Em 24 de agosto de 1954, o Brasil foi sacudido por uma tragédia que reverberaria por décadas. Naquela madrugada, o presidente Getúlio Vargas, cercado por uma crise política insustentável e pressões insuportáveis, tirou a própria vida no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então sede da Presidência da República. Seu suicídio foi o ato final de uma trajetória que transformou profundamente o Brasil e que ainda hoje suscita debates acalorados sobre seu legado e o destino da nação.
“Amigo ouvinte, aqui fala o Repórter Esso – testemunha ocular da história: E atenção: acaba de suicidar-se, em seus aposentos no Palácio do Catete, o presidente Getúlio Vargas.”
(Heron Domingues – Repórter Esso)
Em 24 de agosto de 1954, o Brasil foi sacudido por uma tragédia que reverberaria por décadas. Naquela madrugada, o presidente Getúlio Vargas, cercado por uma crise política insustentável e pressões insuportáveis, tirou a própria vida no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então sede da Presidência da República.
Seu suicídio foi o ato final de uma trajetória que transformou profundamente o Brasil e que ainda hoje suscita debates acalorados sobre seu legado e o destino da nação. Ao longo dos anos de seu governo, Vargas transformou o Brasil, iniciando um processo de industrialização que mudaria para sempre a estrutura econômica e social do país.

Em 1955, um ano após sua morte, a produção industrial já representava 30% do PIB, um salto significativo em relação aos 10% de 1930. Ele também consolidou direitos trabalhistas que se tornariam pilares da legislação brasileira. A Consolidação das Leis do Trabalho, sancionada em 1943, foi um marco na proteção dos direitos dos trabalhadores. No entanto, a trajetória de Vargas não foi isenta de controvérsias.
Entre 1937 e 1945, ele governou o Brasil sob uma ditadura conhecida como Estado Novo, período marcado por forte repressão aos movimentos comunistas e pela centralização do poder.

A conspiração golpista e o suicídio
O projeto desenvolvimentista empreendido por Vargas encontrava forte resistência em uma parcela considerável da burguesia tradicional, tributária das antigas oligarquias, que encampava a defesa de um programa econômico liberal, baseado no modelo agroexportador e na submissão ao capital estrangeiro.
Aliando-se aos grupamentos civis reacionários e setores conservadores dos militares, a burguesia oligárquica iniciou uma oposição cerrada ao chamado “populismo getulista”. Os impérios midiáticos de Assis Chateaubriand e Roberto Marinho, que controlavam as principais emissoras de rádio e os jornais e revistas de maior circulação, lançaram uma encarniçada campanha antigovernamental.

Como ponta de lança da ofensiva contra Vargas, estava Carlos Lacerda, proprietário do jornal Tribuna da Imprensa e dirigente da União Democrática Nacional (UDN). Lacerda insuflou o golpismo explícito contra Vargas, bombardeando diariamente o governo com críticas e acusações e conclamando os setores conservadores a depor o mandatário.
Em 5 de agosto de 1954, Lacerda foi ferido durante o Atentado da Rua Tonelero, no Rio de Janeiro, quando voltava de uma palestra no Colégio São José. O major da Aeronáutica Rubens Vaz faleceu durante o ataque. Lacerda imediatamente responsabilizou Vargas pelo atentado.
A pressão midiática e a comoção com a morte do major obrigaram o governo a instaurar um inquérito para investigar o ocorrido. As investigações terminariam por apontar o envolvimento de membros da guarda presidencial no atentado, dando aos setores antigovernistas uma justificativa plausível para depor Vargas.
Em 22 de agosto, um grupo de oficiais do Exército Brasileiro, incluindo Castelo Branco, Juarez Távora e Henrique Lott, subscreveu o Manifesto dos Generais, exigindo a renúncia de Vargas. Pouco tempo depois, Vargas foi informado de que os comandantes das três armas também exigiriam sua renúncia.

Encurralado, Vargas cumpriu a promessa que havia feito aos seus apoiadores dias antes, quando disse que só sairia morto do Palácio do Catete. Por volta das oito horas da manhã do dia 24 de agosto de 1954, suicidou-se em seu quarto com um tiro no peito.
Vargas deixou sobre a mesa de cabeceira um envelope com uma carta-testamento — um manifesto político em que buscava revestir seu gesto com um significado cívico, de reação à campanha de grupos nacionais e internacionais para impedir o avanço do projeto desenvolvimentista:
“Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida”, dizia a carta, concluindo a seguir: “Serenamente dou o meu primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar para a história.”

A reação popular
A notícia sobre o suicídio de Vargas chocou o país. Comovida e revoltada, a população saiu às ruas aos gritos de “mataram Getúlio” para expressar sua indignação com os responsáveis por mover a campanha antigovernista. Armados com paus e pedras, populares atacaram as sedes dos partidos de oposição, sobretudo da UDN, bem como as redações dos jornais e os quartéis alinhados ao udenismo.
Caçado pelas ruas do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda quase foi linchado pelos populares. Ele conseguiu escapar se refugiando na embaixada dos Estados Unidos. A população atacou então a embaixada, obrigando Lacerda a fugir em um helicóptero que o levou para o cruzador Barroso, ancorado na Baía de Guanabara.
Multidões atacaram veículos dos jornais que haviam liderado a campanha contra o presidente. Caminhões de distribuição de “O Globo” e da “Tribuna da Imprensa” foram incendiados. A intensidade da reação foi tamanha que quase toda a imprensa carioca deixou de circular no dia, com exceção do “Última Hora”, o jornal de Samuel Wainer, um dos únicos veículos identificados com o governo Vargas. Sedes de empresas norte-americanas como a Standard Oil, a Companhia Telefônica e a Helena Rubinstein foram apedrejadas.
Os protestos se espalharam pelo país ao longo do dia 25 de agosto. Em São Paulo, trabalhadores anunciaram greve, ameaçando paralisar os comércios e as fábricas. Uma grande marcha foi organizada pelos sindicatos dos trabalhadores metalúrgicos e da indústria têxtil e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) convocou seus militantes para um comício na Praça da Sé.
Multidões atacaram veículos dos jornais que haviam liderado a campanha contra o presidente. Caminhões de distribuição de “O Globo” e da “Tribuna da Imprensa” foram incendiados. A intensidade da reação foi tamanha que quase toda a imprensa carioca deixou de circular no dia, com exceção do “Última Hora”, o jornal de Samuel Wainer, um dos únicos veículos identificados com o governo Vargas. Sedes de empresas norte-americanas como a Standard Oil, a Companhia Telefônica e a Helena Rubinstein foram apedrejadas.
Os protestos se espalharam pelo país ao longo do dia 25 de agosto. Em São Paulo, trabalhadores anunciaram greve, ameaçando paralisar os comércios e as fábricas. Uma grande marcha foi organizada pelos sindicatos dos trabalhadores metalúrgicos e da indústria têxtil e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) convocou seus militantes para um comício na Praça da Sé.

Carta Testamento
Getúlio Vargas
Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam
sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa.
Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como
sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e
financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e
instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A
campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o
regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça
da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na
potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de
agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja
livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que
destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas
declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de
dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu
preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo
suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora
se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o
sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao
vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e
vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício
vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama
imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o
perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me
liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu
sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a
espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as
infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte.
Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na
História.
(Rio de Janeiro, 23/08/54 – Getúlio Vargas)
Com Agência Senado, Opera Mundi e agências – Fotos: Arquivo Nacional