O tradicional Círio de Nazaré realizou a procissão de número 231 neste domingo (8) levando, mais uma vez, uma multidão às ruas de Belém (PA). A procissão começou após a missa das 6h, realizada na Catedral Metropolitana de Belém e ministrada pelo arcebispo da capital paraense, Dom Alberto Taveira Corrêa. Em seguida, a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré percorreu os 3,6 kms até a Praça do Santuário, onde a procissão acabou por volta do meio-dia. 

A expectativa dos organizadores e do governo do Pará era de que mais de 2 milhões de pessoas participassem do Círio de 2023, fazendo deste o maior evento religioso do Brasil e um dos maiores do planeta.
Há mais de 200 anos, a procissão do Círio de Nazaré leva multidões às ruas de Belém, que recebem romeiros de todo o Pará e de outros lugares do Brasil, que vão pagar promessas à Nossa Senhora de Nazaré. A procissão deste domingo é a última de uma série de manifestações religiosas que começou há várias semanas, apesar da abertura oficial das festividades ter sido na última terça-feira (3).
A imagem peregrina percorreu cidades paraenses e várias romarias foram realizadas, desde a romaria fluvial, a romaria rodoviária que parte do município de Ananindeua (PA) até Belém, até a moto romaria com milhares de motocicletas. Na noite deste sábado (7), ocorreu a chamada Transladação, que é a procissão que faz o caminho inverso do Círio onde estima-se a participação de cerca de 2 milhão de fiéis.
Hoje realizei um dos meus grandes sonhos! Fotografar o Círio de Nazaré e registrar a esperança brasileira por dignidade de vida.
Fé no povo do meu país! pic.twitter.com/p8hKKG3WF6
— jéssica batan (@jessicabatan) October 8, 2023
O ponto alto dos festejos aconteceu neste domingo, quando um dos símbolos das celebrações, a corda do Círio, com seus 800 metros de comprimento, foi carregada junto com a imagem peregrina pelos devotos. A corda foi fabricada pela primeira vez no Pará e utilizou mais de uma tonelada de fibra, tendo sido confeccionada com malva amazônica cultivada por agricultores de mais de 20 municípios paraenses.
O trabalhador Rilson Cardoso crê que foi abençoado e levou a esposa e a filha para juntos agradecerem pela casa própria. “É muita fé, eu vim lutando com minha esposa há um tempo pra gente ter nossa casa própria e conseguimos. É muito emocionante, inexplicável. Só gratidão”, relatou o autônomo.
Domingo de muitas bençãos e muita gratidão por aqui. Como não conseguimos estar no Círio de Nazaré este ano, em Belém, hoje celebramos na Capela do Alvorada uma missa em homenagem à Nazinha. Conduzida pelo Cardeal Raymundo Damasceno Assis, a celebração foi um momento especial… pic.twitter.com/MbNNUmWVyY
— Janja Lula Silva (@JanjaLula) October 8, 2023
A técnica em radiologia Marília Barcelar foi agradecer pela recuperação dela e do filho. “Arthur teve catapora e adquiriu uma bactéria no sangue. Enquanto ele estava internado descobri uma necrose no pulmão. Quando foi esse ano, operei e retirei uma parte do pulmão. Viemos agradecer pela nossa saúde e recuperação”, relatou.
O Círio é uma manifestação católica para Nossa Senhora de Nazaré. É realizado há 231 anos em Belém e foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial pelo Iphan e declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.
Católicos, evangélicos, espíritas, umbantistas e atéus juntos
Festa católica, Círio de Nazaré une até mesmo evangélicos e umbandistas em Belém https://t.co/QlV1TDtJKz pic.twitter.com/p5W7CDwzPM
— O Tempo (@otempo) October 8, 2023
Católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas e pessoas de diversas outras religões ou sem nenhuma se unem nas ruas da capital paraense em prol da fé, para alguns, ou apenas da solidariedade: seja oferecendo ou jogando água nos fiéis, que sofrem com o calor de mais de 30 graus; auxiliando os promesseiros que fazem o trajeto de joelhos ou descalços, carregando cruzes ou levando livros, tijolos, miniaturas de casas ou imagens da santa sobre as cabeças; ou, até mesmo, socorrendo aqueles que sucumbem e precisam de atendimento médico. Ao todo, são cerca de 29 mil voluntários atuando para apoiar os fiéis.
Até mesmo o mais fervoroso dos ateus não consegue resistir à beleza da fé que se espalha pelas ruas da cidade e, no mínimo, se arrepia — isso se não for às lágrimas — ao testemunhar a emoção daqueles que se agarravam com toda a força que restava dentro deles à corda que conduz a imagem da Virgem de Nazaré durante os trajetos.
Evangélico, Silvio Farias, de 32 anos, participou pela primeira vez do Círio em 2022, na primeira celebração após o fim da pandemia de Covid-19. “A gente vê a fé, não é? Não é só Deus, a fé move muitas pessoas. Mesmo sendo evangélico, eu estou aqui para ajudar as pessoas, não é só pela imagem ou por Deus. Olha aí, ó, a multidão”, disse o homem enquanto se preparava para distribuir os milhares de copos de água que são doados por empresas e outras entidades durante a festa.
Feliz Círio! Estou no Rio Grande do Sul cumprindo agendas oficiais mas meu coração também está com as milhões de pessoas que estão acompanhando o Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Esse ano o nosso agradecimento especial à Nossa Senhora de Nazaré pela recuperação do Presidente… pic.twitter.com/NzvQ64sxM7
— Paulo Pimenta (@Pimenta13Br) October 8, 2023
Umbandista, Samanta Penna, de 48 anos, é carioca mas vive há alguns anos no Pará. Às lágrimas, ela e a filha de 28 anos se abraçaram ao ver a chegada da imagem da Virgem em sua Berlinda, que é a “carruagem” onde é transportada a santa e que é enfeitada com flores diferentes a cada procissão.
“Eu sou romeira há mais de 20 anos e não tem como não se emocionar com esse momento. Independente da religião, a fé é uma coisa muito linda”, disse, ainda bastante emocionada, a carioca que acompanhava a chamada Trasladação, que acontece na noite do segundo sábado de outubro e faz o caminho contrário da Procissão do Círio, que aconteceria no dia seguinte.
“Botina de Ouro”, “Rainha do Círio” e “Amigos da Chiquita”.
Para além da festa LGBTQIA+, há ainda outras manifestações culturais pouco ou nada ligadas à questão religiosa. No sábado pela manhã, após o famoso Círio das Águas ou Procissão Fluvial, quando a imagem de Nazaré é levada em um navio da Marinha que é seguido por dezenas de outras embarcações pela Baía da Guajará, tem início então o Arrastão do Pavulagem, termo que, no Pará, é usado para descrever uma pessoa que gosta de aparecer.
Cirio de Nazaré reuniu mais de 2 milhões de pessoas em Belém.
Movimentos populares estiveram presentes na maior romaria católica do mundohttps://t.co/gOQ9s5gLqQ— Brasil de Fato (@brasildefato) October 9, 2023
O desfile começou em 1987 com o Arraial do Pavulagem, a partir de um encontro de músicos que buscam divulgar e enaltecer a música amazônica, reunidos ao redor de um pequeno boi-bumbá, que foi batizado de “Boi Pavulagem do Teu Coração”. Com instrumentos típicos da região e ao ritmo do carimbó, os participantes são marcados por seus chapéus de palha com fitas multicoloridas que esvoaçam na parte de trás.
Também chama atenção a destreza das dezenas de palhaços multicoloridos que caminham quilômetros enquanto dançam e se equilibram sobre pernas de pau. Em 2023, o Arrastão foi acompanhado de perto pela ministra da Cultura, Margareth Menezes, que foi homenageada pelos presentes que começavam a cantar a música “Faraó”, eternizada na voz da cantora, que atualmente comanda a pasta federal.
*Com informações da Agência Pará e jornal O Tempo