Depois “ataque hacker” e mudança de regras na identificação de casos de Covid, Queiroga repete Pazuello e favorece subnotificações. Com baixa testagem, especialistas apontam avanço silencioso de contágios

Em função da disseminação da variante Ômicron, o mundo passa por uma explosão de novos casos de Covid-19. Só os EUA registraram mais de um milhão de infecções em apenas um dia, um recorde mundial. No Brasil, especialistas enxergam uma nova onda de contágios, a julgar pelos relatos de atendimentos em hospitais de capitais como São Paulo, Rio e Recife, com o agravante do aparecimento de surtos de gripe. Mas o governo Jair Bolsonaro, sempre atuando ao lado do vírus, deixou mais uma vez o Brasil no escuro: desde o “ataque hacker” sofrido em dezembro, o Ministério da Saúde tem deixado de fornecer dados completos sobre o número de novos casos da doença no país.

Os dados represados de alguns estados, cujas secretarias de Saúde relatam não conseguir repassar informações ao sistema danificado da pasta, reforçam o cenário de subnotificação, dificultando ainda mais o enfrentando da pandemia. Passados poucos dias das festas de fim de ano, que favorecem um aumento expressivo nos contágios, o apagão de dados preocupa pesquisadores.

“Com qualquer governo sério, no mínimo haveria alguma comunicação transparente sobre quais são os obstáculos e quando deve normalizar”, denuncia o professor de estatística da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) Rafael Izbicki, em entrevista à Rede Brasil Atual. “Aqui dá a impressão que ou é proposital, ou não fazem questão de arrumar. Em um mês dava para ter feito um novo sistema do zero”, aponta o professor.

Além disso, desde setembro, o Ministério da Saúde modificou as regras para notificação de casos leves de Covid-19, passando a exigir número de lote e fabricante dos testes de antígeno para inclusão na plataforma e-SUS Notifica. A medida lembra as manobras do antecessor Eduardo Pazuello, cuja mudança no sistema de notificações da pasta em 2020 mascarou os números da covid-19 no país e acabou por criar o consórcio de veículos de imprensa. Desde então, o consórcio passou a coletar os dados diretamente junto aos estados.

Baixa testagem agrava quadro

Além das dificuldades impostas pelo governo para o registro de casos, somadas às falhas no sistema de inserção de dados, o país continua a testar pouco. Segundo a plataforma Worldometers, coordenada pelo Infotracker, o Brasil aparece em 128º lugar no ranking mundial de testagem por milhão de habitantes: são 296,8 mil testes por milhão, ante 18 milhões de testagens da Dinamarca, que ocupa o primeiro lugar na lista.

“No Brasil, não estamos vendo o aumento de casos [decorrente da ômicron] porque o país não testa”, denunciou o epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel). “Simplesmente, essa é a realidade”, declarou o pesquisador, ao UOL.

Enquanto isso, a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias reporta um crescimento de 50% na venda de testes rápidos nas farmácias na segunda quinzena de dezembro, se comparada com as duas semanas anteriores. Os diagnósticos positivos também assustam: saltaram de 5% no início de dezembro para 27% no dia 2 de janeiro.

“Frente a uma variante como essa, de altíssima transmissibilidade, e que tem como característica de forma geral provocar quadros menos graves, particularmente em vacinados, o que vai acontecer é que vai haver uma grande quantidade de pessoas com formas mais leves da doença”, alertou o infectologista Marco Aurélio Sáfadi, em entrevista ao G1. “E isso torna crucial a necessidade de uma testagem ampla. Eles acabam frequentando as suas atividades habituais e contribuindo de forma relevante na transmissão do vírus na comunidade”, advertiu.

Ômicron explode nos EUA e na Europa

Em meio ao caos sanitário no país, a ômicron segue provocando estragos pelo globo. Na segunda-feira (3), os EUA anotaram mais de um milhão de casos de Covid-19, segundo a Universidade Johns Hopkins. A média móvel de casos  diários em uma semana bateu 480.273 infecções, um índice que é quase o dobro do registrado no inverno americano de 2020.

Na Europa, Reino Unido e França, entre outros países, já estão pagando o preço das festas de fim de ano, com recordes de mais de 200 mil casos de Covid-19 por dia. Itália, Grécia e Portugal também bateram recordes de contágios.

“Quando se trata de Omicron, eu não a descreveria mais como uma onda ”, declarou o ministro da Saúde da França, Olivier Véran, na véspera do Ano Novo. “Tendo em conta os números que temos registrado nos últimos dias no nosso país, tenho tendência em falar em um maremoto”, acrescentou.

Da Redação, com informações de UOLFolhaG1, RBA EuroNews