Comprada por 2,8 bilhões de dólares, mineradora amplia exportação para os EUA, que busca reduzir dependência da China

Por Isabel Seta, Agência Pública

No norte de Goiás, a mais de 300 quilômetros de distância de Brasília, uma sinuosa estrada de terra parte de uma rodovia estadual e atravessa morros de cerrado ainda preservados para chegar numa área que abriga um negócio bilionário. Ali, em cerca de 50 quilômetros quadrados, são extraídas as principais terras raras (um conjunto de elementos químicos fundamentais para várias aplicações tecnológicas) na primeira – e, por enquanto, única – operação fora da Ásia desse tipo.

A dona do negócio é a mineradora Serra Verde, criada pelo fundo americano privado Denham Capital, que acaba de ser adquirida por 2,8 bilhões de dólares (dos quais 300 milhões de dólares em dinheiro e o restante em ações) pela também americana USA Rare Earth, no que foi classificado por um especialista do setor à reportagem como a maior fusão e aquisição na história da indústria de terras raras.

O objetivo declarado da compra é criar uma empresa multinacional para liderar toda a cadeia produtiva: da extração das terras raras, passando pelas etapas de separação e processamento desses elementos, até a fabricação dos superímãs hoje usados em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, caças militares e mísseis.


Imagem aérea mostra a planta da mineradora Serra Verde
Também declarada é a intenção de reduzir a dependência das indústrias dos Estados Unidos (EUA) e europeias em relação à China, país que hoje concentra todas essas etapas – respondendo por quase 80% da extração de terras raras, 89% da separação e mais de 90% da produção de superímãs – e que, no ano passado, provocou choques em várias cadeias industriais globais ao restringir as exportações desses elementos em resposta às ameaças tarifárias do presidente americano Donald Trump.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que esse movimento já está influenciando as exportações da Serra Verde. Ao longo de 2025, Minaçu exportou quase 678 toneladas de terras raras para a China e apenas 51 kg para os Estados Unidos. Já este ano, o município ainda não exportou para a China, mas, em fevereiro, enviou 2 toneladas para os EUA.

“O setor de terras raras do Ocidente está em um ponto de inflexão crítico, conforme governos e indústrias estratégicas buscam urgentemente fontes confiáveis das terras raras críticas”, afirmou Thras Moraitis, CEO do grupo Serra Verde, no anúncio da aquisição nesta segunda-feira, 20 de abril.

“Unir forças com a USA Rare Earth acelera a realização da nossa visão compartilhada: estabelecer uma cadeia de suprimentos global de terras raras segura e diversificada. (…) Juntos, acreditamos que a empresa combinada vai entregar uma solução totalmente integrada de terras raras em escala, acelerar o crescimento e criar valor aprimorado para acionistas, clientes, funcionários, comunidades locais e governos do Brasil, dos Estados Unidos e de nossos aliados”, completou ele.

POR QUE ISSO IMPORTA?
A demanda por minerais críticos, como as terras raras, usados na fabricação de turbinas eólicas, paineis solares e veículos elétricos, deve triplicar até 2040.
A empresa combinada terá Moraitis como CEO e outros estrangeiros nos principais cargos de comando, além de operações no Reino Unido e na França. Já a operação no Brasil será liderada pelo brasileiro Ricardo Grossi, hoje presidente da Serra Verde. A mineradora também anunciou que firmou um contrato de fornecimento de 15 anos, que abrange 100% da produção, para uma “Empresa de Propósito Específico” não nomeada, capitalizada por agências do governo americano e fontes privadas.