Em entrevista a TV 247, ex-deputada diz que foi vítima de atentado dos ‘kids pretos’ tramado pelos filhos de Bolsonaro, com apoio do ex-presidente
A ex-deputada federal e ex-líder do governo Bolsonaro na Câmara Federal, Joice Hasselmann concedeu entrevista a Leonardo Atuch, editor-chefe do site Brasil247.
Num misto de desabafo e denúncia, Joice Hasslmann disse à TV 247 que a família Bolsonaro é violenta e não pensa em trabalhadores, mulheres ou democracia. Recordista em 2019 com 1,07 milhão de votos para Câmara Federal, Joice fez mea-culpa pelo papel central que desempenhou na legitimação da candidatura de Jair Bolsonaro entre as mulheres, alertando para os riscos reais e cotidianos de confiar no projeto político capitaneado pelo clã.
Durante a campanha eleitoral de 2018, a rejeição a Jair Bolsonaro entre o público feminino era o principal obstáculo para a sua vitória. Naquele momento, cabia a Joice percorrer o país organizando encontros, palestras e comícios voltados para desconstruir a pecha de machista e misógino que cercava o então candidato.
Com a distância do tempo e o saldo da convivência nos bastidores, a jornalista admitiu o peso na consciência por ter emprestado sua credibilidade àquela empreitada:
“Eu normalizei o Bolsonaro entre as mulheres. Me arrependo muito e me culpo muito por isso. As mulheres tinham horror a ele, com toda a razão do mundo. Eu sabia que ele era machista, homofóbico, tudo aquilo, mas estava focada na pauta da honestidade, achando ingenuamente que ele fosse incorruptível. As mulheres iam aos eventos para me ver, eu fazia a palestra, chamava ele ao palco no final e tirávamos fotos. Fiz o movimento das ‘princesas com Bolsonaro’. Isso me corrói por dentro até hoje. Eu preciso consertar esse erro para limpar a minha história.”
Joice lembrou que, naquela época, Michelle Bolsonaro sequer participava ativamente das agendas públicas e a tarefa de humanizar a imagem do candidato recaía quase exclusivamente sobre seus ombros: “Eu peguei na mão das mulheres brasileiras e disse: ‘Confiem nele, ele não é machista’. Foi o maior erro da minha vida.”

“Olhem para mim: ele tentou me matar”
Ao ser questionada sobre o que diria às eleitoras que ainda cogitam apoiar candidatos da família Bolsonaro, Joice fez um apelo dramático baseado na violência real e psicológica que vivenciou após romper com o governo:
“Pelo amor de Deus, não se enganem mais com esta família. Olhem para mim! Olhem para a mulher que foi a principal figura feminina na campanha dele, que ajudou a elegê-lo, que foi a líder do governo no Congresso. Olhem o que fizeram comigo quando eu ousei não me dobrar aos esquemas de corrupção. Eles destruíram a minha reputação, atacaram a minha família e tentaram me matar.”
A ex-parlamentar resgatou a perseguição coordenada pelo chamado Gabinete do Ódio, comandado por Eduardo Bolsonaro, que envolveu campanhas de difamação em massa, montagens pornográficas disparadas inclusive para os colegas de escola de seu filho e ameaças explícitas de estupro e morte contra sua filha.
O ápice dessa retaliação ocorreu com o espancamento sofrido dentro de seu apartamento funcional em Brasília, no ano de 2021, que resultou em cinco fraturas na coluna e no rosto totalmente desfigurado:
“Eles mandaram os ‘kids pretos’ para me quebrar inteira ou me deixar paraplégica. A polícia arquivou dizendo que caí da própria altura. Essa gente não respeita mulher nenhuma, não respeita mãe, não respeita ninguém. A violência deles não é retórica, ela é física e letal.”

Entenda como foi o atentado a Joice Hasselmann
Na noite de quinta-feira do dia 22/07/2021, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) afirmou à imprensa ter sofrido um atentado, que teria ocorrido no último fim de semana. Ela estava em Brasília, no seu apartamento, e alega ter acordado em meio a uma poça de sangue no chão de seu closet, com cinco fraturas no rosto e uma outra na costela. Ela também estava com um dente quebrado e queixo cortado.
Joice acionou a Polícia Legislativa para fazer investigação do caso que acredita ser “um atentado”.
“Acordei em uma poça de sangue sem saber quanto tempo fiquei desacordada. A hipótese que eu mais acredito é que sofri um atentado”, afirmou.
A política pensou tivesse desmaiado e se machucado ao cair. No entanto, Joice percebeu que tinha fraturas em muitos lugares do rosto e do corpo. Além das fraturas, também tinha lesões no joelho e tórax e um inchaço na cabeça.
“É improvável que eu tenha conseguido cair de jeitos diferentes para lesionar tantas partes do meu corpo. Um dos médicos que me atendeu perguntou se eu levei chutes. Mas não posso acusar sem provas. Não me lembro de nada”, disse ela.
Na terça-feira, 20/07/2021, Joice relatou que foi ao Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, e lá as lesões foram constatadas. Os relatos já foram enviados ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), juntamente com a versão dada pela deputada.

Ao responder uma mensagem do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), prestando solidariedade, Hasselmann relatou na postagem que sente muitas dores no corpo e está com a coluna fraturada.
“Obrigada querido amigo. As dores no corpo são intensas, mas a força da alma é ainda maior. Nem com a coluna fraturada eu dobrarei a espinha. Beijo no seu coração”, disse a parlamentar.
Ela também deu novos detalhes sobre a agressão ao agradecer a mensagem de apoio do jornalista Fernando Boscardin:
“Obrigada Boscardin. Não descartamos nenhuma hipótese, mas é provável q eu tenha sido desacordada com um pancada na cabeça. Pelo menos ganhei um galo do tamanho de uma laranja acima da nuca. As outras agressões na face e coluna vieram depois, senão eu me lembraria e teria lutado”, disse.

A bancada feminina da Câmara manifestou nota de solidariedade à deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), que acredita ter sofrido um atentado no último sábado (17), em seu apartamento funcional de Brasília. A parlamentar acionou a Polícia Legislativa após acordar com fraturas pelo corpo em meio a uma poça de sangue no chão.
“Em mais um episódio envolvendo violência contra as mulheres, neste caso em particular contra uma parlamentar, e como já fizemos em outros episódios, manifestamos nosso total e veemente repúdio à violência sofrida pela Deputada. Lamentamos que em nosso País a violência contra a mulher ainda seja criminosamente recorrente”, assinaram as parlamentares em nota de apoio à época.

Quem são os kids pretos
O manual de campanha de Operações Especiais do Exército define os “kids pretos” como oficiais preparados para atuar em “missões de alto risco”, com “dificuldade de coordenação e apoio”, aptos a se infiltrar em “ambientes hostis” visando “alvos de valor significativo”. Durante o processo que investigou a tentativa de Golpe de Estado do dia 8 de janeiro de 2023 a Procuradoria-Geral da República (PGR) apurou como “kids pretos” atuam na prática.
Na trama golpista, pelo menos 12 militares formados em Forças Especiais – incluindo um ex-comandante dos “kids pretos” – fizeram o “trabalho sujo” do golpe, com missões para sequestrar e matar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, o presidente e o vice-presidente da República então eleitos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Geraldo Alckmin (PSB).
Os “kids pretos” tinham também a função de conduzir operações de manipulação contra membros do Alto-Comando do Exército, para que aderissem ao golpe.
Com Brasil247, Agência Pública e Fórum – Foto: Reprodução X