O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira, 19, que o Brasil não pode andar de “cabeça baixa” na relação com outros países e que ter soberania é poder competir e dizer “não” a grandes potências em assuntos internacionais. A declaração foi feita durante visita ao Centro Industrial Nuclear de Aramar, em Iperó (SP).

Em discurso na unidade, o petista defendeu investimentos em submarinos de propulsão nuclear e no enriquecimento de urânio para fins pacíficos, como a produção de energia. A agenda integra a campanha à reeleição, na qual a soberania é uma das bandeiras do presidente.

Lula associou a defesa do programa nuclear à autonomia do país no cenário internacional. Para o presidente, a soberania se expressa na capacidade de competir e na possibilidade de dizer não a grandes potências em temas globais.

Lula com trabalhadores de Aramar

“Nós vamos arrumar os recursos para que a gente termine de uma vez por todas esse submarino nuclear”, afirmou o presidente, em visita ao centro da Marinha

O presidente Lula afirmou, nesta quarta-feira (19), durante visita ao Centro Industrial Nuclear de Aramar, em Iperó, no interior de São Paulo, que os recursos para a conclusão do submarino brasileiro movido a energia nuclear não podem estar nas contingências dos limites orçamentários.

Segundo Lula, o projeto é essencial para a soberania nacional, para o avanço tecnológico e para a geração de empregos e, por isso, tem que ter prioridade.

“Nós vamos arrumar os recursos para que a gente termine de uma vez por todas esse submarino”, disse o presidente. “Um submarino é importante para o Brasil, para a nossa soberania, para o nosso desenvolvimento tecnológico e para gerar emprego”, afirmou o presidente.

Para o chefe do Executivo o projeto não pode ser afetado pela instabilidade no financiamento de projetos estratégicos das Forças Armadas. Ele destacou que iniciativas de longo prazo, como o submarino nuclear, não podem depender apenas da disputa anual por verbas no Orçamento da União, sujeito a bloqueios e contingenciamentos.

“Na hora que a gente fica dependendo do Orçamento da União, o orçamento às vezes tem que ser contingenciado. Muitas vezes você um ano tem dois, no outro tem um e em outro não tem nada. Ou seja, isso não permite que tenha uma sequência de continuidade para que a gente possa dizer: ‘vamos concluir o projeto daqui a tanto tempo’”, afirmou.

Lula disse que um projeto como este tem que ter recursos especiais. O presidente defendeu que investimentos considerados estratégicos tenham tratamento diferenciado. Ele se dirigiu ao BNDES e à Petrobrás como possíveis parceiros.

“Quando nós vamos discutir o orçamento, possivelmente um submarino nuclear não entra na agenda de disputa com prioridade. Tem outras coisas na prioridade do povo brasileiro. Isso tem que ser tratado como uma coisa especial”, declarou.

 

O Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica, LABGENE

Os alicerces estratégicos do Programa Nuclear da Marinha residem no domínio do ciclo do combustível nuclear e na operação do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), que o presidente Lula também visitou nesta quarta-feira.

O LABGENE funciona como um protótipo em escala real e em terra da planta de propulsão que será instalada no futuro Submarino Nuclear Convencionalmente Armado (SNCA). Esta infraestrutura permite simular e testar, sob condições controladas de segurança, o reator e os diversos sistemas eletromecânicos integrados antes de sua instalação definitiva a bordo.

“A gente fala do futuro do emprego qualificado. Do enriquecimento de urânio. Até para exportar para o país que quer usar ele para fins pacíficos. Significa o futuro da saúde. Da energia. O Brasil pode. É grande. Só falta acreditar nele mesmo. E eu acredito”

Luiz Inácio Lula da Silva

Quando estiver em plena operação, o LABGENE contará com uma planta nuclear de 48 megawatts de potência térmica. Essa capacidade é suficiente para alimentar todos os subsistemas de propulsão do submarino e equivale, comparativamente, à demanda energética necessária para iluminar uma cidade de aproximadamente 20 mil habitantes.

O projeto destaca-se por seu caráter dual. O domínio tecnológico do reator, além de capacitar o país para a proteção ágil e segura de suas águas territoriais, habilitará o Brasil no desenvolvimento futuro de pequenas centrais nucleares de energia elétrica, gerando também benefícios e aplicações práticas para setores como medicina e agricultura.

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Presidente Lula com o ministro da Defesa e comandante da Marinha, durante visita ao Centro Industrial Nuclear de Aramar, em Iperó – SP. Foto: Ricardo Stuckert

Complexo industrial tem instalações voltadas para a autonomia científica e tecnológica

O complexo industrial de Aramar abriga instalações de alta complexidade técnica que compõem o ciclo integrado do combustível nuclear, voltadas para a garantia da autonomia científica e tecnológica do país:

  • Laboratório de Enriquecimento Isotópico (LEI): Concentra o desenvolvimento de tecnologia nacional de separação isotópica por ultracentrifugação. É a única instalação no Brasil autorizada a realizar o enriquecimento de urânio nos níveis exigidos para o Reator Multipropósito Brasileiro. O laboratório opera sob o licenciamento da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) e é assegurado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e pela Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC).
  • Usina Piloto de Produção de Hexafluoreto de Urânio (USEXA): Instalação de alta complexidade — sendo a única com tal finalidade abaixo da linha do Equador — encarregada de purificar e converter quimicamente o concentrado de urânio (yellow cake) em hexafluoreto de urânio. Sua conclusão em escala industrial visa reduzir a dependência nacional de importação nessa etapa crítica do ciclo do combustível.
  • Laboratório de Materiais Nucleares (LABMAT): Focado no desenvolvimento e na caracterização de combustíveis cerâmicos em formato de pastilhas de dióxido de urânio, cerâmicas avançadas (como alumina e carbeto de boro) e ligas absorvedoras de nêutrons de prata, índio e cádmio, componentes essenciais para o reator do LABGENE e do futuro submarino. No âmbito do LABMAT, um aporte de R$ 58 milhões está sendo realizado pela Finep para instalar uma linha de produção de combustíveis nucleares para reatores de pequeno porte a serem utilizados em plantas de produção naval.

Complexo tem estruturas de segurança radiológica e centro de instrução nuclear

O complexo nuclear de Aramar conta com estruturas consolidadas de segurança radiológica e qualificação de equipes civis e militares. O Centro de Instrução e Adestramento Nuclear de Aramar (CIANA) é responsável por preparar recursos humanos civis e militares para operar de forma segura plantas nucleares, incluindo as tripulações técnicas do LABGENE. Suas instalações atuais funcionam desde 2012 e estruturam o itinerário de formação até exames de qualificação da ANSN.

Já o Laboratório Radioecológico (LARE) garante a segurança radiológica dos trabalhadores do complexo e da população das áreas de entorno através do Programa de Monitoração Ambiental (PMA) de Aramar. O LARE possui certificação de qualidade que segue os critérios da norma ISO 17025 e atua em cooperação técnica estreita com a AIEA.

Com agências, fotos: Ricardo Stuckert