

Antes de servir, Helen, Marcelo e Idjahure vão integrar a turma que se inicia em 2026 e termina em 2028. O curso tem cerca de 60 alunos aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). Do total, quase metade dos ingressos são de grupos subrepresentados na diplomacia brasileira, com 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência e uma quilombola, além dos dois indígenas.
O grupo também tem maior participação proporcional feminina da história, com 45% de mulheres.
De Simolândia para o mundo

Helen Jaine Gomes Borgens conquistou vaga histórica no Itamaraty e terá salário inicial de R$ 22,5 mil.
Ela está entre os 60 novos profissionais que ingressaram no Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, em uma cerimônia que marcou um avanço na representatividade do Itamaraty.
Filha de Nailza Gomes de Oliveira Borgens e Joel Ferreira Borgens, Helen nasceu e cresceu em Simolândia, no quilombo Retiro. Em entrevista ao jornal institucional da UFG, ela conta que sua infância frequentando a fazenda onde morava parte da família, foi o que moldou sua trajetória.
“Foi uma infância muito boa, de bastante conexão com aquela terra, com a natureza e com tudo ao redor, com minha família, que mora toda ali junto”, disse.
Helen contou que depois de começar a graduação, se distanciou da área e até pensou em desistir do curso, mas permaneceu por insistência da mãe; e foi nesse período que ela cursou a disciplina de Política Externa Brasileira, que reacendeu seu interesse pelas Relações Internacionais e, com ele, a vontade de se tornar diplomata.
Em 2023, ela imprimiu a prova aplicada em 2023 para entender o nível do exame e se preparar para o desafio. Após se formar, voltou para Simolândia para estudar para a prova.
Por morar no interior, Helen enfrentava grandes desafios no acesso ao estudo especializado e precisou até mesmo estudar inglês e todos os conteúdos além do básico, por conta própria. “Não tive professores nem ninguém para orientar, porque simplesmente não existia essa estrutura aqui. Era eu e Deus”, contou.
A próxima fase para Helen, é o curso de treinamento Instituto Rio Branco que dura de três a quatro semestres. Neste curso, durante o último semestre, os diplomatas em formação realizam um estágio prático no Itamaraty. A partir do momento da conclusão, o diplomata passa a cumprir expediente em tempo integral como Terceiro Secretário, a primeira posição na hierarquia diplomática.
Ações afirmativas
O concurso que selecionou os novos alunos do Instituto Rio Branco contou com ações afirmativas como uma política estabelecida no Estatuto da Igualdade Racial (2010) e uma reivindicação de anos dos movimentos de defesa dos direitos humanos.
Sobre os novos diplomatas, a ministra interina das Relações exteriores, Maria Laura da Rocha, destacou a necessidade de o corpo diplomático brasileiro refletir a diversidade do próprio povo.
“Em tempos de ameaças à democracia e aos direitos duramente reconhecidos na Constituição de 1988, celebrar a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas brasileiros nessa instituição bicentenária é um ato de resistência”, afirmou Laura da Rocha.
“Ao fazer isso, o Itamaraty reafirma com convicção o papel que esses grupos sociais têm e devem ter na definição da posição do Brasil no mundo”, declarou..
A ministra citou medidas do ministério para promover essa diversidade, como o aumento do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, que passou a apoiar, além de pessoas negras, mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.
Povos indígenas
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, disse que posse é a materialização do conceito de “Aldear o Estado”, a partir da inserção de lideranças indígenas em espaços técnicos capazes de influenciar decisões dentro e fora do país.
Olhando para trás, ele lembrou que indígenas que chegam hoje ao Itamaraty, há poucos séculos, sequer eram considerados seres humanos.
“É um momento altamente simbólico. Não é apenas um ganho individual ou coletivo, é um ganho de toda a nação e do Estado brasileiro”, disse Terena.
Convidado de honra da cerimônia, intelectual e escritor indígena, trajando a farda da Academia Brasileira de Letras (ABL), o escritor e imortal Ailton Krenak também celebrou o momento e destacou que a presença das famílias e das crianças indígenas na solenidade rompe com a frieza institucional.
“Que mesmo diante das quase impossibilidades, eles sejam capazes de exercitar o verbo esperançar e produzir mundos ricos de sentido”, declarou.

Trajetória
Os dois jovens indígenas que ingressam na carreira diplomática têm destacada trajetória acadêmica e profissional. Marcelo Kariri, natural de Campina Grande (PB) é graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), tem MBA em Digital Business pela USP/Esalq. Atuou entre 2021 e 2025 como Engenheiro de Suporte a Produtos e é autor de livro infanto-juvenil.
“Havia uma tradição permeando onde minha família morava de que pessoas como nós enlouqueceriam se estudassem e deveriam ficar apenas nos trabalhos braçais”, contou na cerimônia. “Minha mãe viu na educação uma porta para a vida”.
Idjahure Achkar Terena é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e Mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É também bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
“Estrar no Itamaraty é ter consciência de toda essa história pretérita de exclusão e tutela, batalhando por um futuro ancestral e por um novo presente onde a nossa diversidade étnica finalmente integre o Estado”, avaliou. Idjahure é filho do artista Macsuara Kadiwéu, o primeiro ator indígena do cinema brasileiro.
De uma população de 203 milhões de pessoas, o Brasil tem 1,2 milhão de indígenas distribuídos em 391 etnias falantes de 295 linguas distintas, além de 114 grupos isolados ou de recente contato. Já a população negra do país totaliza 92,1 milhões de pessoas, dos quais 45,3% são pardos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022.