À medida que avançam as investigações da Polícia Federal (PF) sobre as fraudes do Banco Master, ficam mais claros os vínculos do banqueiro Daniel Vorcaro, preso preventivamente desde março, com políticos bolsonaristas. Esse é o caso do ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL). Ele foi alvo da 8ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF) nesta terça-feira, 26, para investigar aportes de mais de R$ 3,6 bilhões do estado, via Rioprevidência, em fundos ligados ao Master. Não pára por ai. A gestão de Claudio Castro no Rio também está lotada de episódios onde o governador ou secretários negociam com membros do Comando Vermelho, conforme apontou a Operação Zargun, da Polícia Federal, realizada em setembro do ano passado (2025). O Jornal Folha de S. Paulo  registroru que  tesoureiro da facção criminosa Comando Vermelho (CV), Gabriel Dias de Oliveira teve uma reunião com o secretário de Defesa do Consumidor do estado do Rio de Janeiro, Gutemberg Fonseca, para tratar de apoio político.

Master e o dinheiro dos aposentados do RJ

Por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), os agentes cumpriram 10 mandados de busca e apreensão no Rio e no Distrito Federal (DF). Também foram alvos integrantes e ex-integrantes do Rioprevidência.

“As investigações revelam alterações deliberadas nos procedimentos internos, credenciamentos meramente formais, ausência de análises técnicas, concentração excessiva de risco e uso de intermediários para elevação de comissões e ocultação do pagamento de vantagens indevidas”, diz um trecho da decisão de Mendonça.

De acordo com a PF, os encontros entre Castro e Vorcaro coincidiram com as aplicações do Rioprevidência no Master. O relatório da investigação detalha a relação entre os dois e a condução política até a liberação dos investimentos, “mesmo diante de alertas formais de órgãos de controle e pareceres técnicos desfavoráveis”.

“Segundo a representação, a atuação do ex-governador não se limitou a contatos institucionais, mas envolveu vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master, caracterizado por encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do Rioprevidência”, descreve a PF.

A procedimento desta terça, 26, é consequência da Operação Barco de Papel, que identificou aplicações suspeitas do Rioprevidência em letras financeiras do Master que totalizaram R$ 970 milhões, entre outubro de 2023 e julho de 2024.

Sonegação fiscal

Há 11 dias, Castro foi alvo de outra operação da PF, a Sem Refino, que apura um suposto esquema de fraudes fiscais, evasão de recursos públicos e favorecimento ilegal ao Grupo Refit, a antiga Refinaria de Manguinhos, considerado um dos maiores devedores de impostos do país.

O governador em exercício do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, decidiu desapropriar o terreno onde está instalada a Refit. A medida representa um forte impacto nos negócios do empresário Ricardo Magro, que atualmente está foragido. A informação, antecipada pelo colunista Lauro Jardim, foi confirmada à CBN por fontes do governo. Ainda não há previsão de publicação da decisão no Diário Oficial.

A refinaria é o principal ativo do grupo econômico do empresário, que já foi classificado como um dos maiores devedor de impostos, em razão de uma prática contumaz de sonegação fiscal. O valor oficial da desapropriação da área ainda está sendo avaliado por equipes técnicas. No entanto, o governo fluminense não fará nenhum repasse financeiro ao empresário. Todo o montante apurado será integralmente abatido da bilionária dívida que a Refit acumula com o poder público.

a refinaria deve 14 bilhões e 300 milhões de reais apenas em ICMS para o estado do Rio de Janeiro. Quando somados todos os débitos tributários do grupo com as fazendas estaduais do Rio e de São Paulo, o calote em impostos chega a 30 bilhões de reais.

O planejamento para o futuro do terreno já está avançado. O governador interino Ricardo Couto apresentou o projeto pessoalmente à presidente da Petrobras, Magda Chambriard, que manifestou interesse em assumir a área para expandir a capacidade de refino da estatal.

 

 

Flávio Bolsonaro encurralado

senador Flávio Bolsonaro, (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, pediu R$ 134 milhões ao banqueiro do Master, Daniel Vorcaro, para bancar o longa “Dark Horse”, produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, conforme áudios divulgados pelo site Intercept Brasil.

Um dos argumentos usados por ele é que se trata de dinheiro privado. O fato de o Banco Master utilizar recursos de aposentados desbanca essa tese. O comentarista Otávio Guedes, da GloboNews, em coluna publicada nesta terça, 26, aponta a coincidência cronológica entre as aplicações do Rioprevidência no Master e as conversas de Flávio Bolsonaro com Vorcaro.

“A investigação não relaciona os fatos, mas a cronologia desmonta a versão de Flávio de que ele desconhecia haver dinheiro público no escândalo do Master, já que, entre os entes federativos, o governo do PL do Rio foi quem mais deu dinheiro a Vorcaro”, afirma Guedes. O comentarista aponta que não há como o senador argumentar que desconhecia as condutas ilícitas de Vorcaro quando foi procurá-lo no intuito de conseguir dinheiro para o filme.

“Flávio diz que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024. Em 14 de outubro do mesmo ano, portanto dois meses antes, a conselheira do Tribunal de Contas do estado, Mariana Montebello, deu ciência ao governador Cláudio Castro das suspeitas de irregularidades”, pontua Guedes.

O bolsonarista Cláudio Castro

Castro venceu a corrida ao Palácio da Guanabara em 2022, aos 43 anos, com apoio da família Bolsonaro e obteve mais de 58% dos votos, tornando-se o mais jovem governador da história e o mais jovem pós-redemocratização. Antes disso, ele havia sido vice do ex-governador Wilson Witzel, que foi afastado por processo de impeachment devido a suspeitas de fraude, desvios e corrupção em contratos públicos de saúde durante a pandemia de covid-19. Castro assumiu o cargo no lugar de Witsel em maio de 2021.

Depois da 8ª fase da Operação Compliance Zero, a cúpula do PL avalia que as pretensões do ex-governador ao Senado naufragaram de vez.

Para não ter o mandato formalmente cassado por abuso de poder econômico e político, o aliado da família Bolsonaro renunciou ao cargo antes de ser julgado por utilização ilegal da estrutura da Fundação Ceperj e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) para financiar cabos eleitorais e ampliar seu apoio em meio à disputa. Por cinco votos a dois, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a ineligibilidade de Castro por oito anos, em julgamento ocorrido em março de 2026.

As ligações do ex-governador do Rio com a família Bolsonaro se caracterizam por uma aliança política histórica e uma parceria institucional próxima. Essa relação se consolidou quando ele assumiu o governo do Rio e se tornou um dos principais aliados do bolsonarismo no estado.

Com Folha, Intercept, Globo, CBN e PF