Aquilo que a China conquistou nas últimas três décadas na pesquisa e na oferta dos componentes essenciais da transição energética está agora se voltando a promover sua soberania alimentar. O vínculo entre segurança alimentar e interdependência global, por meio da liberalização comercial, se rompeu. A integração entre a oferta de proteínas vegetais vinda das Américas (e sobretudo do Brasil) para alimentar o rebanho suíno chinês está com os dias contados.
O que está em questão vai muito além das relações de troca com a China. É o padrão de crescimento econômico cujo epicentro são as matérias-primas agrícolas e minerais e que é a marca decisiva da economia brasileira do século 21, que não tem como persistir, apesar dos números vigorosos que hoje ostenta. Por mais que haja ciência e tecnologia embutidas na oferta de commodities agrícolas e apesar do esforço em desacoplar sua expansão do desmatamento, o fato é que a expectativa de que este é o caminho mais promissor de inserção do Brasil no mundo precisa urgentemente ser revista. O que impressiona não é tanto a rapidez desse processo e sim seu tratamento, no Brasil, como episódico, movido por circunstâncias passageiras e não como mudança estrutural que exige nada menos que uma profunda revisão da própria estratégia de crescimento econômico do País.
Esta é a principal conclusão que se pode extrair de dois relatórios recentes publicados pela consultoria britânica Systemiq e pela Gordon and Betty Moore Foundation. O primeiro (At the Crossroads: Food in an Age of Uncertainty Shaping the Future of Food Systems) constata que os padrões de produção, de distribuição, de consumo e as bases tecnológicas da agropecuária a partir dos anos 1960 estão esgotados. Produtos e insumos concentrados em um pequeno número de países e de regiões, alcançam, é verdade, alta produção. Mas, contrariando a visão convencional sobre segurança alimentar, não é simplesmente de mais produção que o mundo precisa hoje. O sucesso da Revolução Verde baseou-se na simplicidade de seus objetivos: produzir mais, com custos decrescentes. As políticas públicas e os comportamentos empresariais brasileiros não parecem se dar conta de que esse mundo está desabando.
A monotonia na produção, no consumo (com o avanço dos ultraprocessados) e o poder concentrado num punhado de corporações oligopolistas são incompatíveis com a fragmentação e a busca de soberania alimentar, que se torna decisivas em diversos países. É ilusório imaginar que, baixando os custos, os mercados vão absorver as capacidades brasileiras em oferecer commodities na escala em que o fizeram até aqui.
É o que mostra o outro relatório da Systemiq, desta vez sobre os métodos pelos quais a China quer reduzir sua dependência alimentar e o déficit de US$ 124 bilhões em sua balança comercial agrícola. Os mecanismos para isso vão em duas direções. Em primeiro lugar, conforme apresentado em reportagem recente do Fantástico, a agricultura urbana e periurbana da China, por meio de estufas geridas com o uso de dispositivos de inteligência artificial, contribuem para a oferta diversificada de produtos vegetais que incluem alguns originalmente vindos dos trópicos, como a banana.
O mais importante, porém, é o esforço de emancipar o país de sua dependência das proteínas vegetais vindas das Américas. Isso passa por atividades industriais na produção de aminoácidos para ração animal (dos quais a China domina 70% do mercado mundial), proteína microbiana, milho de alta proteína entre outras inovações. Estas inovações e os ganhos de eficiência produtiva devem fazer da China em 2040 um exportador líquido de aves, leite, ovos, peixes e a principal fonte global de “carnes cultivadas”. A Systemiq estima uma redução de 86% nas importações chinesas de soja vinda dos Estados Unidos e 36% nas originárias do Brasil nos próximos 15 anos.
Mas se o rebanho suíno da China depende de um insumo fundamental vindo do outro lado do mundo (a soja) este insumo, por sua vez, é dependente da importação em larga escala de um conjunto tecnológico formado por agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, com custos cada vez maiores. A atual dependência da agropecuária brasileira com relação aos insumos que utiliza tornou-se dramática em função dos conflitos militares recentes. Além disso, o domínio do conjunto da base tecnológica da agropecuária brasileira por corporações oligopolistas, das sementes à genética de aves, resulta no que os economistas costumam chamar de lock-in, ou seja, uma estrutura de financiamento, de pesquisa, de assistência técnica e de mercado, em suma, uma cultura produtiva em que mesmo com o uso crescente destes insumos e seu encarecimento constante, eles continuam a ser empregados. O agricultor se vê numa espécie de esteira rolante em que não pode parar de produzir sobre a base das técnicas que conhece, pois sem isso não consegue sequer renegociar suas dívidas. Ao mesmo tempo, os impactos da crise climática, os custos e os danos ambientais provocados por estes insumos vão limitando seus ganhos.
Por mais que as exportações de commodities estejam baseadas em tecnologias avançadas, se elas não provarem que contribuem a preservar e regenerar serviços ecossistêmicos que, até aqui, o crescimento agropecuário tem destruído, elas perderão relevância. Zerar o desmatamento, nesse sentido, é ponto de partida e não de chegada. A ameaça à segurança alimentar não vem do risco de escassez produtiva. Vem de tecnologias das quais o Brasil é dependente, que oneram os custos de produção e têm impactos ambientais cada vez mais graves. Além disso, o que está em jogo são as infraestruturas de produção e distribuição voltadas a um produto sob o risco de ser oferecido muito além do que a demanda global pede.
O Brasil possui pesquisa e iniciativas que abrem caminho a métodos produtivos baseados no conhecimento de recursos locais, que valorizam os conhecimentos acumulados em cada território, descentralizam as bases tecnológicas da agropecuária e se apoiam naquilo que a ciência contemporânea tem produzido de melhor no que se refere ao estudo e ao uso da interação entre microorganismos, plantas, solos, fungos e animais. É o que mostram as apresentações feitas no seminário sobre a regulação de bioinsumos organizado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP, pelo Instituto Biológico de São Paulo, pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia “Superar a tríplice monotonia do sistema agroalimentar” e pelo Instituto Folio (https://shorturl.at/xukLr).
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