A consultoria de risco político Eurasia Group elevou de 55% para 60% a probabilidade de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em outubro, segundo avaliação repercutida pela revista Exame nesta quinta-feira (10). É a segunda revisão para cima da consultoria em pouco mais de um mês, movimento que consolida a leitura predominante entre analistas de risco internacionais: a de que Lula chega à disputa presidencial na condição de favorito, ainda que não com vitória garantida.
Recuperação da aprovação
O detalhe mais relevante da revisão está na explicação que a própria Eurasia dá para ela — e que contraria a narrativa que boa parte da oposição vinha tentando construir nos últimos dois meses. Segundo a consultoria, o salto de 55% para 60% foi puxado principalmente pela recuperação dos índices de aprovação do governo e pela redução dos riscos de inflação de alimentos ligados à guerra no Oriente Médio — não pelo desgaste de imagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, em meio ao escândalo do Banco Master, cujo financiamento bilionário ao filme “Dark Horse” já rendeu semanas de exposição negativa ao senador.
Esse ponto é relevante porque desmonta uma leitura simplista do momento: não é que Lula esteja subindo simplesmente porque o adversário está afundando. Pelo contrário — a consultoria já havia registrado, ainda em maio, que o impacto do vazamento de áudios entre Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro tendia a ser passageiro, precisamente por avaliar que danos de imagem sem repercussão eleitoral direta costumam se dissipar ao longo de uma campanha longa. O que sustenta o novo número, portanto, é o desempenho do próprio governo — reforma do Imposto de Renda, arrefecimento da inflação de alimentos e a vantagem estrutural que todo presidente em exercício carrega — mais do que qualquer tropeço específico da oposição.
Um “favorito”, mas não “vencedor certo”
O diretor da Eurasia para as Américas, Christopher Garman, já vem repetindo há meses o mesmo recado, e a nova revisão não muda essa moldura: presidentes que chegam ao período eleitoral com aprovação na faixa em que Lula se encontra hoje tendem, historicamente, a se sair bem nas urnas — mas isso está longe de ser garantia. Em avaliações anteriores, Garman chegou a resumir o cenário eleitoral brasileiro como “50%-50%, com viés Lula”, e apontou a segurança pública como o principal ponto vulnerável do governo, capaz de manter qualquer candidato de oposição competitivo até o fim da corrida.
A própria Eurasia também já havia calculado, em maio, uma probabilidade de 30% de que um nome de direita diferente de Flávio — como o governador goiano Ronaldo Caiado (PSD) — surpreenda e chegue ao segundo turno no lugar do senador carioca, o que reforça que a consultoria não trata a disputa entre Lula e Flávio como um duelo fechado e definitivo, mas como um cenário ainda sujeito a reconfigurações no campo oposicionista.
A falácia do discurso de “governo acabado”
A revisão de hoje chega num momento em que o desgaste do adversário direto de Lula parece, de fato, crescer — mas por méritos próprios de Flávio, não por decisão automática do mercado. Apenas nesta semana, o senador colecionou críticas até de veículos e entidades historicamente afinados com pautas liberais, por sua atuação em Washington na audiência sobre o tarifaço americano, quando admitiu publicamente que sua maior preocupação era o calendário eleitoral brasileiro. Esse tipo de episódio ilustra por que a Eurasia trata a corrida presidencial como estruturalmente competitiva, mesmo com o viés favorável a Lula: o resultado de outubro ainda depende de como o campo de oposição vai lidar com seus próprios problemas — que, cada vez mais, parecem ser autoinfligidos.
Análise
A elevação para 60% anunciada pela Eurasia é, em certo sentido, um retrato da-que-se-chama de política do possível: não tanto o resultado de uma epifania popular em torno de um programa transformador, mas o efeito cumulativo de uma combinação de governabilidade relativa, políticas redistributivas pontuais e o colapso do projeto alternativo da direita. Para a oposição, o golpe é duplo: perde-se não só a narrativa de inviabilidade do governo, mas também a capacidade prática de construir uma frente credível que dialogue com a maioria materialmente afetada pelas decisões do dia a dia. Consultorias como a Eurasia leem risco pelo prisma dos mercados e da estabilidade institucional — e nesse tabuleiro Lula tem demonstrado capacidade de manter uma coalizão minimamente funcional e medidas que amenizam a pressão imediata sobre as camadas populares.
Do ponto de vista teórico, é impossível não remeter a Gramsci: o que está em jogo é uma disputa hegemônica. O lulismo, ainda que limitado e frequentemente conciliador com o capital, tem conseguido costurar um consenso fragmentado — uma hegemonia limitada — que combina programas sociais capazes de produzir consentimento, com um discurso que remete à justiça social. Marx nos lembraria que essas condições materiais (emprego, renda, acesso a serviços) moldam a consciência social; quando o cotidiano melhora, ainda que modestamente, a agitação por rupturas radicais se dilui. Isso não significa que se tenha vencido a luta de classes — apenas que o campo da disputa mudou de tática.
É preciso, porém, ficar atento: probabilidades publicadas por consultorias não são profecias; são leituras contingentes que podem produzir efeitos de retroalimentação. E há um risco real de complacência na esquerda: crer que 60% equivale a licença para abandonar a transformação estrutural. A coalizão que sustenta Lula é forjada em compromissos com setores que não têm interesse em mexer nas bases da desigualdade brasileira. Sem uma ofensiva política e cultural — organicamente gramsciana — que forme intelectuais e quadros nos territórios e nas lutas do cotidiano, qualquer avanço pode ser revertido ou neutralizado.
Portanto, mais relevante do que comemorar a previsão é aproveitar esse terreno relativo de estabilidade para aprofundar reformas sociais e democráticas que confrontem de fato a concentração de renda e poder. A eleição é uma etapa, não o fim da estratégia. Se quisermos que 60% se transformem em políticas que reconfigurem a estrutura social, precisamos de projeto, organização e coragem para enfrentar a resistência das forças que lucram com a desigualdade.
Fonte: O Cafezinho