O governo Lula lançou, em cerimônia no Palácio do Planalto, o Plano Safra da Agricultura Familiar 2026-2027. Com um volume recorde de R$ 97,3 bilhões, o pacote abrange crédito rural, seguro agrícola, compras públicas e assistência técnica. O evento marcou não apenas o anúncio de cifras históricas, mas serviu como um termômetro das prioridades do governo para o campo: soberania alimentar, combate às desigualdades regionais e a inclusão de grupos historicamente marginalizados, como mulheres e povos tradicionais.

Em um discurso que misturou pragmatismo econômico, emoção e crítica social, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fugiu do protocolo tradicional para dar um recado direto aos agricultores: usem o dinheiro e fiscalizem os bancos. Lula alertou que a liberação de bilhões em crédito é inútil se esbarrar na burocracia das agências.

“Quem fiscaliza esse plano safra são vocês. Se o banco disser não, vocês têm que denunciar”, cobrou, lembrando da dificuldade que foi a articulação com a equipe econômica para reduzir as taxas de juros.

Analiticamente, Lula desenhou sua visão de macroeconomia a partir da ponta: o dinheiro na mão do pequeno produtor não vai para a especulação financeira, mas gira na economia real. “O dinheiro circula, chega na bodega, a bodega precisa contratar, vai pra padaria… É isso que faz a economia crescer”, explicou, defendendo que o fortalecimento da agricultura familiar é o motor do consumo interno e da redução da desigualdade.

O presidente também se emocionou ao relatar o “choque” de descobrir, já no exercício da presidência, que o Brasil ainda possui 4,5 milhões de famílias sem banheiro em casa. A fala evidenciou a dimensão sanitária e social do plano, que inclui linhas de crédito específicas para reforma e construção de banheiros e moradias rurais.

Em um momento de política internacional e soberania, Lula resgatou uma conversa com o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez para ilustrar que “a melhor arma de um país é o alimento”, criticando a priorização de gastos militares em detrimento da segurança alimentar. A cerimônia ainda foi marcada por um minuto de silêncio e solidariedade à Venezuela, devastada por recentes terremotos.

 

 

Juros em queda e o protagonismo das mulheres

A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiavelli, detalhou a arquitetura do plano. O grande destaque é o volume de R$ 85 bilhões destinado ao Pronaf, com uma redução expressiva de juros. Linhas voltadas para agroecologia, sistemas sustentáveis e sociobiodiversidade terão taxas de 1% ao ano.

A ministra também enfatizou o recorte de gênero e geracional. O microcrédito rural (Pronaf B) teve seu limite ampliado, com limites específicos e maiores para as mulheres, visando a autonomia financeira e o combate à violência. O programa “Quintais Produtivos”, fruto da Marcha das Margaridas, foi consolidado como uma ferramenta de segurança alimentar e renda complementar. Além disso, o semiárido ganhou uma estratégia própria, o “Terra à Mesa”, com R$ 400 milhões para adaptação climática e irrigação.

A equipe econômica, representada no evento, reforçou que o plano é um instrumento de justiça tributária e social. O esforço para reduzir os juros de 8% para 6% na maioria das linhas — e para 1% nas práticas sustentáveis — foi vendido não como um “gasto”, mas como um investimento estrutural para corrigir distorções históricas do orçamento brasileiro.

O papel do Congresso e a escuta do “Brasil profundo”

Representantes da Câmara dos Deputados destacaram a capilaridade do recurso. Enquanto o agronegócio (cujo plano foi lançado pela manhã) movimenta grandes volumes por operação, a agricultura familiar distribui renda para milhões de estabelecimentos. O Legislativo também anunciou a edição de uma medida provisória para subsidiar pequenos produtores independentes de cana-de-açúcar do Nordeste, que enfrentam uma crise tripla: tarifas internacionais, queda no preço do açúcar e alta dos insumos.

Movimentos sociais: a resposta à mudança climática

As falas das lideranças da Contag, Contraf e do Movimento de Mulheres Camponesas trouxeram a análise de que o plano não é apenas financeiro, mas um projeto de permanência digna no campo.

A intervenção de Vânia Marques Pinto, representante da CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura Familiar), desconstrói a visão de que a agricultura familiar é apenas um setor econômico isolado. Para a Contag, o plano representa o reconhecimento do campesinato como o verdadeiro motor da segurança alimentar nacional.

Ela destacou a retomada de políticas públicas essenciais, como a redução de juros e o fortalecimento do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), apontando que essas ações foram fundamentais para o Brasil sair novamente do Mapa da Fome.

Apesar de celebrar os recordes de investimento, Vânia não deixou de apontar as lacunas estruturais que ainda impedem o pleno desenvolvimento do campo, especialmente no que tange à Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) e à inclusão digital.

“A gente sempre falha em um item fundamental, que é a assistência técnica e extensão rural. […] não chegou ainda nos 2 bilhões [reais], que é o que a gente quer, mas dobrou em relação à safra passada. Já dá para a gente começar a criticar um pouquinho menos.”

“Quando a gente fala de colocar uma assistência técnica digitalizada, a gente não tá dizendo que a gente não quer, tá dizendo que a gente precisa fazer com que a internet chegue lá na minha casa, na área rural, a mais de 30 quilômetros de uma sede.”

Como mulher e dirigente sindical, Vânia deu um tom fortemente feminista à sua fala, conectando a autonomia financeira das trabalhadoras rurais ao combate à violência de gênero. Ela exaltou os “Quintais Produtivos” como uma vitória direta da Marcha das Margaridas. “A autonomia financeira ajuda as mulheres saírem da margem da violência.”

Vânia elevou o debate para a urgência ambiental. Ela reposicionou a agricultura familiar não como vítima das mudanças climáticas, mas como a principal solução para a crise ecológica global, devido ao seu modo de produção sustentável. “Nós podemos ser a solução da crise climática, porque nós protegemos as nascentes, recuperamos os solos, preservamos as sementes criolas e somos nós que produzimos com responsabilidade.”

Vânia encerrou sua fala com uma provocação direta às autoridades e à sociedade sobre o legado que está sendo construído para as futuras gerações diante das crises globais:

“Quando nossos filhos e netos perguntarem quais decisões tomamos diante da crise climática, da fome, da desigualdade, poderemos responder que escolhemos investir na agricultura que alimenta as pessoas, preserva a natureza, garante a vida para o futuro ou teremos que explicar por que deixamos essa oportunidade passar.”

Josana Lima (Contraf) e as representantes das mulheres camponesas inverteram a lógica histórica sobre o Nordeste: “O semiárido não é problema, é potência, é cultura e resistência”. Para os movimentos, a verdadeira soberania alimentar só existe quando o Estado reconhece a agricultura familiar como a principal guardiã da biodiversidade, das sementes crioulas e da adaptação às mudanças climáticas.

No encerramento, a entrega simbólica de títulos de domínio de terra para mulheres e a assinatura de contratos para povos indígenas reforçaram a mensagem central da safra 2026-2027: o campo não é apenas um celeiro de commodities, mas o território da vida, da diversidade e da soberania do Brasil.

Autoridades como o vice-presidente Geraldo Alckmin, os ministros Paulo Teixeira, Dário Durigan, Luciana Santos, Esther Dweck, Édipo Araújo, e o governador Carlos Brandão foram citadas e cumprimentadas durante as falas