Da França à Índia e Brasil, os jovens têm liderado a atual onda de protestos. Em vez de negar a importância da política geracional, podemos vê-la como uma forma de as pessoas darem sentido às oportunidades que têm na vida e às que lhes são negadas.

Estudantes secundaristas franceses protestam sentados frente à polícia no centro de Perpignan, no departamento de Pyrénées-Orientales, no sul da França, em 24 de outubro de 2026. (JC Milhet/Hans Lucas via AFP/Getty Images)
O que martela na mente da classe dominante atualmente? Se as páginas da The Economist são um indicador confiável, é o espectro do “socialismo da Geração Z”: o crescente apoio entre os jovens à taxação de bilionários, à socialização da economia e ao fim do genocídio em Gaza, como evidenciado pela popularidade de políticos como o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, o líder do Partido Verde da Inglaterra, Zack Polanski, ou o candidato à presidência francesa, Jean-Luc Mélenchon. Em meados deste ano, a revista dedicou uma edição inteira a “contra-atacar” essa “ameaça à prosperidade”, convocando outros liberais defensores do livre mercado a “pararem de se desculpar” e a apresentarem uma “defesa mais incisiva do capitalismo”. A estratégia funcionou: a caixa de entrada da revista foi inundada com respostas críticas, uma seleção das quais foi posteriormente publicada em uma seção intitulada “Fomos rápidos demais em atacar o socialismo da Geração Z?”.
“Em meados deste ano, a revista The Economist dedicou uma edição inteira a ‘contra-atacar’ o ‘socialismo da Geração Z’, uma ‘ameaça à prosperidade’.”
A verdadeira reação, no entanto, veio das ruas. Ao redor do mundo, movimentos de massa liderados pela Geração Z estão denunciando o aumento do custo de vida e a corrupção política, além de exigirem melhorias na educação, saúde e proteção ambiental. A Índia é um exemplo disso: no mesmo dia em que o editorial da The Economist foi publicado, dezenas de milhares de jovens manifestantes enfurecidos tomaram as ruas de Nova Déli, travando confrontos com uma força policial local desorientada e violenta, paralisando o centro da capital indiana. Os protestos foram desencadeados por declarações do presidente do Supremo Tribunal da Índia, Surya Kant, que comparou jovens desempregados a “baratas” e “parasitas” durante uma audiência na Suprema Corte. Inicialmente focado em melhorias no sistema educacional, o movimento ampliou sua plataforma para incluir demandas por reformas eleitorais e econômicas.
Os protestos das baratas na Índia são apenas os mais recentes de uma série de levantes da Geração Z que inicialmente se concentraram principalmente na Ásia e na África. No Nepal, Madagascar, Bangladesh e Sri Lanka, movimentos estudantis derrubaram governos inteiros. Em outros lugares, os protestos foram brutalmente reprimidos ou até mesmo culminaram em uma sangrenta guerra civil, como em Mianmar.
Neste outono, testemunhamos uma onda de mobilizações em massa lideradas por jovens em diversos países europeus. Na França, Bélgica e Itália, estudantes do ensino médio têm liderado protestos massivos contra a austeridade na educação; na Espanha e em Portugal, jovens estão à frente de manifestações contra o aumento exorbitante dos preços dos imóveis; a “ Revolução dos Flamingos ” da Albânia exige a renúncia do primeiro-ministro devido ao desenvolvimento turístico prejudicial ao meio ambiente e à sociedade, incluindo um resort controverso apoiado por Jared Kushner, genro do presidente estadunidense Donald Trump; e na Sérvia, um novo movimento, a Lista Estudantil, acaba de celebrar uma vitória histórica, conquistando a maioria absoluta nas eleições parlamentares de domingo, após dois anos de protestos anticorrupção e contra a mineração liderados por jovens.
Mas será que tudo se resume a diferenças geracionais?
Como não pensar em gerações
Orótulo “Geração Z” dificilmente é suficiente para descrever uma gama tão diversa de movimentos sociais. Em muitos casos, trata-se de um clichê imposto de fora por especialistas com pouco conhecimento das dinâmicas locais. Ao mesmo tempo, a geração tornou-se, sem dúvida, um dos principais vetores pelos quais os movimentos se organizam e se identificam, desde o “Gen Z Mada” de Madagascar e o “Gen Z 212” do Marrocos até o “Gen Z regelt” da Alemanha. “Vocês mexeram com a geração errada!”, o grito de guerra do movimento de desobediência civil de Mianmar em 2021, tornou-se um lema popular em toda a região. Na França, o slogan “Génération 6–7 refait Mai 68” (A Geração 6–7 está repetindo Maio de 68) viralizou.
Como os socialistas devem se relacionar com esses movimentos baseados em gerações? Ao contrário de classe, raça ou gênero, geração não é uma categoria que tradicionalmente tenha estado no centro da política socialista. Designações geracionais como “baby boomers”, “Geração X”, “millennials” ou “Geração Z” não são produto da teoria marxista, mas sim de consultores empresariais, institutos de pesquisa e think tanks predominantemente estadunidenses, como o Pew Research Center. Desde a década de 1960, corporações de marketing dos EUA construíram uma indústria lucrativa em torno do estudo das atitudes e preferências de supostas coortes geracionais.

Vale a pena destacar o completo absurdo do pensamento geracional que está no cerne dessa “ciência” corporativa. Sua articulação mais influente continua sendo a de William Strauss e Neil Howe, dois ex-funcionários do Congresso, que delinearam sua “teoria” em uma série de livros, incluindo Generations [Gerações] (1991) e The fourth turning [A Quarta Virada] (1997). Strauss e Howe argumentam que a história humana progride em ciclos contínuos de oitenta a cem anos. Cada ciclo corresponde aproximadamente a uma longa vida humana e pode ser dividido em quatro estações (“viradas”), que sempre ocorrem exatamente na mesma sequência:
Primeiro vem um período de euforia, uma fase de constante expansão. Em seguida, vem um despertar, um tempo de exploração espiritual e rebeldia. Depois, vem um desmoronamento, no qual o individualismo triunfa sobre as instituições em ruínas. Por fim, vem uma crise — a quarta virada — quando a sociedade atravessa um grande e perigoso portal da história.
Cada período corresponde a um dos quatro arquétipos geracionais que, por sua vez, se geram mutuamente por meio de um estilo parental específico: o profeta, o nômade, o herói e o artista.
Segundo Strauss e Howe, a recorrência desses diferentes estilos de criação de filhos pode explicar quase tudo: desenvolvimentos na cultura popular, dinâmicas no ambiente de trabalho, crises econômicas, guerras e todos os outros grandes eventos da história dos EUA desde 1584. Suas reflexões esotéricas são apreciadas pelas elites políticas de todos os matizes. Steve Bannon descreveu The fourth turning como “fundamental para sua visão de mundo” e baseou seu documentário de 2010, “Generation Zero”, em seus argumentos. Durante o período em que foi um dos principais assessores de Donald Trump, Bannon supostamente mantinha um exemplar anotado do livro em sua estante. Al Gore, colega de Strauss em Harvard, chamou Generations de “o livro mais estimulante e politicamente relevante sobre a história estadunidense que já li” e enviou um exemplar para cada membro do Congresso. Bill Clinton, por sua vez, teria sido influenciado pelo livro em sua decisão de escolher Gore, também da geração baby boomer, como vice-presidente na eleição presidencial de 1992.
“Falar de divisões geracionais muitas vezes obscurece as relações capitalistas que estão no cerne da crise atual. No entanto, se a onda atual de levantes ilustra algo, é que muitos jovens vivenciam as crises de nosso tempo em termos explicitamente geracionais.”
Não surpreendentemente, muitos pensadores da esquerda têm demonstrado desconfiança em relação ao discurso geracional. Comentando sobre os levantes da Geração Z do ano passado, Vincent Bevins argumenta: “Por mais de um século, foram os jovens os mais propensos a ir às ruas e correr riscos. Afirmar que um levante será ‘liderado pela Geração Z’ equivale a pouco mais do que dizer que isso acontecerá em 2025… Acho que a estrutura geracional é um sintoma de pobreza intelectual.” Na mesma linha, Adolph Reed Jr. alerta:
A perspectiva geracional é um produto de institutos de pesquisa e consultores que oferecem um serviço político alternativo à organização de bases eleitorais sólidas em torno de questões, programas e visão política — a abordagem pela qual os movimentos políticos de fato se consolidam. Essa estratégia jamais nos ajudará a avançar em uma agenda amplamente igualitária.
A ruptura geracional do capitalismo
Bevins, Reed e muitos outros têm razão ao criticar a superficialidade das estruturas liberais baseadas em gerações. Falar de divisões geracionais muitas vezes obscurece as relações capitalistas que estão no cerne da crise atual: o capitalismo e seu sistema de classes e domínio de mercado. No entanto, se a atual onda de levantes ilustra algo, é que muitos jovens vivenciam as crises de nosso tempo em termos explicitamente geracionais.
Globalmente, mais de dois bilhões de pessoas pertencem à Geração Z, ou seja, aqueles nascidos entre 1997 e 2012, tornando-a a maior geração de todos os tempos. Somada à igualmente numerosa Geração Alfa, ela representa quase metade da população mundial. O capitalismo tem enfrentado dificuldades para integrar essa nova e enorme geração de trabalhadores a uma economia global em declínio. Nove em cada dez jovens trabalhadores em países de baixa e média-baixa renda (que abrigam a maioria da população da Geração Z) estão empregados na informalidade e sem proteção. O desemprego juvenil também tem aumentado. A guerra de agressão entre os EUA e Israel contra o Irã apenas exacerbou essa situação, elevando a inflação e causando escassez global de petróleo, gás, fertilizantes e produtos petroquímicos.
Enquanto os protestos da Geração Z no Sul Global se concentraram principalmente em reivindicações anticorrupção, os protestos na Europa centraram-se na austeridade e na crise do custo de vida. Ambas as questões dizem respeito a estratégias-chave empregadas pela classe dominante em resposta ao aprofundamento da crise estrutural da economia global: por um lado, a fusão do poder político e econômico e a emergência de um novo capitalismo de Estado, que levou a novas formas de especulação e corrupção; por outro lado, o desmantelamento do Estado de bem-estar social e a expansão do capitalismo rentista no núcleo imperial.
Outros temas comuns nos protestos da Geração Z incluem o aumento dos aluguéis, o alistamento militar obrigatório, as mudanças climáticas e a ansiedade em relação aos impactos da inteligência artificial — todos sintomas da crise do capitalismo que afetam desproporcionalmente os jovens. Nesse sentido, a crise atual tem uma dimensão claramente geracional. Como argumenta o teórico político e historiador Timothy Mitchell em seu novo livro, The alibi of capital [O álibi do capital], isso não é por acaso. Segundo Mitchell, a injustiça intergeracional é uma característica fundamental do capitalismo, “uma forma de vida construída sobre a destruição dos meios de subsistência do futuro”.
“Muitos manifestantes da Geração Z reconhecem a interação entre classe e geração. Um elemento definidor das recentes revoltas tem sido o ódio de classe contra os ‘nepo babies’.”
Como argumenta o economista político Keir Milburn em seu livro Generation left [Geração esquerda], a experiência compartilhada de eventos históricos como pandemias ou crises financeiras pode forjar o que ele chama de “gerações políticas” — unidades geracionais que se unem em torno de uma interpretação compartilhada dos eventos presenciados, bem como de uma resposta coletiva a eles. Milburn observa que nem todos se tornam automaticamente parte da mesma “geração política”. Dentro de uma determinada faixa etária, pode haver respostas diferentes à mesma conjuntura, o que formaria diferentes “unidades geracionais”. É importante ressaltar que isso abre espaço para considerar diferentes posições e interesses de classe que existem mesmo dentro da mesma faixa etária, e que devem permanecer centrais para qualquer compreensão de como o capitalismo opera.
Muitos manifestantes da Geração Z reconhecem essa interação entre classe e geração. Um elemento definidor das recentes revoltas tem sido o ódio de classe contra os “nepo babies”, os filhos de políticos e outras elites que ostentam sua riqueza online. No Nepal, fotos que viralizaram do filho de um ministro provincial exibindo uma enorme pilha de caixas de presentes de marcas de luxo como Louis Vuitton, Gucci e Cartier inflamaram a indignação popular. Nas Filipinas, internautas começaram a realizar as chamadas “verificações de estilo de vida” no Reddit, analisando os hábitos de consumo de políticos populares e seus familiares à luz de sua renda declarada. Na Alemanha, estudantes do ensino médio em greve contra o alistamento militar obrigatório adotaram o lema “Os ricos querem guerra — os jovens, um futuro”.
Aproveitando o momento
Não são apenas a revista The Economist e seus seguidores que estão perplexos com tais explosões de raiva geracional. A reação da classe dominante em geral revela uma completa falta de conhecimento econômico e imaginação política. Enquanto políticos como o primeiro-ministro húngaro Péter Magyar, o polonês Donald Tusk e Donald Trump ecoam os argumentos da extrema direita, culpando a imigração em massa pelos distúrbios, legisladores da União Europeia agora investigam o suposto papel da interferência estrangeira russa, argelina e iraniana. Retórica semelhante pode ser observada na Índia, onde o governo de Narendra Modi tentou retratar os protestos da Geração Z como financiados por estrangeiros. Enquanto isso, reportagens liberais frequentemente se concentram no papel das mídias sociais e em várias referências da cultura pop nos protestos, desde as bandeiras de piratas com chapéus de palha do popular anime japonês One Piece até a saudação de três dedos inspirada em Jogos Vorazes.
No entanto, se há algo de novo nesta onda de protestos, não é a ocorrência de manifestações de massa sem liderança, violência política ou o uso das redes sociais como ferramenta de mobilização (a década de 2010 oferece amplo material para estudar qualquer um desses temas), mas sim a extensão em que a geração foi globalizada como identidade política. De alguma forma, grupos tão diversos quanto jovens guerrilheiros birmaneses, entregadores indonésios e estudantes franceses do ensino médio passaram a se considerar parte de um sujeito político chamado “Geração Z”, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.
Embora plataformas de mídia social como Discord e TikTok tenham ajudado a disseminar discursos geracionais originários dos Estados Unidos, a facilidade com que se popularizaram só pode ser explicada em relação aos desafios políticos e econômicos fundamentais enfrentados pelos jovens em todo o mundo: precariedade econômica, colapso ecológico e escalada da violência imperialista. A classe dominante teme o socialismo da Geração Z porque não tem resposta para esses desafios.
Os socialistas estão atentos. Na França, o partido de Jean-Luc Mélenchon, França Isubmissa, declarou seu apoio à revolta juvenil. Vídeos de Bally Bagayoko, prefeito de Saint-Denis pelo mesmo partido, protegendo estudantes manifestantes da polícia antimotim viralizaram no mundo todo. Na Índia, os sindicatos estudantis comunistas têm sido parte integrante das mobilizações das Baratas desde os primórdios do movimento. Esse envolvimento inicial agora está dando frutos, com Neha Bora, a eloquente e desafiadora presidente da Associação de Estudantes de Toda a Índia (AISA), de orientação marxista-leninista, tornando-se o rosto da mais recente onda de mobilizações. Quem sabe qual será o próximo país?
Elias Koenig
é um estudante de pós-graduação na Universidade de Twente envolvido na organização da paz e da solidariedade dos trabalhadores migrantes.