O promotor Lincoln Gakiya e o ex-secretário Nacional de Segurança Pública, Mário Luiz Sarrubbo afirmam que a transferência do assunto para a CIA impedirá troca de informações e facilitará a vida dos criminosos.

Duas das maiores autoridades brasileiras em segurança pública, o promotor Lincoln Gakiya, que investiga o PCC há 20 anos, e o procurador de Justiça e ex-secretário Nacional de Segurança Pública, Mário Luiz Sarrubbo, alertaram nesta sexta-feira (29), em entrevistas à imprensa brasileira, que a caracterização das facções criminosas como organizações terroristas pelos EUA atrapalha o combate ao crime no país.

“A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas só vai prejudicar o combate ao crime organizado dentro do Brasil”, advertem os especialistas.

O Brasil segue a posição da ONU que caracteriza de organização terrorista a grupos que cometam crimes violentos contra raças, etnias ou religião e tenham objetivos políticos. Os dois especialistas afirmaram que a decisão transfere da DEA (Drug Enforcement Agency) e do FBI para a CIA o combate às duas facções o que pode impedir a acessos a informações e prejudicar combate ao crime.

O empenho do clã Bolsonaro no sentido de facilitar os objetivos expansionistas de Trump na América Latina reforça as suspeitas que já haviam dentro do país de eles agem, não só como bajuladores de Trump mas, principalmente, para proteger o crime organizado às quais eles são ligados. As ações bolsonaristas que tentaram enfraquecer a Polícia Federal reforçam a visão de que há um conluio entre as facções e as milícias e o bolsonarismo. Nos últimos meses a PF tem feito uma verdadeira limpa nos esquema financeiros das facções do país e isso tem deixado a extrema-direita bastante incomodada.

“Trump pode atrapalhar cooperação nas investigações, gerar sanções financeiras e afetar a soberania do país, afirma Gakiya. Ele acrescentou que “há muitos anos os EUA definiram organizações do México, Colômbia El Salvador e isso não significou nenhum avanço no combate a essas organizações, como alguns acham que poderia ocorrer com o PCC e o CV”. O promotor chama a atenção para o fato de que “os objetivos dessas organizações criminosas são objetivos econômicos”. “Portanto, diz ele, “elas são organizações do crime, do tipo máfia e não organizações terroristas que visam objetivos políticos”.

O promotor Lincoln Gakiya, que é jurado de morte pelo PCC, e um dos maiores defensores da cooperação internacional, destaca que, além de dificultar as investigações, a classificação pode comprometer cooperações já em andamento entre as polícias e promotorias do Brasil e dos EUA. Gakiya conta que há poucas semanas participou de reuniões em Boston, nos EUA, com integrantes do FBI e da DEA para troca de informações sobre membros do PCC que hoje estão em atividade em redes criminosas nos EUA.

“A partir do momento em que essas organizações são classificadas como terroristas, a CIA passa a ser responsável por essas informações e investigações, que passam a ser classificadas como confidenciais ou secretas”, disse. “Isso pode criar dificuldade na troca de informações mais ágil e rotineira que a gente mantém há bastante tempo, o que pode trazer prejuízo às investigações”, acrescentou.

Na visão do promotor, porém, a medida pode criar ainda riscos econômicos para empresas e instituições financeiras brasileiras. “Pessoas, grupos ou instituições financeiras que tiverem algum tipo de colaboração ou transação com essas organizações podem ter bens e ativos congelados, inclusive fora dos Estados Unidos”, afirmou. Os dois especialistas falaram nesta sexta-feira para a Folha e o Estadão.