Em política não há vácuo. Alguém sempre ocupa o espaço deixado por outro.

 

Marcus Vinícius de Faria Felipe

A decisão da advogada Ana Paula Rezende de deixar o MDB e se filiar ao PL, do senador Wilder Moraes, deixou com as calças nas mãos o presidente da legenda em Goiás, o vice-governador Daniel Vilela e também o governador Ronaldo Caiado (PSD). Ambos, provavelmente, não haviam levado à sério a pretensão eleitoral da herdeira política do ex-prefeito e ex-governador Iris Rezende.

Desde que passou a auxiliar o pai na prefeitura de Goiânia, tendo atuado inclusive no processo de sua eleição em 2016, Ana Paula Rezende demonstrou que era legítimo o seu interesse pelas lides políticas. Isto ficou mais claro ainda com a criação do Instituto Iris Rezende, que faz justa homenagem à memória dos mais de 50 anos de ação política do cacique do MDB.

Mas é preciso dizer que o movimento foi abrupto, e eu diria até disruptivo, pois o eleitor de Iris Rezende é mais parecido com o eleitor do presidente Lula (PT) do que com o eleitor do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Esta, digamos, contradição, pode ser explorada pelos adversários.

O caminho natural seria Ana Paula Rezende assumir o MDB, uma vez que era a vice-presidente da legenda. Há quem diga que ela, aliás, já deveria ter assumido. Segundo alguns emedebistas  está previsto no estatuto que  governador e vice-governador não podem presidir a legenda estando no exercício do mandato executivo.

Sem um nome natural para ocupar o espaço irista no MDB, os eleitores do ex-prefeito podem encontrar substitutos em outras legendas. Pode parecer contraditório, mas o manto irista de tocador de obras pode cair nas mãos do ex-governador Marconi Perillo (PSDB). Que o diga a população da Região Noroeste de Goiânia, que foi beneficiada por viadutos, duplicação de rodovias, construção do Hugol, estação de tratamento de água e esgoto e investimentos sociais realizados no último governo de Marconi.

Como assim? Marconi e Iris eram adversários!!, pode questionar o ilustre leitor.

O PMDB do Sr. Constituinte, Ulysses Guimarães, já abrigou Henrique Santillo, Mauro Borges, Adhemar Santillo e Iris Rezende no mesmo palanque

Sim, de fato ambos divergiram, porém vieram do mesmo berço político. Marconi foi presidente do MDB Jovem e participou das campanhas de Iris em 1982 e de Henrique Santillo em 1986. Neste meio tempo organizou diretórios no interior, participou das campanhas pelas Diretas Já e foi um dos coordenadores das plenárias feitas no Norte Goiano, atual Estado do Tocantins, quando do plebiscito para definir a separação daquela região do Estado de Goiás.

Em que pese a rivalidade política, Marconi respeitava a liderança política de Iris Rezende, tanto que nunca o subestimou nas eleições em que disputaram o governo do Estado, seja na vitória surpreendente em, 1998, ou na disputa apertada em 2010.

Iris e Marconi se cumprimentam na Romaria de Trindade

Marconi conhece a velha guarda do MDB, que está há muito ressentida por não ter tido espaço no governo de Ronaldo Caiado (PSD), cujos secretários, à sua maioria, nem são de Goiás.

Quem sabe o movimento de Ana Paula Rezende seja o alerta para Caiado e a Daniel sobre a necessidade de valorizar mais os emedebistas nesta etapa final do governo.

Em política não há vácuo. Alguém sempre ocupa o espaço deixado por outro.