O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de um inquérito da Polícia Federal (PF) para investigar o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão representa um novo desdobramento do escândalo envolvendo o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e os repasses milionários destinados ao projeto cinematográfico, após sucessivas revelações sobre a atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na captação de recursos para a obra.

A autorização foi concedida depois que a Procuradoria-Geral da República (PGR) considerou existirem elementos suficientes para justificar a abertura formal da investigação. O pedido havia sido apresentado pela própria Polícia Federal, que pretende esclarecer o destino dos recursos enviados por empresas ligadas a Vorcaro para financiar o filme e verificar se parte desse dinheiro foi utilizada para finalidades diferentes da produção audiovisual.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, a PF pretende investigar não apenas a origem e a destinação dos aportes, mas também eventuais conexões entre os repasses e atividades políticas de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.

PF quer esclarecer destino dos recursos

De acordo com as informações já divulgadas, uma das principais linhas de investigação envolve transferências realizadas pela empresa Entre Investimentos e Participações, ligada a Daniel Vorcaro, para um fundo sediado no Texas (Estados Unidos) e controlado por aliados do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

A Polícia Federal pretende verificar se esses valores foram efetivamente utilizados na produção do filme Dark Horse ou se parte deles teria servido para custear despesas de Eduardo Bolsonaro durante sua permanência nos Estados Unidos.

Em entrevista concedida em junho, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que havia necessidade de instaurar um inquérito para esclarecer “todas essas circunstâncias que permeiam esses episódios”.

Segundo a investigação, também será apurado se recursos vinculados ao projeto cinematográfico financiaram iniciativas políticas ou ações de aliados da família Bolsonaro junto ao governo do presidente norte-americano Donald Trump.

Eduardo Bolsonaro nega qualquer irregularidade.

Flávio Bolsonaro pediu recursos para o filme

O caso ganhou dimensão nacional após a divulgação, pelo Intercept Brasil, da série de reportagens Vaza Flávio, baseada em áudios, mensagens e documentos atribuídos ao celular de Daniel Vorcaro.

Na primeira reportagem da série, veio a público um áudio em que Flávio Bolsonaro solicita diretamente ao então controlador do Banco Master aproximadamente US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões pela cotação da época — para financiar Dark Horse.

Na gravação, o senador apresenta o projeto cinematográfico como estratégico para a construção da imagem pública do pai e solicita que Vorcaro participe financeiramente da produção.

Após a divulgação do material, Flávio reconheceu que buscou financiamento privado para o filme, mas negou qualquer irregularidade.

Em nota divulgada na ocasião, afirmou que o projeto seria uma produção privada, sem utilização de recursos públicos.

Mensagens mostraram prioridade absoluta para o filme

As reportagens seguintes do Intercept ampliaram o alcance das revelações.

Documentos e conversas mostraram que Daniel Vorcaro passou a tratar os pagamentos destinados ao filme como prioridade máxima dentro de sua estrutura financeira, mesmo em um período em que o Banco Master enfrentava dificuldades de liquidez e crescente pressão regulatória do Banco Central.

Em mensagens trocadas com seu cunhado e operador financeiro, Fabiano Zettel, Vorcaro perguntou especificamente se o pagamento relacionado ao filme havia sido realizado.

Ao ser informado de que o projeto sequer fazia parte da lista prioritária de desembolsos, respondeu:

“Esse é o mais importante disparado.”

Na sequência acrescentou:

“Não pode falhar mais.”

Os diálogos sugerem que, após cobranças feitas por Flávio Bolsonaro e pelo empresário Thiago Miranda — apontado como intermediário das negociações —, Vorcaro passou a acompanhar pessoalmente a execução dos aportes destinados ao longa.

Repasses milionários

Segundo planilhas e documentos divulgados anteriormente pelo Intercept, aproximadamente US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões — chegaram ao fundo responsável pela produção até maio de 2025.

Os recursos teriam sido enviados para um fundo sediado nos Estados Unidos e administrado por pessoas ligadas ao advogado Paulo Calixto, responsável pela estrutura jurídica da produção.

A Polícia Federal pretende verificar se todo esse montante permaneceu vinculado exclusivamente ao filme ou se parte dele teve outro destino.

Caso chegou ao STF

Antes da abertura do inquérito, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) havia protocolado uma notícia-crime no Supremo pedindo investigação sobre os repasses.

O parlamentar sustentou que havia indícios de possível conexão entre o financiamento do filme, os recursos solicitados por Flávio Bolsonaro e a atuação política de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Embora a Procuradoria-Geral da República tenha se manifestado pelo arquivamento da notícia-crime apresentada diretamente pelo deputado, considerou que o pedido formulado pela Polícia Federal reunia elementos suficientes para justificar uma investigação formal.

O presidente do STF, ministro Edson Fachin, distribuiu o caso para André Mendonça, que posteriormente solicitou parecer da PGR antes de decidir.

Com o aval do Ministério Público Federal, Mendonça autorizou a instauração do inquérito.

Nova etapa das investigações

A abertura do inquérito marca uma mudança importante na condução do caso. Até agora, as informações sobre o financiamento do filme estavam concentradas em reportagens investigativas e em procedimentos preliminares.

Com a decisão do STF, a Polícia Federal poderá aprofundar a coleta de provas, analisar movimentações financeiras, ouvir testemunhas e requisitar documentos para esclarecer a origem, o fluxo e a destinação dos recursos relacionados ao projeto Dark Horse.

Nos últimos meses, o caso também ganhou novos capítulos com a inclusão, segundo reportagem da CNN Brasil, do episódio envolvendo o financiamento do filme em uma nova proposta de colaboração premiada apresentada por Daniel Vorcaro à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República. Paralelamente, ações envolvendo o longa e seus possíveis impactos eleitorais passaram a tramitar no Tribunal Superior Eleitoral, enquanto a própria produção segue no centro das investigações sobre eventual abuso de poder econômico e irregularidades no financiamento da obra.

Até o momento, Flávio Bolsonaro sustenta que a captação de recursos ocorreu de forma privada e dentro da legalidade. Eduardo Bolsonaro também nega que qualquer valor destinado ao filme tenha sido utilizado para custear sua permanência nos Estados Unidos. A investigação da Polícia Federal buscará agora verificar, com base em provas documentais e financeiras, se os recursos seguiram exclusivamente para a produção cinematográfica ou tiveram outras destinações.

TVT News