Câmara de gás da PRF em Sergipe e chacina do Bope no Rio mostram o descontrole das forças policiais no país

Câmara de gás da PRF em Sergipe e chacina do Bope no Rio mostram o descontrole das forças policiais no país

População assistiu chocada dois episódios de abusos da autoridade policial na última quarta-feira, protagonizados em regiões diferentes do Brasil, mas todos com a marca do uso desproporcional da força

Em Umbaúba (SE), homem com problemas mentais foi morto por dois policiais rodoviários federais. A vítima, Genivaldo de Jesus Santos, de 38 anos, foi colocada algemada no camburão onde foi sufocado por gás, tal qual as vítimas do holocausto nazista nas câmaras de gás nos campos de concentração.

O procedimento que levou à morte de Genivaldo, foi “explicado” pela PRF, como ato de colocar uma pessoa presa no porta-malas da viatura da PRF e jogar gás dentro!

Oĺl laudo divulgado nesta quinta pelo Instituto Médico Legal (IML), a causa da morte foi devido à asfixia mecânica e insuficiência respiratória aguda. A Polícia Federal abriu inquérito e o Ministério Público Federal de Sergipe deu prazo de 48 horas para PRF explicar o uso do procedimento “câmara de gás”.

O sobrinho da vítima, Wallyson de Jesus, presenciou a situação e alertou aos policiais que o tio tinha um transtorno mental.

“Eles pediram para que ele levantasse as mãos e encontraram no bolso dele cartelas de medicamentos. Meu tio ficou nervoso e perguntou o que tinha feito. Eu pedi que ele se acalmasse e que me ouvisse”, relatou Wallyson.

Operação na Vila Cruzeiro é a mais letal do ano

Já no Rio de Janeiro, o que se viu foi a reedição da Chacina de Jacarezinho, que deixou 28 vítimas -, só que agora em outra região da cidade do Rio de Janeiro, na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha.

O jornalista Marcelo Auler, especialista em cobertura policial, relatou na TV Brasil247, várias irregularidades na operação. Em primeiro lugar, o horário: 4h30 da manhã. A lei proíbe busca e apreensão domiciliar antes das 7hs da manhã. Em segundo lugar – e mais grave – não havia mandato de busca e apreensão. E por último – gravíssimo -, ninguém foi preso. Todos foram mortos, inclusive uma cabeleireira, que foi pega por uma “bala perdida”.

Sobre o ocorrido em Umbaúba (SE), Auler salienta que constitucionalmente a Polícia Rodoviária Federal só pode atuar na fiscalização de rodovias federais, não sendo facultada atuação repressiva nos moldes da Polícia Militar.

Se não havia mandato, se ninguém foi preso, não foi uma operação policial, foi uma política de execução num país que não tem pena de morte na sua legislação, observou Auler.

Governador da chacina

Segundo levantamento realizado pelo Instituto Fogo Cruzado e o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense (UFF), no período de um ano de gestão do governador Cláudio Castro (PL) foram registradas 180 mortes em 39 chacinas. O estudo aponta que dos 39 massacres, 31 ocorreram durante operações promovidas pelas forças policiais. No total, os agentes provocaram 150 mortes, o equivalente a 84% dos assassinatos.

A Anistia Internacional Brasil também protestou, por meio de ofício ao governo do estado do Rio de Janeiro, o Ministério Público Estadual e o Ministério Público Federal na tarde da quarta-feira (25) cobrando explicações sobre a chacina ocorrida na Vila Cruzeiro, onde uma ação policial causou a morte de pelo menos 25 pessoas

Leia a íntegra da nota da PRF:

“Na data de hoje, 25 de maio de 2022, durante ação policial na BR-101, em Umbaúba-SE, um homem de 38 anos resistiu ativamente a uma abordagem de uma equipe PRF. Em razão da sua agressividade, foram empregados técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo para sua contenção e o indivíduo foi conduzido à Delegacia de Polícia Civil em Umbaúba.

Durante o deslocamento, o abordado veio a passar mal e socorrido de imediato ao Hospital José Nailson Moura, onde posteriormente foi atendido e constatado o óbito.

A equipe registrou a ocorrência na Polícia Judiciária, que irá apurar o caso. A Polícia Rodoviária Federal em Sergipe lamenta o ocorrido e informa que foi aberto procedimento disciplinar para averiguar a conduta dos policiais envolvidos”.