando os estadunidenses saíram em 1933, criou-se a Guarda Nacional da Nicarágua, uma força policial e militar treinada e equipada pelos Estados Unidos. Anastasio Somoza García, um aliado íntimo do governo americano, foi colocado no poder, após assassinar Sandino. A partir daí, iniciaria a dinastia da família Somoza, que serviu aos interesses norte-americanos e só perderia o poder após a Revolução Sandinista em 1979, que colocou Daniel Ortega do Partido Sandinista no poder. A partir da posse de Ortega a CIA passou a financiar os “Contra”, milicianos de direita que entre 1980 a 1990 fizeram 1.300 atos terroristas contra o governo sandinista. O caso foi revelado pela mídia em novembro de 1986, durante o segundo mandato do presidente Ronaldo Reagan, no qual figuras chave da CIA facilitaram o tráfico de armas para o Irã que estava sujeito a um embargo internacional de armamento, para assegurar a libertação de reféns e para financiar os Contra nicaraguenses.

10 – Panamá em 1989
Um agente da CIA se torna o ditador. Estamos falando do presidente Manuel “Cara de Piña” Noriega. Obvio que por sua localização geográfica, o Panamá é de suma importância para os Estados Unidos. Quando o presidente Omar Torrijos tentou expulsar os gringos do Canal do Panamá, a CIA colocou uma bomba em seu avião e ponto final do conflito. Em 1983, Noriega tomou o poder. Ele era narcotraficante, além de agente da CIA há mais de 30 anos. Para Washington, não havia problemas porque ele seria servil. Porém, pelo dinheiro e pelo poder, Noriega mudou passou por cima de tudo. Obcecado com o poder, ele não percebeu que os Estados Unidos pretendiam outro nome para a presidência: Guillermo Endera. Mas em seu lugar, Noriega designou Francisco Rodríguez o impôs através de eleições fraudulentas. Também perseguiu as bases militares dos Estados Unidos em seu país.
Claro que os ianques não deixaram barato e invadiram o Panamá em dezembro de 1989. Prenderam Noriega em uma prisão norte-americana e mataram 3.500 civis inocentes e 20 mil foram despejados.

11 – Peru em 1990
Por último chegamos ao Peru. Aqui acaba apenas lista, não as ações que a CIA continua levando a cabo em toda a América Latina. Estes 10 casos servem apenas para entender como os Estados Unidos sempre foram iguais e nunca vão mudar. Sempre tomará as medidas necessárias para exercer seu brutal, violento, descarado, desmedido e genocida domínio nesta e em todas as regiões que considere pertinente.

12 – Venezuela 2002
No dia 11 de Abril de 2002 teve lugar na Venezuela um golpe de Estado contra o então presidente Hugo Chávez Frias, iniciado pelas forças opositoras ao governo e que comandaram o país anteriormente por meio de um regime que hoje se denomina de Pacto de Punto Fijo. Esse governo teve como característica principal um aparelho estatal controlado pelos principais partidos do país, AD e Copei. O regime puntofijista durará por 40 anos, até que as eleições de 1998 elegeram à Chávez, que chegou ao poder com 56% dos votos. Sua eleição representou não apenas a profunda insatisfação popular com o modelo econômico neoliberal que vigorava no país desde os anos 80, mas também o fim do Pacto de Punto Fijo — a aliança entre os partidos políticos tradicionais que dominaram a Venezuela por quatro décadas.
Entre as principais mudanças, o governo Chaves fez reforma agrária e nacionalizou setores da economia, nomeadamente o de hidrocarbonetos (petróleo) — provocando a ira de grandes petroleiras, como Shell, Chevron e a ExxonMobil, e tornando-se alvo das críticas acirradas do governo dos Estados Unidos.
A nacionalização do petróleo está no cerne das novas ações dos Estados Unidos contra a Venezuela. O presidente Donald Trump deixou claro o objetivo do cerco ao país caribenho pela Marinha dos EUA e pelas unidades de desestabilização da CIA:
Trump, afirmou na quarta-feira (17) que a Venezuela roubou os direitos de exploração de petróleo de empresas americanas no país e disse que quer recuperá-los.
“Lembrem-se, eles tiraram todos os nossos direitos energéticos. Eles tomaram todo o nosso petróleo não faz muito tempo. Nós o queremos de volta. Eles o tomaram ilegalmente”, disse o presidente a repórteres na Base Aérea de Andrews, nos arredores de Washington.
“Nós o queremos de volta. Eles tomaram nossos direitos de exploração de petróleo, mesmo havendo muito petróleo lá, como vocês sabem, expulsaram nossas empresas, e nós o queremos de volta”, insistiu.
O presidente venezuelano Nicolás Maduro apela à ONU (Organização das Nações Unidas) para que exerçam pressão contra o governo dos Estados Unidos. A reação se deve a apreensão pela marinha dos Estados Unidos, em águas internacionais, de navio petroleiro com cerca de 1,1 milhão de barris de petróleo.
Um vídeo de 45 segundos mostra dois helicópteros se aproximando de uma embarcação com indivíduos armados e camuflados descendo da aeronave sobre o navio.
O governo da Venezuela classificou a apreensão de petroleiro do país, por militares dos Estados Unidos (EUA), de “roubo descarado” e ato de pirataria e determinou a escolta militar dos petroleiros que deixarem a Venezuela.
33 trilhões de dólares em petróleo
A apreensão do petroleiro representa uma escalada do cerco militar dos EUA contra a Venezuela, que já conta com diversos ataques contra embarcações no Caribe sob a justificativa oficial de combate ao narcotráfico, isso apesar do país sul-americano não ser um dos produtores mundiais de cocaína e não abrigar os mais importantes cartéis de drogas.
Durante a campanha eleitoral de 2023, Trump chegou a admitir que, durante o primeiro mandato dele, esteve próximo de “tomar” todo o petróleo da Venezuela, que é o país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta: 303 bilhões de barris, avaliadas em US$ 33 trilhões. A titulo de comparação, o déficit fiscal da economia norte-americana é de US$ 30 trilhões. Desde 2017, a Venezuela sofre com um embargo econômico imposto pelos EUA.
Com informações da BBC, Telesur, Agência Brasil e BdF