Nesta quinta-feira, dia 23 de abril, é celebrado o dia de São Jorge. Em diversos locais do país, milhares de fiéis se reúnem para comemorar a data com costumes tradicionais. No Rio de Janeiro, o “Santo Guerreiro” se tornou padroeiro oficial do estado desde 2019. Fora do Brasil, o 23 de abril também integra calendários comemorativos em diferentes locais do mundo. A data é lembrada no Reino Unido e em regiões como Aragão, na Espanha, Terra Nova, no Canadá, e Adis Abeba, na Etiópia

São Jorge é considerado padroeiro dos cavaleiros, soldados, escoteiros, esgrimistas e arqueiros. Para o catolicismo romano, religião mais numerosa no Brasil, ele representa coragem, proteção, e a ideia de que o bem derrota o mal.

Na crença católica, São Jorge é considerado padroeiro dos cavaleiros, soldados, escoteiros, esgrimistas e arqueiros. Ou, de forma mais popular, como o santo guerreiro. Para os devotos, simboliza um guia contra as dificuldades da existência humana, aquele que ajuda na luta contra o mal, ou contra os diferentes problemas do plano terreno e sobrenatural.

Essa ideia é explicitada no site do Vaticano, em verbete que se refere ao santo.

“Como acontece com outros santos, envolvidos por lendas, poder-se-ia concluir que também a função histórica de São Jorge é recordar ao mundo uma única ideia fundamental: que o bem, com o passar do tempo, vence sempre o mal. A luta contra o mal é uma dimensão sempre presente na história humana, mas esta batalha não se vence sozinhos: São Jorge matou o dragão porque Deus agiu por meio dele”, diz o texto.

Apesar da força no catolicismo, há outras vertentes do cristianismo que o consideram santo, como a Igreja Anglicana e a Igreja Ortodoxa. Também para alguns seguidores de religiões de matriz africana, como a umbanda e o candomblé, há um comportamento de respeito.

O perfil de guerreiro, daquele que supera todas as dificuldades, é uma das explicações para a popularidade de Jorge, segundo o escritor, professor e historiador Luiz Antônio Simas. No ano passado, ele publicou o livro infantil O cavaleiro da lua: Cordel para São Jorge.

“São Jorge pertence ao rol do que eu chamo de santos do cotidiano. Aqueles dos milagres diários. Existem santos que você não evoca para os perrengues do dia a dia. Existe uma categoria que é invocada para resolver problemas imediatos. Como Santo Expedito, das causas urgentes. São Jorge é um santo da rua”, diz Simas.

 

Fiéis lotam a igreja de São Jorge, em Quintino, na zona zorte do Rio de Janeiro em comemoração ao dia do Santo.
Fiéis lotam a igreja de São Jorge, em Quintino, na zona zorte do Rio de Janeiro em comemoração ao dia do Santo Foto de Arquivo/Tomaz Silva/Agência Brasil

Origens da fé

A historiografia não identifica um conjunto de documentos que ateste, de forma inconteste, a existência de São Jorge. Muito do que é conhecido hoje se deu através da tradição oral e literária. O próprio Vaticano explica, em seu site oficial, que surgiram várias histórias fantasiosas ao longo do tempo em torno de São Jorge.

Segundo a versão mais conhecida, Jorge, nome de origem grega que significa “agricultor”, nasceu na Capadócia, atual Turquia, por volta do ano 280, em uma família cristã. Mudou-se para a Palestina e se alistou no exército de Diocleciano, imperador romano. Em 303, o imperador iniciou uma perseguição aos cristãos, e Jorge teria se colocado de forma contundente contra o imperador, o que o levou a sofrer torturas e a ser decapitado.

Um registro antigo, epígrafe grega do ano 368, descoberta em Eraclea de Betânia, teria uma das raras referências ao santo, ao falar da “casa ou igreja dos santos e triunfantes mártires, Jorge e companheiros”.

Rio de Janeiro - Durante os festejos de São Jorge em Quintino, na zona norte, na sede da paróquia dedicada ao santo, fiéis se reúnem para missas e procissões.
Rio de Janeiro – Durante os festejos de São Jorge em Quintino, na zona norte, na sede da paróquia dedicada ao santo, fiéis se reúnem para missas e procissões

O período das Cruzadas acrescentou outros elementos à mitologia. As Cruzadas eram expedições militares, religiosas e comerciais, ocorridas entre os séculos XI e XIII, em que cristãos europeus viajavam até a Palestina para derrotar os muçulmanos e conquistar Jerusalém.

A narrativa mais famosa é a de que havia um grande pântano na cidade de Selém, na Líbia, onde vivia um dragão. Uma das formas de acalmá-lo era oferecer um(a) jovem. Um dia, chegou a vez da filha do rei. Mas Jorge se levantou contra o dragão e o matou com uma espada, imagem que até hoje é a mais representativa do santo. Os cruzados compararam a morte do dragão com a derrota do Islamismo.

“O dragão sintetiza a ideia da maldade, do inimigo, que está à espreita, no plano espiritual ou material, que te acossa no cotidiano. Acho que São Jorge ganha essa popularidade justamente por causa da simbologia guerreira, bélica, por ser um santo muito articulado com o imaginário de batalhas”, explica Luiz Antonio Simas.

O curioso é que, mesmo entre os muçulmanos, Jorge é uma figura de respeito, e muitos enxergam indícios de que ele esteja presente no livro sagrado do Islão, como explica o historiador.

“Há quem diga que ele é um personagem que aparece no Alcorão, chamado Al-Khidr. Ele seria São Jorge. Tem essa multiplicidade por ter esse perfil guerreiro, é o vencedor de demandas”, diz Simas.

O culto a Jorge se aprofundou na Inglaterra com os normandos. Em 1348, o Rei Eduardo III instituiu a “Ordem dos Cavaleiros de São Jorge”. E, durante a Idade Média, a figura foi tema de literatura épica. Segundo o Vaticano, na falta de notícias mais concretas sobre ele, em 1969, houve uma mudança de status da celebração ao santo: passou de festa litúrgica para memória facultativa.

São Jorge é Ogum?

Uma das afirmações frequentes no senso comum é o de que São Jorge e Ogum, orixá ligado às religiões de matriz africana, são o mesmo personagem, com nomes diferentes. A socióloga Flávia Pinto, que também é escritora, mãe de santo e matriarca da Casa do Perdão, explica que esse é um erro.

“Para nós do candomblé e da umbanda, já temos consciência hoje que São Jorge não é Ogum. Por um motivo histórico e cronológico. São Jorge existiu na Capadócia há dois mil anos. Já Ogum existe há mais de 10 mil anos na cidade de Ire, na Nigéria. Naturalmente, São Jorge é um filho pródigo de Ogum, mas não é o próprio Ogum”, diz Flávia.

Outra ideia comum é a de valorizar o sincretismo cultural quando se fala em São Jorge, por ele ter sido apropriado e ressignificado pelos afrodescendentes, ligados à diáspora negra, como forma de resistência e manutenção das crenças africanas. Flávia Pinto defende que esse cenário não pode ser visto de maneira romantizada, por ter envolvido processos violentos.

 

Rio de Janeiro (RJ), 23/04/2024 – Fiéis participam de celebração em homenagem ao Dia de São Jorge no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Fiéis de religiões de matrizes africanas participam de celebração em homenagem ao Dia de São Jorge no centro do Rio de Janeiro. Foto de Arquivo/Tomaz Silva/Agência Brasil

“A aceitação de um santo católico é mais palatável porque a gente tem uma dominação euro-cristã em nosso processo de socialização chamado de colonização. Não podemos chamar de maneira romântica um comportamento genocida e torturador, que foi a imposição da fé de um povo dominador sobre outro povos, que tinham as próprias religiosidades, como os indígenas e os africanos. Mas, ainda assim, a sabedoria milenar desses povos foi tamanha, que conseguimos estudar minimamente a história daquele santo e associar ele aos nossos orixás”, diz a socióloga.

Oração de São Jorge

Tradição

São Jorge é um dos santos de maior apelo popular da igreja católica, além de ser cultuado também em outras religiões, como a Igreja Anglicana e a Ortodoxa. E também marca presença no sincretismo religioso, fenômeno que ocorre quando elementos de diferentes tradições religiosas são combinados em uma única prática ou crença.

Nas religiões afro-brasileiras, umbanda e candomblé, a figura do santo é frequentemente ligada a Ogum, orixá guerreiro, senhor do ferro e das batalhas. E em algumas regiões, como o caso da Bahia, também pode ser associado a Oxóssi, orixá da caça e da fartura.

Durante a escravidão, africanos trazidos à força para o Brasil passaram a associar seus orixás a figuras católicas para manter a devoção sem ser importunados pelos escravistas cristãos, dando origem assim ao sincretismo religioso brasileiro.

No Islã a figura também aparece, sendo comumente fundido com Al-Khidr, uma figura sábia e imortal que realiza milagres e traz proteção.

Celebração

Alguns eventos marcam a celebração do Dia de São Jorge. No Rio de Janeiro, acontece, ainda no raiar do dia, a famosa “Alvorada de São Jorge”, uma queima de fogos organizada pela Igreja Matriz São Jorge em Quintino, na zona norte da cidade. Além de missas ao longo do dia.

Venerado pela cultura do samba por relações afro-religiosas, escolas de samba do estado também organizam celebrações.

Ogum é o orixá da agricultura, e o feijão é um de seus alimentos sagrados. Nas festividades de 23 de abril, é comum que espaços de religiosidade sirvam feijoada consagrada ao orixá, costume que, devido ao sincretismo religioso, se espalhou pela cidade.

Vestígio histórico

Em 1969, sob a liderança do papa Paulo VI, a festa de São Jorge saiu do calendário oficial do Vaticano, e, de festa litúrgica, passou a ser memória facultativa. O motivo seria a falta de registros históricos de peso em torno da sua figura.

Um texto publicado pela Vatican News, o portal de notícias oficial e multilíngue da Santa Sé, reconhece: “São inúmeras as narrações fantasiosas que nasceram em torno da figura de São Jorge”.

Um registro antigo, epígrafe grega do ano 368, descoberta em Eraclea de Betânia, teria uma das raras referências ao santo, ao falar da “casa ou igreja dos santos e triunfantes mártires, Jorge e companheiros”.

Acredita-se que seus restos mortais estão na Igreja de São Jorge em Lida, cidade israelense situada perto de Telavive. Já o seu crânio está conservado na igreja de São Jorge em Velabro, em Roma, por desejo do Papa Zacarias.

 Agência Brasil