O bolsonarismo gosta de posar de inimigo do crime organizado, mas a trajetória da família no Rio de Janeiro conta uma história bem diferente. A vida pública de Flávio Bolsonaro (PL) é atravessada por voto contra a CPI das Milícias, homenagem a acusado de chefiar grupo criminoso, parentes de miliciano empregados em seu gabinete e proximidade política com personagens investigados por ligação com facções. É esse passado nunca bem explicado que volta a assombrar o senador se apresenta como candidato à presidente representando a família cristã, defensora da moral e dos bons costumes.
O capítulo mais recente envolve Rodrigo Bacellar (União Brasil), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, aliado da extrema direita fluminense e nome que já teve o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para a disputa pelo Governo do Rio em 2026. O acordo previa que Bolsonaro apoiasse o nome do União Brasil ao Palácio Guanabara e, em troca, indicasse o vice da chapa, além de garantir espaço ao PL na composição eleitoral do estado. Bacellar teve o mandato cassado e está preso.
Meses depois, Bacellar passou a aparecer em uma investigação ligada ao Comando Vermelho. A Procuradoria-Geral da República denunciou Bacellar, o ex-deputado estadual TH Joias (MDB) e outras pessoas ao Supremo Tribunal Federal (STF) por obstrução de investigação. Segundo a acusação, informações sigilosas sobre uma operação da Polícia Federal teriam sido vazadas, permitindo que TH Joias escondesse provas que poderiam ser apreendidas.

Se de um lado o senador Flávio Bolsonaro tem insistido no discurso contra o crime organizado, de outro, a extrema-direita bolsonarista espalha uma onda de desinformação sobre o Governo Lula, porém, os parceiros do senador no rio de Janeiro podem estar diretamente envolvidos em esquemas ilícitos.
TH Joias foi alvo da Operação Zargun, investigação sobre tráfico de armas, drogas, corrupção e lavagem de dinheiro ligada ao Comando Vermelho. De acordo com as apurações citadas pela imprensa, o ex-parlamentar é investigado por suposta ligação com a facção e por intermediar a venda de armas para integrantes do grupo criminoso.

Bacellar, Fonseca, TH Joias e a política do crime
A foto acima, reprodução das redes sociais, mostra o senador Flávio Bolsonaro, num evento na região de Angra dos Reis, com deputados e políticos que estão sendo investigados pela Polícia Federal por ligações com o Comando Vermelho. Um deles é o ex-secretário Guttemberg Fonseca (PL), ex-secretário de Defesa do Consumidor. Matéria divulgada pelo site ICL, mostra que mensagens interceptadas pela Polícia Federal (PF) apontam que Gabriel Dias de Oliveira, o “Índio do Lixão”, apontado como um dos chefes do Comando Vermelho (CV), mencionou encontros e trocas de favores com Gutemberg Fonseca, que é pré-candidato a deputado federal pelo Rio.
Ainda segundo o ICL, os registros de mensagens também revelam que traficantes pediam a nomeação de cargos públicos para Marcos José Menezes, ex-servidor da Prefeitura do Rio e coordenador de campanha de Gutemberg. Em julho de 2025, Índio do Lixão pressionou pela vaga e chegou a sugerir que o próprio secretário interviesse caso não resolvesse a demanda.
Mais tarde, o assessor de TH Joias que fazia a mediação enviou ao criminoso o endereço da sede do Procon estadual para um suposto encontro com Gutemberg. A PF ainda não confirmou se esse encontro chegou a acontecer.

O caso do deputado estadual Bacellar/TH Joias (MDB) se soma a uma longa história de convivência entre lideranças da direita fluminense e personagens investigados, denunciados ou acusados de ligação com o crime organizado. No Rio, o poder armado não se limita ao domínio de territórios. Ele busca mandato, proteção, influência, acesso ao orçamento público e canais dentro do Estado.
É nesse ambiente que a trajetória de Flávio Bolsonaro precisa ser analisada. O senador não é um personagem lateral dessa história. Ele fez carreira política na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), onde milícias expandiram poder territorial, influência eleitoral e relações com agentes públicos. E, em momentos decisivos, seu nome apareceu ao lado de figuras que hoje simbolizam essa engrenagem.
O caso mais emblemático remonta a 2008, quando a Alerj instalou a CPI das Milícias. As milícias já dominavam comunidades, cobravam taxas ilegais, exploravam serviços, ameaçavam moradores e impunham medo em áreas inteiras do Rio. Mesmo assim, Flávio Bolsonaro votou contra a abertura da investigação. Anos depois, tentou justificar sua posição dizendo que, à época, não se sabia exatamente o que eram as milícias.
Ao seu lado, na mesma posição, estava Domingos Brazão, então deputado estadual. Anos depois, Brazão se tornaria um dos nomes centrais dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Brazão, Marielle e a relação apontada pela PF
A relação entre Flávio Bolsonaro e Domingos Brazão voltou ao debate depois que um relatório da Polícia Federal enviado ao Supremo Tribunal Federal apontou contatos entre assessorias dos dois. O material foi produzido a partir da análise do celular de Robson Calixto Fonseca, o Peixe, assessor de Brazão preso em maio de 2024.
Peixe é acusado de intermediar uma reunião entre Domingos Brazão e Ronnie Lessa, apontado como executor do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. As mensagens analisadas pela PF indicaram que ele manteve contato com Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora de Flávio Bolsonaro, em duas ocasiões.
Em uma delas, em novembro de 2023, o assunto era a liberação de uma emenda parlamentar para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio. Em outra, em fevereiro de 2024, foi a assessora de Flávio quem pediu quatro convites para o Desfile das Campeãs no Camarote Arpoador, no Rio de Janeiro.

O gabinete de Flávio Bolsonaro
Outro capítulo grave envolve Adriano Magalhães da Nóbrega, o Capitão Adriano. Suspeito de chefiar milícia na zona oeste do Rio e apontado como integrante do Escritório do Crime, Adriano foi homenageado por Flávio Bolsonaro com a Medalha Tiradentes, a maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio. A homenagem foi concedida quando Adriano estava preso, acusado de homicídio.
A ligação não parou na condecoração. A mãe e a então mulher de Adriano foram empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. As duas deixaram os cargos em novembro de 2018, quando vieram à tona as suspeitas envolvendo Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio e amigo de longa data de Jair Bolsonaro.
Queiroz se tornou personagem central no escândalo das rachadinhas no gabinete de Flávio. O senador sempre negou irregularidades, e decisões judiciais posteriores anularam provas no caso, mas os vínculos políticos e funcionais permanecem documentados: homenagem a Adriano, familiares do ex-PM no gabinete e a presença de Queiroz como operador político da família.
Com ICL e agências