O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou nesta quarta-feira (5), último dia do prazo para convenções partidárias, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como seu candidato a vice-presidente na disputa ao Palácio do Planalto. A escolha consolida uma chapa “pura” do PL, sem coligação com outros partidos — mas chega cercada por uma grave acusação criminal contra o próprio vice escolhido, hoje parada no STF à espera de manifestação da Procuradoria-Geral da República.

A acusação: notícia-crime por estupro de vulnerável

Em 27 de março deste ano, em meio à leitura do relatório final da CPMI do INSS — da qual Alfredo Gaspar era relator —, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) protocolaram uma notícia-crime na Polícia Federal atribuindo a Gaspar a prática de estupro de vulnerável contra uma adolescente de 13 anos.

Segundo os dois parlamentares, o episódio teria resultado em gravidez e no nascimento de uma criança hoje com cerca de oito anos, e a avó da adolescente teria sido registrada como mãe da criança para ocultar a identidade da vítima. Os denunciantes também alegaram que um intermediário teria oferecido dinheiro à família para garantir silêncio sobre o caso.

A Polícia Federal, por deter Gaspar foro privilegiado como deputado federal, pediu ao STF autorização para investigar formalmente as acusações — pedido que está sob relatoria do ministro Gilmar Mendes e segue pendente de manifestação da PGR antes de qualquer decisão sobre abertura de inquérito.

A defesa do deputado

Alfredo Gaspar nega qualquer conduta criminosa. No dia seguinte à denúncia, divulgou um vídeo com uma mulher que afirmou não ser sua filha, e apresentou um exame de DNA realizado pela Polícia Científica de Alagoas para sustentar a negativa de paternidade. Segundo sua versão, a jovem mencionada seria filha de um primo dele, fruto de uma relação consensual.

Soraya Thronicke, porém, contestou publicamente essa defesa, afirmando que a mulher apresentada no vídeo teria cerca de 21 anos, enquanto a criança citada na denúncia original teria apenas oito — uma incompatibilidade que, segundo a senadora, invalidaria a versão apresentada pelo deputado. Gaspar, por sua vez, classificou as acusações como “infâmia” e “denunciação caluniosa”, e apresentou representações contra Lindbergh e Soraya na PF, na PGR e queixa-crime no STF, pedindo a cassação e prisão dos dois.

A denúncia surgiu em meio a um confronto direto dentro da própria CPMI do INSS: Gaspar defendia o indiciamento de mais de 220 investigados na comissão, entre eles Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula — pauta que acabou rejeitada por articulação da base governista. Segundo o próprio deputado, a acusação de estupro teria sido usada como “cortina de fumaça” para impedir a leitura do relatório e o pedido de indiciamento do filho do presidente.

Uma segunda frente de investigação: emendas de R$ 6 milhões

Além da acusação criminal, Gaspar também é investigado por supostas irregularidades envolvendo repasses de emendas Pix no valor de R$ 6 milhões destinados a um município de Alagoas — caso que já rendeu críticas públicas de adversários políticos, incluindo o deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP), que classificou a aliança entre Flávio e Gaspar como “o casamento da rachadinha com o orçamento secreto”.

Quem é Alfredo Gaspar

Advogado com 24 anos de carreira no Ministério Público de Alagoas, onde chegou a procurador-geral de Justiça, Gaspar também ocupou as secretarias estadual de Defesa Social e de Segurança Pública antes de se eleger deputado federal em 2022. Ao anunciá-lo, Flávio Bolsonaro destacou justamente essa trajetória na segurança pública e a representatividade nordestina do parlamentar, chamando-o de “soldado do Nordeste” — mesma região onde a candidatura presidencial do PL busca ampliar competitividade diante da força histórica de Lula.

A escolha de um vice sob investigação por um crime dessa gravidade, ainda que sem condenação e com a defesa contestando as provas, tende a se tornar munição imediata para adversários na corrida presidencial — especialmente num momento em que a campanha de Flávio já enfrenta desgaste em outras frentes, da crise com Michelle Bolsonaro ao noticiário sobre o tarifaço americano. O caso segue, por ora, na fase de apuração preliminar no STF, sem prazo definido para uma decisão sobre a abertura de inquérito formal.