O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) acionou a Polícia Federal (PF), nesta quinta-feira (29), para investigar episódios de violência contra indígenas Guarani e Kaiowá em Mato Grosso do Sul, registrados após o resultado das eleições.
“Diante da gravidade dos relatos, o MPI acionou a Polícia Federal para que os fatos sejam apurados com celeridade e rigor. O Ministério também mantém diálogo com as comunidades indígenas, por meio do Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Fundiários Indígenas (Demed)”, informa o governo federal.
Segundo a nota, o MPI continua atuando para garantir a proteção e os direitos das comunidades indígenas. Os relatos de violência estão sendo reunidos pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e pela Associação Aty Guasu.
Entre os casos relatados estão assassinatos em Naviraí, atropelamentos em Coronel Sapucaia, ameaças de morte, manifestações racistas e ameaças de envenenamento da água consumida por comunidades dos povos originários em Tacuru e Nioaque.
Na quarta-feira (28), em retaliação ao resultado da eleição presidencial, um funcionário da Prefeitura de Tacuru, no extremo sul do estado, teria sugerido, em mensagem enviada por WhatsApp, que a água consumida pelos indígenas da Aldeia Sassoró fosse envenenada. “ponha (sic) veneno na água, (vamos) matar essas praga na água”. Após o episódio, ele foi afastado de suas funções.
De acordo com o coordenador do departamento jurídico da Apib, Ricardo Terena, o acesso à água na região é precário, e as comunidades indígenas dependem do abastecimento por caminhões-pipa. Após a divulgação dos áudios, muitos indígenas deixaram de consumir a água por medo de contaminação.
Diante das ameaças, o Ministério Público Federal (MPF) em Mato Grosso do Sul deu prazo de 24 horas para que a Prefeitura de Tacuru esclareça se os áudios são autênticos, identifique o autor das ameaças e informe quais providências estão sendo adotadas.
No domingo (25), à noite, uma família inteira foi assassinada em Naviraí. Na mesma data, um homem morreu após ser atropelado em Coronel Sapucaia.
O coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em Mato Grosso do Sul, Matias Benno Rempel, afirma que os episódios de violência se intensificaram durante o período eleitoral, com relatos de intimidações e agressões. Ele ressalta, porém, que essas práticas fazem parte de uma realidade permanente no estado. Segundo ele, no domingo, caminhonetes circulavam pelos territórios e indígenas eram agredidos na tentativa de provocar pânico nas comunidades e impedir que votassem.
“Caminhonetes que rodavam pelo território e algumas agressões aos indígenas para tentar causar pânico na comunidade e evitar que eles fossem votar”.
Rempel destaca que, embora a violência seja recorrente nessas comunidades, os episódios ganharam maior visibilidade neste momento. “Agora temos holofotes para a região. Mas o que aconteceu essa semana, as tentativas de assassinatos, elas ocorrem o tempo todo com a população indígena Guarani Kaiowá’, disse à Agência Brasil. “Essa violência que está sendo chamada de violência pós-eleitoral, ela é um componente permanente de milícias do campo”, completa.
A deputada federal Célia Xakriabá (Psol-MG) também denunciou o aumento da violência na Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial. Na ocasião, mencionou um incêndio no território do povo Tikm’n, também conhecido como Maxakali, em Minas Gerais. “São povos indígenas que enfrentam ameaças à vida, à água e aos seus territórios”, comunicou. “Essas denúncias precisam ser investigadas, e o poder público deve agir para garantir proteção às comunidades”, cobrou a parlamentar.
Segundo dados da Apib, entre 2022 e 2026, seis indígenas da etnia Guarani Kaiowá foram assassinados em Mato Grosso do Sul.
Em Tacuru, também há denúncias de discriminação racial contra os povos indígenas. O cacique Ivan Montiel, vereador e liderança da Aldeia Sassoró, relatou ter recebido áudios com declarações preconceituosas atribuídas a dois servidores da prefeitura. Segundo ele, os envolvidos já foram identificados e serão alvo de medidas nas esferas criminal e civil.
“Não vamos aceitar preconceito e perseguição de qualquer pessoa. Não vamos aceitar e não vamos ficar calados. A democracia sempre tem que prevalecer e o respeito também”, afirmou.
A Apib cobrou a responsabilização dos envolvidos caso as denúncias sejam confirmadas. A entidade não detalhou o conteúdo dos documentos encaminhados nem informou se todos os casos já são alvo de investigações específicas.
Foto: @midiaindigenaoficial