O espetáculo de cinismo e falsidade de Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro foi ao Jornal Nacional vender uma imagem de moderação que suas próprias respostas desmentiram. O candidato tentou apresentar o bolsonarismo como um produto renovado, mas, quando as perguntas alcançaram os pontos sensíveis de sua trajetória, reapareceram a fuga, a acusação contra adversários e a proteção da família.
Flávio repetiu que trabalha com a verdade, enquanto transformava questões objetivas em ataques a Lula. O adversário funcionava como uma desculpa permanente para não explicar seus próprios atos.
O exemplo mais revelador veio na segurança pública. Renata Lo Prete perguntou por que ele havia defendido retirar a marcação das cápsulas de munição utilizadas pelas forças de segurança, um instrumento que permite rastrear sua origem e investigar desvios.
Flávio respondeu com fronteiras, facções, armas de guerra e ataques ao governo. A jornalista insistiu na pergunta, e ele continuou oferecendo discursos sobre outros assuntos, até reduzir o problema a um detalhe.
A contradição é brutal. Um candidato que promete enfrentar o crime organizado não consegue explicar por que defendeu enfraquecer um mecanismo de investigação, mas quer convencer o público de que resolverá a segurança com um milhão de câmeras e inteligência artificial.
Tecnologia não substitui prestação de contas. Quem pretende comandar a segurança do país precisa explicar as medidas que defendeu.
Esse contraste ficou ainda mais evidente quando a entrevista chegou aos aliados investigados no Rio de Janeiro. Flávio lembrou o direito de defesa e disse esperar que provassem sua inocência, uma prudência perfeitamente legítima, mas muito distante da desenvoltura com que lançou acusações contra seus adversários.
A lei deve valer para todos, inclusive na linguagem de quem disputa a Presidência. O problema é a conveniência de reservar a cautela aos próximos e distribuir condenações políticas aos demais.

A família acima das respostas
No financiamento de Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro, a evasão ganhou cifras. Questionado sobre os recursos de Daniel Vorcaro e sua passagem por um fundo nos Estados Unidos, Flávio afirmou que era patrocínio privado e que a produtora havia prestado contas.
Renata perguntou por que ele solicitara R$ 134 milhões ao banqueiro se o filme havia custado R$ 75 milhões, conforme os valores apresentados por ela. Flávio disse que o contrato não fora cumprido e que outros investidores contribuíram, mas não explicou a diferença.
Em seguida, tentou arrastar Lula para a conversa com acusações relacionadas a outro filme. Renata o interrompeu para reafirmar seu critério jornalístico, baseado em “fatos estabelecidos”, e recusou tratar como confirmadas informações que não tinham essa sustentação.
O candidato também invocou os patrocínios do banco à Globo, como se contratos da emissora resolvessem as dúvidas sobre sua própria atuação. A jornalista distinguiu a compra de espaço comercial do financiamento cinematográfico, mas a manobra já expunha o método de espalhar suspeitas para escapar de explicações.
Não era necessário que ele confessasse uma irregularidade, nem a diferença entre os valores demonstra crime por si só. Era necessário explicar o destino dos recursos e a dimensão do pedido, questões que ataques a terceiros não respondem.
Na economia, a mesma disposição para oferecer tranquilidade apareceu em escala bilionária. Ele prometeu preservar a valorização do salário mínimo, a vinculação das aposentadorias e os pisos de saúde e educação, ao mesmo tempo que sustentou um ajuste de R$ 200 bilhões.
O candidato reconheceu que cortar ministérios não produziria essa economia e passou a enumerar receitas com imóveis públicos, créditos da União e petróleo. Reduzir despesas e levantar recursos são operações diferentes, mas ele não explicou quanto do ajuste viria de cada uma nem em que prazo.
Vender patrimônio ou antecipar recebimentos não equivale, por si só, a diminuir despesas que se repetem todos os anos. Faltou demonstrar como aquelas cifras sustentariam as promessas, em vez de apresentar possibilidades de arrecadação como soluções prontas.
O eleitor merece saber como o ajuste prometido será compatível com a preservação desses direitos. Essa obrigação cresce quando o candidato acrescenta novas despesas à lista de compromissos.
Na escala 6 por 1, Flávio atribuiu sua mudança de posição ao que ouviu dos trabalhadores. Mudar de opinião é legítimo, mas a conveniência eleitoral dessa descoberta merece ser cobrada.
O capítulo democrático expôs a mesma falsidade política da embalagem moderada. Ao discutir a tentativa de golpe, o candidato recorreu à caricatura de uma senhora com uma Bíblia e de prédios vazios, deslocando a conversa sobre a ruptura institucional para uma cena inofensiva de sua própria conveniência.
Ele afirmou que respeitará o resultado das urnas, compromisso que deve ser registrado e cobrado. Respeitar a votação é uma obrigação elementar de qualquer candidato, e não um favor que a família Bolsonaro concede ao país.
Flávio negou que Eduardo será chanceler, mas evitou uma negativa igualmente clara sobre um cargo para Jair, dizendo que a hipótese não estava no radar. A anunciada independência conviveu com a defesa incondicional do núcleo familiar.
O espetáculo de cinismo e falsidade consistiu nisso. Flávio pediu confiança em uma versão moderada de si mesmo, enquanto suas respostas mostravam quanto dessa moderação termina justamente onde começam as perguntas que ele prefere não responder.
Miguel do Rosário
Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.