O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quarta-feira (17) que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez “uma coisa desaforada” ao sugerir uma espécie de novo tarifaço ao Brasil em meio a negociações em andamento entre os dois países.

“Acho que o que ele fez foi uma coisa desaforada para o Brasil. Ele sabe disso. Por isso eu disse que ele continua agindo como imperador. Nós estávamos fazendo acordo”, disse, em entrevista coletiva após o fim da cúpula do G7, em Évian, na França.
Questionado se havia conversado com Trump durante a cúpula, Lula disse não ter pedido um encontro bilateral com o presidente estadunidense porque ambos os países seguem em fase de negociação. “Não tinha porque pedir bilateral. Nós estamos negociando”.
“Na hora em que terminar a negociação, se não der em nada, não tenho nenhum problema de pegar o telefone, ligar para o Trump e marcar outra conversa. Nasci no mundo político negociando. Desde muito cedo, a minha vida foi negociar com gente tão poderosa quando ele.”
Eleições
Lula também disse que Donald Trump, não deveria “interferir nas eleições brasileiras” de outubro, nas quais o líder da esquerda busca a reeleição. Trump é aliado do ex-presidente de extrema direita Jair Bolsonaro, cujo filho, o senador Flávio Bolsonaro, será o principal adversário de Lula nas eleições.
O presidente americano “tem direito às suas preferências eleitorais”, mas “as eleições brasileiras são problema do Brasil”, disse Lula em Genebra, após participar como convidado da cúpula do G7 na França.

PROTEÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES – Ao apresentar as iniciativas adotadas pelo Governo do Brasil, o presidente ressaltou a aprovação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que estabelece obrigações para empresas que operam serviços digitais voltados ao público infantil. “Essa é uma das legislações mais avançadas do mundo para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital”, afirmou.
Segundo Lula, a nova legislação fortalece o combate aos crimes praticados no ambiente digital. “Estamos garantindo que nossas crianças e adolescentes possam estar online em segurança. Estamos dando um basta aos criminosos que ameaçam a integridade física e mental de nossas crianças e adolescentes”, declarou.
O presidente citou dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) segundo os quais uma em cada cinco crianças e adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos já foi vítima de exploração ou abuso sexual no ambiente digital. Também chamou atenção para a adoção de novas regras para responsabilização de plataformas digitais e empresas de inteligência artificial na prevenção de crimes online, especialmente aqueles cometidos contra mulheres.
“Oito milhões e oitocentas mil mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de violência online, incluindo ameaças, assédio e invasões de contas”, lembrou.
DESIGUALDADE E SOBERANIA DIGITAL – Lula alertou que a inteligência artificial pode aprofundar desigualdades globais caso não haja ação coordenada da comunidade internacional. “Sem ação deliberada, a inteligência artificial pode ampliar — e não reduzir — desigualdades”, afirmou.
O presidente observou que, enquanto grandes empresas de tecnologia alcançam valor equivalente ao de economias nacionais inteiras, cerca de 2,6 bilhões de pessoas ainda permanecem desconectadas da internet.
Também chamou atenção para a concentração da infraestrutura digital global e defendeu que os países tenham capacidade de gerar benefícios econômicos a partir dos dados produzidos por seus cidadãos e instituições. “O Brasil defende que a governança e os benefícios econômicos sobre os dados produzidos por seus cidadãos e instituições sejam protegidos e gerem valor para nossa sociedade”, disse.
Lula ressaltou ainda o papel estratégico da infraestrutura pública digital. “A infraestrutura pública digital representa um dos bens mais estratégicos do século XXI e amplia a capacidade do Estado de servir, incluir e conectar cidadãos por meio de políticas públicas”, afirmou.
MULTILATERALISMO – Ao abordar a governança global da inteligência artificial, Lula reiterou a defesa do multilateralismo e do papel central das Nações Unidas. “O Brasil defende uma governança que reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a Inteligência Artificial fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países”, declarou.
O presidente também enfatizou a importância dos mecanismos multilaterais já criados para tratar do tema. “Nenhum foro substitui a universalidade das Nações Unidas”, afirmou.
Por fim, Lula defendeu avanços concretos nas negociações internacionais sobre governança da inteligência artificial, que terão continuidade em julho, durante encontro promovido pela União Internacional de Telecomunicações, em Genebra.
Íntegra do discurso do presidente Lula no almoço de trabalho do G7, em Évian, na França