Entre os principais alvos do relatório estão do novo tarifaço dos Estados Unidos está o PIX, o sistema de pagamentos que a maioria da população usa no Brasil. A pressão do presidente norte-americano Donald Trump atende ao lobby das operadoras de cartão de crédito/débito Visa e Mastercard, que estão perdendo milhões de dólares para o PIX, que é gratuíto e não cobra taxa dos usuários, como fazem as empresas do mercado financeiro.
“Não havia e não há justificativa para essas medidas unilaterais contra o nosso país ou contra patrimônios brasileiros como o PIX,” reagiu Lula, enfatizando que o PIX é inegociável.
O governo Lula destaca que segundo estatísticas do “Bureau of Economic Analysis”, os EUA acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos (2011-2025). Só no ano passado, o superávit comercial de bens dos EUA com o Brasil totalizou US$ 14,46 bilhões. Considerando bens e serviços a cifra sobe a US$ 40,52 bilhões.
Em 2025, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação. Oito dos dez principais produtos importados dos Estados Unidos pelo Brasil tiveram tarifa efetiva zero, incluindo petróleo e derivados, aeronaves, gás natural e carvão. A alíquota média efetivamente cobrada dos produtos norte-americanos no Brasil foi de apenas 3,1%.

PIX
Implementado no final de 2020, o Pix se tornou um dos principais meio de pagamentos do Brasil. Cada vez mais utilizado pelos brasileiros na hora de pagar contas e transferir dinheiro, a ferramenta de pagamento instantâneo foi criada pelo Banco Central (BC) e não tem taxas, diferente de TED, DOC e cartões de crédito.
No documento apresentado, o governo de Donald Trump acusa o Banco Central de favorecer o Pix em detrimento de empresas estrangeiras de pagamento eletrônico, especialmente operadoras de cartão de crédito dos Estados Unidos
O Pix aparece 20 vezes no relatório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) que propõe a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. O documento conclui uma investigação aberta em julho de 2025 e classifica determinadas práticas comerciais do Brasil como “irracionais ou discriminatórias”.
Em um relatório de 107 páginas, o USTR dedica 16 páginas a ataques ao sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central. Segundo o órgão, o principal problema seria o fato de o Banco Central atuar simultaneamente como regulador do setor e operador do Pix, o que criaria um conflito de interesses e vantagens para o sistema brasileiro.
O documento afirma que regras adotadas pelo Brasil favoreceriam o Pix em relação a empresas privadas estrangeiras. Entre os exemplos citados estão a obrigatoriedade de adesão ao sistema por instituições financeiras com mais de 500 mil contas, a exigência de destaque ao meio de pagamento nos aplicativos bancários e a gratuidade para pessoas físicas.
“É injusto exigir que concorrentes concedam vantagens ao Pix, como maior visibilidade, disponibilidade e limites de tarifas, enquanto esses benefícios são oferecidos apenas ao sistema brasileiro, discriminando empresas americanas”, afirma o relatório.
Em entrevista ao portal Terra, André Perfeito, diretor e economista da Garantia Capital, diz que dentro da ótica dos Estados Unidos, eles estão certos em questionar, já que o Pix “atrapalha” empresas de intermediação financeira. Mas o especialista faz o questionamento: por que o Brasil vai abrir mão de um meio de pagamento tão mais eficiente que os outros? Em nome do quê?
“Se todo sistema capitalista busca maior eficiência, aí quando você descobre uma maior eficiência, você tem que tirar pra manter a ineficiência pra alguém ganhar dinheiro sim? Não parece correto. É como se todo mundo exigisse que se comesse só batatas, porque eu produzo batatas, não faz sentido”, analisa.
Com Ag.Gov, Terra, Ag.Brasil – Foto: Ricardo Stuckert