A economista Monica de Bolle afirmou que é viável a proposta de desindexar a dívida pública brasileira, por André Lara Rezende, economista que foi um dos pais do Plano Real, que em 1995 pôs fim à hiperinflação no Brasil. Mônica fala com propriedade. Ela foi economista do Fundo Monetário Internacional (FMI), é PhD em economia pela London School of Economics and Political Science. e atualmente leciona na Universidade Johns Hopkins nos Estados Unidos, e é pesquisadora do Peterson Institute for International Economics.
Segundo Monica de Bolle, o plano de André Lara Rezende é compatível com a lógica do Plano Real, que pôs fim à 25 anos de hiperinflação no Brasil.
“O André tá propondo o seguinte: do mesmo modo que em meados dos anos noventa, nós esgotamos a nossa capacidade de viver com hiperinflação e fizemos o Plano Real, nós esgotamos a nossa capacidade de viver com essa dívida, que tá toda indexada em juros pós-fixados”, acrescentou.
De acordo com a analista, o debate defendido por Lara Resende exige uma compreensão dos mecanismos financeiros que o Brasil desenvolveu durante as décadas de inflação elevada. Segundo ela, a discussão envolve características da dívida pública que sobreviveram à estabilização monetária promovida pelo Plano Real. Segundo De Bolle, uma das frentes do Plano Real foi desmontar mecanismos que faziam preços e contratos acompanhar automaticamente a inflação – mas parte dessa estrutura permaneceu na dívida pública.
Um exemplo, segundo ela, são justamente os títulos públicos cuja remuneração está atrelada à Selic. Quando a taxa básica sobe, o custo dessa parcela da dívida também aumenta. Para De Bolle, a proposta de Lara Resende busca justamente romper essa ligação
“O plano do André é uma espécie de continuação do Plano Real dos anos 1990”, afirma a economista. “O que o André está propondo é um mecanismo de desindexação da dívida pública em relação à Selic,” reitera.
A dívida bruta do governo geral está em R$ 10,9 trilhões, ou 82,5% do PIB, e a despesa estimada com juros chega a cerca de R$ 1,4 trilhão por ano, equivalente a 10,5% do PIB, segundo os dados usados por Lara Resende. A tese é que juros menores reduzem o custo da dívida e aliviam a percepção de risco fiscal. A perspectiva é de que o Brasil economize cerca de 4 pontos percentuais do PIB por ano em custo da dívida.
