Apesar do que dizem os conservadores, os socialistas não odeiam a religião. Na verdade, somente o socialismo pode concretizar a promessa religiosa de uma fraternidade entre todos.
Na primavera de 2018, o governo Trump iniciou uma política de separação familiar na fronteira entre os EUA e o México. Milhares de crianças migrantes seriam retiradas de seus pais e trancadas em jaulas. Como um estudante progressista do ensino médio, fiquei perturbado com essa política desumana e decidi protestar, participando de uma marcha na Ponte do Brooklyn. O protesto estava repleto de socialistas de todos os tipos. Vi os cartazes amarelos brilhantes do Partido Comunista Revolucionário exigindo mudanças no sistema. Meu pai, sabendo do meu interesse por política de esquerda, me comprou um exemplar do Socialist Worker. Mais tarde, descobri que um amigo havia ido ao mesmo protesto com os Socialistas Democráticos (DAS, na sigla em inglês). Mas, ao contrário de muitos dos participantes, eu não estava lá com nenhuma organização socialista. Eu estava com a minha congregação.

Ao crescer, minha congregação judaica humanista tinha um princípio igualitário. Participávamos da AIDS Walk e aprendíamos sobre a resposta judaica à questão da pobreza. Fui convidado a refletir sobre como eu poderia ajudar a construir um mundo melhor, um valor para o qual temos até um termo: Tikkun Olam (reparação do mundo). Duas citações que expressam o compromisso judaico com a justiça social ressoaram durante toda a minha infância. A declaração do Rabino Tarfon de que “Não é sua responsabilidade terminar o trabalho, mas você também não está livre para desistir dele”, e o questionamento feito pelo Rabino Hillel, “Se não agora, quando?”, me ensinaram que eu tinha o dever de lutar contra a injustiça.
Embora eu nunca tenha lido aquela edição do Socialist Worker, ver socialistas defendendo as famílias torturadas por Trump me fez refletir sobre meus valores políticos, quem os representava e como lutar contra as brutais injustiças do capitalismo. Um mês depois, após a vitória surpreendente de Alexandria Ocasio-Cortez com uma plataforma que defendia o fim do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), me envolvi na campanha de um socialista local para o Senado estadual e me filiei ao DSA. O socialismo foi uma extensão natural da minha educação religiosa e dos valores que ela me incutiu.
Socialismo contra a religião?
Amídia conservadora propaga uma narrativa completamente distinta, de que socialistas hereges e ateus querem perseguir a sua religião. Não é segredo que a esquerda radical tem sua parcela de ateus. Mas não, os socialistas não são contra a religião.
Os socialistas são contra a exploração e a opressão. A religião, como muitos outros sistemas ideológicos, foi usada por vezes para justificar hierarquias opressivas, enquanto noutras ocasiões promoveu a justiça social e econômica. O próprio movimento socialista tem uma história semelhante, tendo a nossa causa sido explorada várias vezes para justificar crimes terríveis, mesmo tendo atuado noutros contextos como uma força crucial em favor da igualdade social. Somos capazes de lidar com essas contradições.
É verdade, como os conservadores gostam de salientar, que Marx descreveu a religião como o “ópio do povo”, uma expressão da sua visão sobre o caráter sedativo da religião para uma classe trabalhadora que, de outra forma, seria revolucionária. Quando Marx escreveu essa e outras críticas à religião, a Igreja desempenhava um papel específico na sociedade europeia, com o catolicismo atuando como o aparato ideológico do feudalismo e o protestantismo como a força motriz do capitalismo. Nesse contexto, era difícil dissociar a religião das estruturas sociais que a originaram e que, por sua vez, ela reafirmou.
Na verdade, apesar de sua aversão pessoal à religião, o materialismo de Marx representou um passo positivo em relação às visões antirreligiosas mais vulgares de seus contemporâneos jovens hegelianos, muitos dos quais culpavam a religião pelos males sociais de sua época. Diferentemente deles, Marx reconhecia que “as ideias dominantes nada mais são do que a expressão ideal das relações materiais dominantes”. Se a religião desempenhava um papel opressor, era porque a estrutura social era opressora. Para acabar com a opressão, a estrutura social teria que ser questionada, e não apenas as ideias das pessoas.
Com o desenvolvimento do capitalismo e a separação das economias de mercado do Estado, o mesmo aconteceu com as instituições religiosas. Num mundo onde múltiplas religiões podiam coexistir sob o mesmo Estado, separadas das hierarquias oficiais, a religião perdeu em grande parte o seu papel de expressão das “ideias dominantes” da “classe dominante”, dando lugar a novas ideologias, como o compromisso quase religioso com os mercados.
Hoje, em uma sociedade cada vez mais mercantilizada e alienada, a religião oferece a muitos uma fonte rara e necessária de comunidade e segurança. É claro que, para alguns, a religião continua a servir como defesa contra as piores hierarquias revanchistas e o fanatismo. Mas também proporcionou a muitos uma ideologia comunitária emancipadora voltada para a igualdade social, um papel que os socialistas reconhecem e celebram.
O socialismo é a terra prometida
Osocialismo cristão de Martin Luther King Jr. contribuiu para o que talvez tenha sido o movimento mais poderoso em prol da justiça social nos Estados Unidos. Como líder da Conferência de Liderança Cristã do Sul (SCLC, sigla em inglês), ele mobilizou as comunidades religiosas para a luta por justiça racial e econômica. A SCLC realizou um registro massivo de eleitores entre a população negra marginalizada do Sul, organizou a Marcha sobre Washington e ajudou a conquistar as Leis dos Direitos Civis e do Direito ao Voto.
Após a consolidação dos direitos civis em lei, a SCLC reconheceu que somente através da emancipação econômica a população negra dos Estados Unidos — e, de fato, toda a classe trabalhadora multirracial — poderia ser verdadeiramente livre. Foi por isso que lançou a Campanha dos Pobres, exigindo pleno emprego, moradia para os pobres e uma renda básica universal.
Os discursos e escritos de King deixaram clara a relação direta entre seus valores religiosos e a luta por justiça social e econômica. Em seu discurso de 1957, “O Nascimento de uma Nova Nação”, King entrelaçou eloquentemente a história do Êxodo (a primeira revolta de escravizados documentada), a luta pela independência de Gana e o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Para King, todos os três exemplos demonstravam o “desejo intrínseco de liberdade na alma de cada homem”. Se o homem foi feito à imagem de Deus, então aqueles que exploravam os outros “[roubavam] algo da imagem de Deus”.
King também observou que tanto o Êxodo quanto o movimento de independência de Gana demonstraram que “o opressor jamais concede a liberdade ao oprimido voluntariamente”. Ela só poderia ser conquistada por meio da luta, uma lição que ele esperava incutir nos lutadores pela liberdade dos Estados Unidos. King concluiu seu discurso com a promessa de que, em nossa geração, “chegará o dia em que todos os homens reconhecerão a paternidade de Deus e a fraternidade entre os homens”. Para King, essa fraternidade, a “terra prometida”, era um mundo socialista democrático, livre de guerras, racismo, pobreza e exploração do homem pelo homem.
King foi apenas um dos muitos que identificaram as profundas conexões entre religião e socialismo. Em toda a América Latina, a teologia da libertação, uma forma de marxismo cristão, desempenhou um papel importante nas lutas emancipatórias, desde a Revolução Sandinista na Nicarágua até a luta contra a ditadura militar no Brasil. Na Coreia do Sul, a teologia minjung (do povo) entrelaçou de forma semelhante os temas bíblicos de combate à pobreza e emancipatórios com os movimentos trabalhistas e sociais coreanos contra a ditadura pós-Guerra da Coreia. O próprio Jesus foi um líder rebelde contra o imperialismo romano, reservou o céu para os pobres e identificou “o amor ao dinheiro como a raiz de todos os males” (1 Timóteo 6:10).
Rejeitemos a perversão da religião usada para justificar a dominância dos ricos, a opressão de gênero, os ataques às liberdades reprodutivas e às comunidades LGBTQ+, a negação de uma educação plena e abrangente para as crianças e o apartheid. Em vez disso, devemos celebrar a defesa dos pobres feita por Jesus e a libertação dos hebreus da escravidão, e atentar para a mensagem de Martin Luther King Jr. de que somente através da luta social dos oprimidos e da vitória do socialismo podemos concretizar a promessa de Deus em cada um de nós.
Oren Schweitzer
é membro do Socialistas Democráticos da América de Nova Iorque.
Fonte: Jacobin

