Deu ruim para Flávio Bolsonaro. A entrevista ao jornal estadunidense New York Times, que segundo seu apoiador, Paulo Figueiredo, seria “a entrevista que a Globo teve medo de fazer” e prometeu que ela seria “totalmente red pill”, foi um novo constrangimento para o “filho 01”. Flávio Bolsonaro foi retratado como fujão, além de ser questionado sobre processos de corrupção e por não reconhecer o resultado das eleições brasileiras.

O jornalista Miguel do Rosario, do site O Cafezinho, ressalta que “logo no subtítulo, o New York Times afirma que Flávio insiste em alegações infundadas de fraude eleitoral e planeja influenciar a política brasileira à distância, mesmo sem o apoio do próprio partido, o PL, que não contesta o resultado”.

Rosário observa que “o texto do NYT descreve a saída do senador como uma fuga espetacular de 8 mil quilômetros para escapar de investigações criminais e lembra que ele é alvo de apurações ligadas a lavagem de dinheiro e corrupção”.

A entrevista, que na cabeça de Flávio, de seu irmão Eduardo Bolsonaro e do empresário Paulo Figueiredo, deveria funcionar como vitrine internacional para Flávio Bolsonaro virou mais um capítulo de constrangimento para o senador.

Flavio e Eduardo na entrevista ao NYT

Ao falar a verdade sobre o senador fujão, investigado por associação com o Daniel Vorcaro, ex-banqueiro acusado de roubar dinheiro de aposentados do INSS, o  The New York Times provocou uma onda de reações negativas entre apoiadores do parlamentar nas redes sociais. Bolsonaristas criticaram o conteúdo da reportagem, classificaram o veículo como “esquerdista” e direcionaram ataques à jornalista Ana Ionova, responsável por assinar o texto.

 

Dissociação congnitiva à parte, o NYT tratou Flavio Bolsonaro como o que ele é, um fugitivo da Justiça do Brasil e perguntou como chegou aos Estados Unidos, mas o filho 01 de Jair Bolsonaro disse que vai levar a resposta “para o túmulo”. O próprio jornal desmonta a versão.

Segundo autoridades americanas ouvidas pela reportagem, o jato que levou Flávio a Miami foi providenciado por um funcionário da Casa Branca, e a entrada dele no país foi autorizada diretamente por Donald Trump. Na Argentina, um dos principais assessores do presidente Javier Milei o encontrou em um aeroporto.

A reportagem também confronta as suspeitas de fraude levantadas pelo senador. Flávio chamou a derrota de “matematicamente impossível” e voltou a falar em manipulação de votos.

Diante das perguntas, Flávio recuou para o terreno da dúvida. “Tenho minhas suspeitas”, disse.

Admitiu ainda que a contestação judicial que pretende apresentar tem poucas chances e resumiu a derrota com uma frase que diz muito sobre o bolsonarismo. “Perdi para o sistema.”

Tradução da capa do NYT

 

Toda a articulação internacional de Flávio e de Eduardo se apoia na extrema direita americana, no acesso à Casa Branca e aos republicanos do Capitólio. O próprio jornal relata que o entorno do senador ainda espera um encontro com Trump em Mar-a-Lago, embora o presidente americano tenha dito que não tinha planos de recebê-lo.

Flávio esperava usar um dos jornais mais influentes do mundo para se apresentar como líder perseguido. Saiu retratado como um candidato derrotado que fugiu da Justiça, repete teorias desmentidas sobre as urnas e não consegue explicar a própria fuga.

Hastag #DeportTheBolsonaros viraliza nas redes sociais dos EUA

Para piorar a situação de Flávio e seu irmão Eduardo, a hashtag #DeportTheBolsonaros segue em alta no X (antigo Twitter) pelo terceiro dia consecutivo, impulsionada inicialmente por perfis brasileiros e, agora, por influenciadores e congressistas dos Estados Unidos. O movimento cobra a deportação de Flávio Bolsonaro e familiares, que deixaram o Brasil na noite de terça-feira (27) rumo a Miami após o senador descumprir ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) para entregar seus passaportes.

A mobilização ganhou tração entre ativistas americanos. O candidato democrata ao Congresso pelo Texas Isaiah Martin passou a compartilhar conteúdo sobre as investigações contra Flávio legendado em inglês e defendeu a deportação imediata do senador.

 

“Vamos deportá-lo no primeiro dia. Aliás, deveríamos deixar o Brasil prendê-lo no meio da noite, de helicóptero!”, escreveu Martin, em referência à operação que capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro. Ele também cobrou investigação sobre eventuais gastos do governo Trump com a segurança do brasileiro: “Cada centavo que Trump usar para abrigar esse fugitivo Bolsonaro deve ser investigado”.

O deputado democrata Joaquin Castro, do Texas, criticou a decisão do governo americano de conceder refúgio a Flávio. “Perder uma eleição não é motivo para asilo”, afirmou em publicação no X. “O governo Trump deve explicações ao Congresso sobre seu papel em ajudar Bolsonaro a deixar o Brasil, em violação à legislação brasileira”.

O perfil oficial dos democratas no Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes também se manifestou, comparando o tratamento dado a pessoas que fogem de conflitos no Sudão e no Haiti à concessão de vistos à família Bolsonaro. “Não há asilo para pessoas que fogem da guerra no Sudão ou do conflito no Haiti, mas Rubio está estendendo o tapete vermelho para Bolsonaro”, publicou o grupo, em referência ao secretário de Estado americano, Marco Rubio.

 

Veja abaixo a íntegra da entrevista do senador ao NYT:


Tradução integral da reportagem do New York Times

Tradução para o português do texto fornecido pelo leitor/Miguel. O jornal e a autora são creditados abaixo.

Esta seção é tradução do original em inglês, não uma republicação oficial autorizada pelo The New York Times.

Flávio Bolsonaro, o senador brasileiro de direita que perdeu a eleição presidencial do mês passado, em Aventura, Flórida, na quarta-feira, depois de fugir do Brasil.

De Miami, Flávio Bolsonaro faz alegações infundadas de eleição roubada e trama influenciar a política de seu país à distância, embora seu partido não esteja contestando o resultado.

Por Ana Ionova
Reportagem de Miami
5 de novembro de 2026
Atualizado às 14h56 ET

Flávio Bolsonaro estava saindo do condomínio fechado onde o pai cumpre prisão domiciliar, disse ele, quando decidiu que preferia deixar o Brasil a correr o risco do mesmo destino.

Essa decisão, que o senhor Bolsonaro afirmou ter tomado apenas na manhã seguinte à derrota na eleição presidencial brasileira, o lançou numa fuga espetacular de cerca de 5 mil milhas (cerca de 8 mil quilômetros) das investigações criminais, atravessando a América do Sul até acabar nos Estados Unidos.

O jato que o levou a Miami foi organizado por um funcionário da Casa Branca, e sua entrada nos Estados Unidos foi concedida diretamente pelo presidente Trump, segundo autoridades americanas. Muito permanece obscuro sobre a viagem, que também levou o senhor Bolsonaro pelo Equador e pela Argentina, onde um dos principais assessores do presidente argentino o encontrou num aeroporto.

“Não houve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo.”

“Como cheguei aqui”, acrescentou, “levarei isso para o túmulo comigo.”

O plano de partir, disse ele, foi decidido espontaneamente com a mulher, embora soubesse que tinham amigos no exterior: “Pode ter havido torcida, mas nada além disso.”

O senhor Bolsonaro, de 45 anos, que enfrenta várias investigações relacionadas a lavagem de dinheiro e corrupção no Brasil, fugiu depois que as autoridades brasileiras ordenaram que ele entregasse seus passaportes. Na quarta-feira, o senhor Bolsonaro reafirmou sua inocência e insistiu que, se tivesse permanecido, enfrentaria condenação quase certa.

“Já sei que o desfecho final será minha prisão”, disse o senhor Bolsonaro. Ele chamou o Judiciário de excessivo e motivado politicamente, destacando o ministro do Supremo Tribunal Federal que prendeu o pai por tentar dar um golpe depois de perder a eleição de 2022 para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Numa entrevista de 75 minutos, o senhor Bolsonaro, senador de direita, por vezes reconheceu o atual predicamento da família — de estar à beira de voltar ao poder no Brasil ao exílio súbito no exterior. Não só o pai, Jair, enfrenta pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe, como o irmão Eduardo também havia fugido para os Estados Unidos, onde permaneceu depois de ser condenado no Brasil por instigar o governo Trump a interferir no julgamento do pai.

Flávio Bolsonaro não foi acusado de nenhum crime; quando seu mandato de senador terminar no início de 2027, porém, ele perderá a imunidade parlamentar e poderá ser processado.

Ainda que o próprio partido tenha aceitado o resultado eleitoral, o senhor Bolsonaro foi inflexível ao rejeitar a derrota no mês passado para o senhor Lula, que ele alegou sem provas ter sido “matematicamente impossível”.

“Sei que isso não vai levar a nada”, disse ele sobre suas frustrações. “Perdi para o sistema.”

Ele reclamou longamente dos gastos do governo durante a campanha, alegando que isso deu ao senhor Lula, um esquerdista, uma vantagem injusta. Atacou o movimento digital que ajudou a impulsionar o rival.

E ampliou drasticamente suas alegações de fraude, por vezes ecoando as teorias conspiratórias que o pai um dia propagou sobre as urnas eletrônicas brasileiras, um sistema que especialistas internacionais consideram um dos mais seguros do mundo.

“Tenho minhas suspeitas”, disse o senhor Bolsonaro quando questionado sobre suas alegações. “Ninguém pode dizer com 100 por cento de certeza que estou certo, nem com 100 por cento de certeza que estou errado.”

Há quatro anos, as alegações do pai encontraram uma plateia cativa, inspirando apoiadores a acampar em frente a quartéis militares por todo o Brasil. Milhares de tumultuosos invadiram os centros do poder no Brasil em 8 de janeiro de 2023, exigindo que o Exército anulasse o resultado apertado.

O filho mais velho enfrenta um cenário bem diferente. O senhor Lula venceu por margem ampla, e líderes-chave do partido do senhor Bolsonaro disseram que não havia provas de fraude.

Até agora, poucos brasileiros foram às ruas por causa da derrota do senhor Bolsonaro. Até aliados de direita na América Latina reconheceram a vitória do senhor Lula.

Até agora, as queixas do senhor Bolsonaro tinham se concentrado sobretudo numa prorrogação do horário de votação, que ele alega ter sido determinada por um magistrado motivado politicamente.

Na verdade, ambos os candidatos pediram a mudança porque chuvas torrenciais e atrasos de ônibus haviam prejudicado eleitores em algumas regiões. Mas a decisão judicial que concedeu a prorrogação veio perto do fim da votação, causando confusão enquanto algumas seções lutavam para permanecer abertas.

No fim, porém, isso afetou apenas 34 mil votos, o que as autoridades eleitorais brasileiras disseram ser pequeno demais para alterar o resultado; o senhor Lula venceu por 4,4 milhões de votos.

Mas o senhor Bolsonaro, que até agora adotara um tom mais moderado do que o pai em muitas questões, inclusive o sistema eleitoral, ampliou as acusações.

Ele falou de adulteração de votos e reiterou alegações, que foram desmentidas, de uma falha de segurança na sala-cofre onde computadores apuram o voto. A prorrogação do horário de votação, afirmou sem apresentar provas, poderia ter servido de cobertura para acrescentar ilicitamente muitos outros votos à conta do adversário.

O tribunal eleitoral brasileiro, que supervisiona as eleições, rejeitou suas alegações. Observadores internacionais independentes também certificaram a integridade da eleição, e dezenas de países reconheceram o resultado.

Embora os Estados Unidos não estejam entre os países que reconheceram a vitória do senhor Lula, o senhor Trump apenas sugeriu que as eleições brasileiras pareciam “estranhas”, recusando-se a dizer quem venceu.

O senhor Bolsonaro não o criticou. “Ele não tomou partido, o que é a coisa certa a fazer”, disse, agradecendo ao senhor Trump por permitir que ele ficasse nos Estados Unidos.

E mesmo depois de o senhor Trump ter dito na semana passada que não tem planos de se encontrar com o senhor Bolsonaro, a equipe dele ainda espera um encontro na Conservative Political Action Conference em Mar-a-Lago nos próximos dias.

Do exterior, o senhor Bolsonaro disse que buscaria contestar judicialmente a vitória do senhor Lula, embora tenha reconhecido que isso tem pouca chance de sucesso. Ele também planeja apoiar aliados no Brasil que empurram sua agenda, inclusive a redução da maioridade penal e a busca de anistia para o pai e para os tumultuosos de 8 de janeiro.

Ao mesmo tempo, o senhor Bolsonaro evitou perguntas sobre se também planeja fazer lobby junto ao governo Trump por novas ações americanas mirando o Brasil.

O Departamento de Estado designou neste ano as duas maiores facções de tráfico do Brasil como grupos terroristas, e o senhor Trump usou no ano passado tarifas e sanções para tentar pressionar o Brasil a abandonar o processo contra o pai do senhor Bolsonaro.

Na manhã seguinte à derrota eleitoral, disse o senhor Bolsonaro, as autoridades o abordaram quando ele saía da casa do pai para dizer que tinha 24 horas para entregar os passaportes. O homem mais velho, com lágrimas nos olhos, chamou o filho à parte antes da despedida, segundo o senhor Bolsonaro.

“Ele olhou nos meus olhos e disse: ‘Você já sabe aonde eles querem chegar com isso, né?’”, recordou. “Eu disse: ‘Pai, eu já sei’”, acrescentou. “‘E estou preparado, sei o que tenho de fazer.’ Dei as costas e fui embora.” Nenhum dos dois falou de um plano de fuga, disse ele.

Algumas horas depois, o senhor Bolsonaro publicou um vídeo nas redes sociais dizendo que planejava entregar os documentos conforme ordenado. “Nunca pensei em deixar o país”, disse ele no vídeo, prometendo liderar a oposição depois que o partido conquistou grandes vitórias no Legislativo brasileiro.

Logo em seguida, desapareceu — só para surgir em Miami cerca de 42 horas depois.

O senhor Bolsonaro, a mulher e duas filhas agora poderão ficar nos Estados Unidos por pelo menos um ano, sob um status migratório geralmente concedido por razões humanitárias.

O senhor Bolsonaro disse ainda não saber onde a família vai se estabelecer. O irmão mais novo, Eduardo, vive no Texas e recentemente recebeu status de residente permanente, conhecido como green card.

Mas, depois que um democrata conquistou o governo do Texas nas eleições de meio de mandato desta semana, Paulo Figueiredo, um dos aliados próximos dos Bolsonaro, apresentou a Flórida como base natural para a família.

O senhor Bolsonaro disse que a família está se acomodando, embora espere que seja só temporário. “Vou precisar seguir com a minha vida a partir dos Estados Unidos, pelo menos por enquanto”, disse.

Ainda assim, não descartou um retorno. “Se houver novas eleições, obviamente serei candidato de novo.”

Adam B. Ellick contribuiu com reportagem de São Paulo, e Lis Moriconi e Isabela Cruz contribuíram com pesquisa do Rio de Janeiro.

Ana Ionova é correspondente do The Times, cobrindo o Brasil e países vizinhos.

Uma versão deste artigo aparece impressa em 6 de novembro de 2026, Seção A, Página 6 da edição de Nova York, com o título: “‘Fui só eu’, diz Bolsonaro sobre sua fuga secreta do Brasil.”

Com informações do site O Cafezinho, do jornalista Miguel do Rosário