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12 meses atrás

EUA acima de tudo, imperialismo acima de todos

Como pastores evangélicos disseminaram uma religião estadunidense nas últimas décadas e penetraram nas famílias, escolas, mídia, empresariado, partidos e governos brasileiro?

Historicamente um país católico, o Brasil ruma para se tornar majoritariamente evangélico na próxima década segundo algumas projeções. Longe de ser resultado de uma ampliação orgânica de denominações neopentecostais e congêneres na sociedade brasileira, esse processo é marcado pelo avanço e consolidação do poder econômico e político de suas lideranças, bem pelo o engajamento aberto na agenda da extrema direita.

 

 

Em meio a este conturbado período histórico em que vivemos, a população evangélica se torna um importante grupo a ser conquistado no âmbito da política, ao mesmo tempo em que também se configura como um elefante na sala para a esquerda. As possibilidades (ou não) de aproximação alimentam debates calorosos no nosso campo político, evidência de que a compreensão desse fenômeno se torna fundamental para entender os caminhos necessários para avançar na luta política e conquistar a consciência da classe trabalhadora.

 

 

No sentido de contribuir com esse debate e com a compreensão dessa ascensão neopentecostal associada ao neoliberalismo e ao reacionarismo da extrema direita, que Rodrigo Sá Netto acaba de publicar sua tese de doutorado: O Partido da Fé Capitalista: Imperialismo Religioso e Dominação de Classe no Brasil(Da Vinci Livros, 2024). Resultado de uma profunda e extensa consulta documental ao longo de 5 anos, o autor demonstra como ocorreu a instrumentalização de organizações religiosas que atuaram ao lado do Estado e do empresariado brasileiro para frear a organização popular e as lutas sociais, abrindo caminho para o ethos neoliberal e favorecer os interesses capitalistas em nosso país.


Pedro Silva

O que é, exatamente, o objeto da sua pesquisa, o Partido da Fé Capitalista?

Rodrigo de Sá Netto

O Partido da Fé Capitalista é um consórcio ecumênico pró-Estados Unidos e pró-capitalista surgido no imediato pós-guerra e idealizado por membros do governo estadunidense em conjunto com empresários e líderes religiosos, sobretudo provenientes ou influenciados pelo movimento fundamentalista.

 

 

“Trata-se, portanto, de um programa de hegemonia, no sentido gramsciano, concebido pela classe dominante dos Estados Unidos, adotado por vastas porções da burguesia mundial e executado por intelectuais, sobretudo um tipo bem específico de intelectual, os líderes religiosos.”

 

 

Esse consórcio, que envolve não apenas igrejas, mas também empresas e intelectuais laicos, teve como primeira encarnação a Fundação para a Ação Religiosa na Ordem Civil e Social (FRASCO), organização fundada em 1954 com o propósito declarado de combater o comunismo no campo da religião e trazer religiosos do mundo todo para a órbita de influência dos Estados Unidos. Desde então, a iniciativa se reproduz em diversas outras organizações inspiradas pela mesma ideologia. Trata-se, portanto, de um programa de hegemonia, no sentido gramsciano, concebido pela classe dominante dos Estados Unidos, adotado por vastas porções da burguesia mundial e executado por intelectuais, sobretudo um tipo bem específico de intelectual, os líderes religiosos.

 

 

Atravessando toda a metade do século passado, sempre se renovando, o Partido vai se enraizar no Brasil tanto através de igrejas e órgãos missionários estrangeiros, que virão para cá com força progressiva após 1945, como a Igreja do Evangelho Quadrangular, como por via de organizações religiosas fundadas por brasileiros, mas inspiradas pela ideologia propagada por religiosos conservadores estadunidenses, como a Igreja Universal do Reino de Deus.

 

 

Esse é o objeto principal do meu livro, que tem como meta, em primeiro lugar, mostrar que essa iniciativa existe, embora venha sendo negada de forma reiterada por muitos pesquisadores, e assinalar alguns dos principais personagens e organizações que a levam adiante, bem como sua maneira de agir, ou seja: como eles fazem essa intervenção que se desdobra no plano da cultura e da política partidária por todo o mundo, sempre atendendo aos interesses do grande capital enraizado nos Estados Unidos.

 

 

Para embasar e ilustrar essas conclusões, e levando em conta a interpenetração entre os órgãos da sociedade civil voltados para a ação política e o aparelho estatal, recorri a fontes documentais produzidas por agências estatais do Brasil e dos Estados Unidos, como o SNI, a CIA e o Departamento de Estado.

 

 

PS

Você aponta que essa visão fundamentalista reacionária foi gestada em algumas denominações protestantes dos EUA no final do século XIX e que elas começaram a chegar no Brasil nos anos 1900. Contudo, começaram a ganhar força por volta da metade do século e atuar de forma politicamente incisiva no auge da Guerra Fria, nos anos 1970. Quais os contextos geopolíticos mundial, estadunidense e brasileiro que favoreceram o seu avanço à partir da década de 1970?

 

 

Rodrigo de Sá Netto

O fundamentalismo estadunidense, que é um movimento teológico e social reacionário e anticomunista, chega ao Brasil muito cedo, por via da Igreja Batista, por exemplo, que era muito próxima da Convenção Batista do Sul, um dos principais redutos fundamentalistas nos Estados Unidos, e pela instalação da Assembleia de Deus em Belém do Pará nos anos 1910. Porém, essa doutrina não tem, por aqui, um crescimento significativo até o imediato pós-guerra, quando a exportação de organizações religiosas estadunidenses passa a ser um programa prioritário da burguesia e do governo dos EUA.

 

 

Os religiosos vinculados a essas organizações se aproximarão também de membros do governo brasileiro, sobretudo após 1964, quando o crescimento da contestação política católica levou a ditadura a se aproximar de evangélicos conservadores, quase todos inimigos da Teologia da Libertação.”

 

 

A partir de então, tais organizações religiosas, diretamente fundamentalistas ou inspiradas por esse movimento, agirão politicamente também, mas dentro de suas ainda modestas possibilidades. Começam, assim, a fazer pregações junto às populações mais pobres, pregações que tiveram o efeito de afastar esses grupos de iniciativas populares de contestação política, sobretudo em função do teor pré-milenarista de sua escatologia. O que isso quer dizer? Tais grupos tinham como um pressuposto teológico a ideia de que o dia do Julgamento Final, com a volta de Jesus Cristo, estava próximo. Sendo assim, nenhuma ação humana poderia levar a um mundo mais justo, cabendo apenas esperar o grande ajuste de contas que se anunciava. Os religiosos vinculados a essas organizações se aproximarão também de membros do governo brasileiro, sobretudo após 1964, quando o crescimento da contestação política católica levou a ditadura a se aproximar de evangélicos conservadores, quase todos inimigos da Teologia da Libertação.

 

Mas nos anos 70, de fato, a participação política desse grupo se torna muito mais explícita, impulsionada pela concepção nos Estados Unidos de uma nova teologia, a Teologia do Domínio. O pai dessa teologia foi um calvinista chamado John Rushdoony, autor de As Instituições da Lei Bíblica (1973), obra que revitaliza a ideia de que caberia aos Estados Unidos a fundação de um reino divino na Terra, trazendo também as noções de que as leis do Antigo Testamento deveriam ser as bases do Estado e que todo os sistemas legais que não se assentam sobre ele são inimigos, malignos e devem ser combatidos.

 

 

A extensão desse reino é feita de duas formas: pela disseminação do evangelho e pela batalha, não apenas espiritual, como também física, contra os representantes do demônio na Terra. Aí temos o aporte da Teoria da Batalha Espiritual, concebida por Peter Wagner, outro importante pensador dominionista, introduzindo a ideia de que demônios andariam livres sobre a Terra e controlariam regiões geográficas inteiras e também sistemas culturais, sociais e políticos, sendo necessário detê-los.

 

 

“Segundo essa doutrina, as áreas preferenciais a serem tomados pelos evangélicos seriam a família, a religião, a educação, a mídia, o entretenimento, os negócios e o governo.”

 

 

 

Outro acréscimo teológico foi o chamado Dominionismo dos Sete Montes, pensado por pastores como Bill Bright, da Campus Crusade for Christ, presente no Brasil sob o nome Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo. Segundo essa doutrina, as áreas preferenciais a serem tomados pelos evangélicos seriam a família, a religião, a educação, a mídia, o entretenimento, os negócios e o governo.

 

 

Nos Estados Unidos, alguns dos principais divulgadores do dominionismo foram os pastores Jerry Falwell (batista) e Pat Robertson (carismático) – líderes, respectivamente, de dois grandes grupos pertencentes à nova direita partidária naquele país, a Moral Majority e a Christian Coalition. Outro grande centro difusor do dominionismo nos EUA foi a John Birch Society (1958), grupo de pressão política de extrema direita frequentado por grandes empresários como o magnata do petróleo Nelson Bunker Hunt, sobretudo por via do pastor batista Tim LaHaye, fundador, em 1981, de outro grupo de extrema direita, o Council for National Policy.

 

 

“Relaciono a maior partidarização religiosa, em primeiro lugar, com a consolidação de um novo tipo de imperialismo, calcado na pressão dos interesses urgentes de rápida valorização de um capitalismo plenamente mundializado, o capital-imperialismo.”

 

 

Agora, o surgimento dessa teologia é a parte mais visível do processo. Mas o que deu força ao dominionismo na década de 70? Acredito que foram mudanças no plano social e, sobretudo, no econômico. Assim, relaciono a maior partidarização religiosa, em primeiro lugar, com a consolidação de um novo tipo de imperialismo, calcado na pressão dos interesses urgentes de rápida valorização de um capitalismo plenamente mundializado, o capital-imperialismo, como bem desenvolveu a historiadora Virgínia Fontes, demandando um reforço nas ações voltadas para o consenso social.

 

Em segundo lugar, acredito que esse reforço se remete também à crise econômica mundial dos anos 70, puxada pelo choque do petróleo, e aos movimentos populares de contestação que surgem em várias partes do mundo nas décadas de 60 e 70, como as convulsões populares contra a ditadura brasileira, por exemplo, e, nos Estados Unidos, os movimentos contra a guerra do Vietnã, o feminismo (que, é claro, não floresceu apenas ali) e os movimentos em prol dos direitos civis da população negra.

 

 

Por fim, acredito que o fenômeno foi impulsionado também por um maior consenso em torno do liberalismo ortodoxo entre a burguesia estadunidense, temporariamente deixado de lado nos anos 40 e 50 diante da necessidade de reconstruir o mundo capitalista e enfrentar a atração das populações empobrecidas pelo bloco socialista.

 

 

Nesse contexto, conectadas às grandes corporações multinacionais, as organizações cristãs estadunidenses em ação global passam a somar à sua antiga militância anticomunista uma maior defesa da liberalização econômica e da redução do aparelho estatal. Fazem isso dissimuladamente, relacionando uma alegada decadência moral e religiosa com problemas originados sobretudo na exploração do trabalho, como a degradação das relações familiares e pessoais, assim camuflando as causas reais desses males, ou levantando bandeiras religiosas para reduzir a presença do Estado na educação e na saúde, como nos Estados Unidos. Demandam então a extinção das escolas públicas, onde livros religiosos e orações são proibidas, e movem campanhas contra o aborto, para brecar propostas de maior participação estatal na saúde, que incluem a prestação de serviços abortivos em circunstâncias especiais.

 

 

No Brasil, o dominionismo chega através de livros, programas de televisão e rádio e por pastores estrangeiros e brasileiros em contato com eles nos EUA, como Edir Macedo, que ali viveu por muitos anos. A nova teologia passa a se infiltrar, então, por diversas denominações religiosas, sobretudo as evangélicas, mas até entre católicos, divulgada especialmente pela Igreja Universal do Reino de Deus e por pessoas ligadas à Aliança Bíblica Universitária (ABU), órgão missionário estadunidense com presença no Brasil desde 1958.

 

 

Já nos dias de hoje, o dominionismo no Brasil desponta não apenas na pujança e ousadia da nossa bancada evangélica, que atenta despudoradamente contra a laicidade do Estado, mas também no apoio de igrejas embaladas por essa doutrina, como a Igreja Internacional da Graça de Deus e a Igreja Internacional do Poder de Deus, além de setores da Assembleia de Deus, que serviu de base ao governo ultraliberal e com toques teocráticos de Jair Bolsonaro. Impossível esquecer de Bolsonaro ajoelhado diante de Edir Macedo no Templo de Salomão, da ministra fundamentalista Damares Alves, liderança da pentecostal Igreja do Evangelho Quadrangular, e da presença dos principais líderes dessas congregações, como Valdemiro Santiago e Silas Malafaia, em eventos públicos com Bolsonaro.

 

 

Princípios dominionistas foram expressos frequentemente pelo próprio ex-presidente e sua esposa, como a retórica maniqueísta, a ideia de que seu governo foi escolhido por Deus e a ideia da religião como a base do Estado, consolidada no slogan “Deus acima de todos”.

 

 

PS

Como, mesmo nascendo com um apelo à população negra estadunidense (inclusive com elementos de ritos religiosos africanos), o pentecostalismo acabou associado à supremacia branca e à política externa dos EUA na Guerra Fria?

 

 

RSN

Em grande parte, o problema se remete à origem dual do movimento, que teve uma perna em Los Angeles, capitaneado por Joseph Seymor, pastor negro, responsável por agregar a ele seus elementos africanos, e outra no Kansas, representado pelo pastor branco Charles Fox Parham, introdutor da ideia de que a primeira manifestação do batismo no Espírito Santo seria a habilidade de falar em outras línguas, que também é basilar no culto pentecostal.

 

“É justamente a porção pentecostal mais conservadora e influenciada pelo movimento fundamentalista, a dos brancos, que tem maior participação nas iniciativas estadunidenses de estender sua hegemonia pelo mundo instrumentalizando a religião.”

 

 

Conforme um autor a quem eu me refiro muito no livro, Martin Dreher, contribuíram para a cisão do movimento as pressões e o preconceito de outras igrejas mais antigas. Cedendo a essas pressões, as porções brancas, já em 1908, e passam a se organizar em igrejas próprias, novamente conforme Dreher, “adaptadas às leis raciais do Sul dos Estados Unidos”. Outro estudioso, Paul Freston, diz que essa divisão ocorreu bem rápido, no espaço de dez anos, e que o seu marco inicial foi a saída de pastores brancos da Church of God in Christ, predominantemente negra, para fundar a Assembleia de Deus. Esse cisma é visto de maneira semelhante inclusive por um intelectual vinculado à Assembleia de Deus, Gary B. McGee, que diz que enquanto os pentecostais brancos se concentraram nos ensinamentos de Parham, que segundo Dreher foi inclusive um simpatizante da Ku Klux Klan, o pentecostalismo negro, que existe até hoje nos EUA, se organizou ao redor da herança de Joseph Seymour.

 

 

Acontece que é justamente a porção pentecostal mais conservadora e influenciada pelo movimento fundamentalista, a dos brancos, que tem maior participação nas iniciativas estadunidenses de estender sua hegemonia pelo mundo instrumentalizando a religião. A Assembleia de Deus é o melhor exemplo de Igreja pentecostal branca, muito associada ao fundamentalismo nos Estados Unidos. Não por acaso, portanto, ela é a maior Igreja pentecostal em países de capitalismo periférico como o Brasil. Para se ter uma ideia, a Assembleia chega a ter mais seguidores no Brasil que nos Estados Unidos.

 

 

PS

Sim, inclusive, fiquei intrigado ao saber que muitas denominações possuem mais seguidores no Brasil e na América Latina do que nos EUA. A que aspectos sociais e contextos políticos mais específicos das sociedades latino-americanas você atribui o sucesso dessas igrejas?

 

 

RSN

Sim, as denominações pentecostais, que formam o ramo evangélico que mais cresce no Brasil e em todo o mundo periférico, são maiores por aqui que nos próprios Estados Unidos. Um dado constante sobre o avanço dessas igrejas, e já há muitas pesquisas sobre isso, é que elas crescem sobretudo nas periferias das grandes cidades dos países capitalistas periféricos, ou seja, regiões desassistidas pelo Estado e conformadas de acordo com uma lógica que Milton Santos chamou de “urbanização corporativa”. Ou seja, falamos de áreas urbanas modeladas para a otimização do lucro empresarial em detrimento das estruturas voltadas para a qualidade de vida, partilhando problemas como a insuficiência do emprego e das estruturas de transporte, habitação, lazer, água, esgoto, saúde e educação. Ao mesmo tempo, os problemas originados por esse quadro, como o alcoolismo, as doenças do corpo e da mente, a degradação dos laços comunitários, por exemplo, são todos problemas que as religiões pentecostais, surgidas também entre populações pobres urbanas empobrecidas dos EUA, se dedica a amenizar, como no caso das cerimônias de cura espiritual.

 

 

Olhando especificamente para a realidade brasileira, vemos que o avanço desses grêmios pentecostais ocorre simultaneamente ao processo de industrialização do país, que ganha vigor na metade do século passado, com a decorrente formação de um vasto proletariado urbano. Então, não obstante as legítimas críticas ao furor dizimista de muitas dessas igrejas, a adesão ao culto pentecostal se mostra como uma opção viável para o tratamento dessas questões, uma vez que ele de fato ameniza problemas que são comuns à maioria dos trabalhadores. O faz ao oferecer estruturas comunitárias de apoio; ao reforçar a autoestima, dizendo outorgar os poderes protetores do espírito santo; e ao redirecionar para o espaço domiciliar recursos financeiros e energias antes dispensados no mundo dos prazeres, interditado por um estrito código comportamental.

 

 

Então há claramente uma evasão de seguidores das religiões afro-brasileiras para essas novas pentecostais, que absorvem e reinterpretam muitos elementos dessas igrejas a fim de atrair os trabalhadores antes praticantes da umbanda e do candomblé.”

 

 

 

Essa situação se aprofunda no presente, quando os males da urbanização desordenada e submetida aos desígnios corporativos ainda entregam intermináveis levas aos púlpitos evangélicos. Com o agravante de que agora tais igrejas contam, ainda, com a Teologia da Prosperidade, que projeta uma saída da própria miséria para trabalhadores depauperados.

 

 

PS

Ainda nesse sentido, gostaria que você falasse um pouco sobre o processo de apropriação de elementos dos cultos de religiões de matriz africana no sentido de estabelecer o que no livro você compara à concentração empresarial monopolística. Óbvio que, neste sentido, há o intuito de lucrar com a fé e a religiosidade populares, mas, como você mesmo evidencia, esse processo também perpassa a cooptação de formas de religiosidade que possam ter um caráter contra hegemônico. Poderíamos dizer que é o equivalente “espiritual” da luta do neoliberalismo pela destruição de qualquer projeto distinto de sociedade, no sentido do mote “Não há alternativa” posto por Margareth Thatcher nos anos 1980, enquanto se empenhava para, literalmente, destruir ou cooptar qualquer tipo de alternativa ao projeto político do capitalismo tardio? 

 

 

RSN

É exatamente isso. Se olharmos para o Brasil dos anos 70, o pentecostalismo parecia crescer ainda sem causar grandes prejuízos às religiões afro-brasileiras. Não há estatísticas oficiais do IBGE sobre a distribuição religiosa da população, mas documentos produzidos por agências estatais, como o SNI, trazem a impressão de que a umbanda e o candomblé cresciam ainda num ritmo até comparável às religiões evangélicas. Isso, entretanto, passa a mudar após os anos 80, com a chegada das novas igrejas pentecostais armadas com a Teologia do Domínio e da Prosperidade, como a IURD.

 

 

Não por acaso, também, a chegada dessa doutrina ao Brasil é simultânea ao aprofundamento da própria lógica capital-imperialista que citei anteriormente e que exige um grande reforço dos mecanismos de convencimento para garantir a crescente velocidade de valorização de um capital que percorre rapidamente todo o mundo. Então há claramente uma evasão de seguidores das religiões afro-brasileiras para essas novas pentecostais, que absorvem e reinterpretam muitos elementos dessas igrejas a fim de atrair os trabalhadores antes praticantes da umbanda e do candomblé. Ao mesmo tempo, ocorre uma neutralização dos traços populares contidos nessas religiões, com potencial contra-hegemônico, através da sua pasteurização pela ritualística pentecostal, cujos traços gerais foram delineados nos EUA respondendo a estímulos políticos, culturais e econômicos típicos daquele país, como tento mostrar no livro.

 

 

PS

Um ponto que achei especialmente interessante na sua pesquisa é a descrição mais ampla e detalhada dos grupos e denominações que pautam esse fundamentalismo cristão imbricado com o capitalismo neoliberal. Falamos majoritariamente sobre os neopentecostais, mas há um protagonismo de outras denominações também, como a renovação carismática da igreja católica, os batistas, entre outros. Por outro lado, fala-se muito sobre a teologia da libertação, que foi uma tendência católica muito forte na América Latina nas décadas de 1970-80, com uma visão mais crítica da ordem social capitalista e influências abertamente marxistas, mas você relata que também há grupos pentecostais que possuíam um apelo mais social e comunitário. Essas tendências ainda existem? Como se deu o processo de disputa dentro dessas denominações para suplantá-las pela teologia da prosperidade e a do domínio?

 

 

RSN

Os pentecostais, é claro, não são um bloco monolítico. E isso é verdade sobretudo em agremiações como a Assembleia de Deus, que, embora seja dominada por uma maioria de líderes conservadores, é uma organização relativamente descentralizada, havendo maior espaço para diferenças ideológicas entre seus praticantes. Então, o que a minha pesquisa mostra é a sobrevivência da luta de classes no interior de algumas agremiações pentecostais, de maneira mais visível, como na Assembleia, ou de forma mais pontual, como na Igreja do Evangelho Quadrangular.

 

 

O que se pode dizer com segurança, então, é que parcelas, ao que parece minoritárias, de algumas igrejas pentecostais não se identificam totalmente com o programa político-ideológico-econômico impulsionado pelo Partido da Fé Capitalista. Veremos, então, alguns membros da Assembleia de Deus atuando junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e outros pentecostais desafiando esporadicamente posições políticas assumidas por suas igrejas. Essa relação dos pentecostais, digamos assim, mais à esquerda, com os movimentos sociais, entretanto, não deixa de ser problemática. Em debates que participei com integrantes do MST, por exemplo, foi exposto que a presença desses evangélicos pode criar uma brecha para a infiltração da institucionalidade pentecostal no interior do movimento, havendo tentativas de abertura de igrejas desse tipo em assentamentos, igrejas que, ao fim e ao cabo, acabam disseminando uma ideologia que, com o tempo, se mostra destrutiva para o movimento, minando, por exemplo, suas bases anticapitalistas.

 

 

Em outras igrejas, como a Igreja Universal do Reino de Deus, que é extremamente centralizada, o espaço para contestação por parte de seus seguidores é muito menor, embora também se manifeste, como por exemplo por via das constantes defecções que a igreja sofre, às vezes seguidas de ações legais movidas por ex-membros ressentidos por promessas de prosperidade não concretizadas.

 

 

Certamente ainda há pentecostais simpáticos à esquerda. Os documentos do Estado brasileiro, contudo, não permitem afirmar que eles sejam em grande número, e a minha impressão é que não são. Da mesma forma, o processo de resistência dessas porções às teologias do Domínio e da Prosperidade é algo que foge do escopo do meu trabalho e parece ser um excelente objeto para pesquisas futuras.

 

 

PS

Na extrema direita brasileira contemporânea me parece haver uma miscelânea de grupos, inclusive religiosos. Apesar dessa hegemonia neopentecostal que se fortalece e ruma para a maioria religiosa no país, há figuras e grupos, como a Brasil Paralelo, o próprio Olavo de Carvalho, Paulo Kogos, que sustentam um aristocratismo arraigado na defesa do monarquismo e no contra-iluminismo. Contudo, me parece ser um discurso que também encontra certo apoio e ressonância no meio neopentecostal. Como você enxerga as relações e o equilíbrio de poder entre essas denominações que, apesar de terem uma agenda política comum, acabam também defendendo ideias e posições que podem ser contraditórias entre si?

 

 

RSN

Nos anos 70 nos Estados Unidos, mais ou menos por volta do governo de Jimmy Carter, ocorre um racha entre a classe dominante estadunidense. Nessa época de crise econômica e de valores nos EUA, o fundamentalismo religioso passa a migrar em massa para o espectro político que, numa democracia liberal, podemos chamar de extrema direita, encarnada naquele país cada vez mais pelo Partido Republicano.

 

 

“Nossos religiosos conservadores, acompanhando os fundamentalistas dos EUA, engrossam essas fileiras, como pudemos ver na defesa aberta que pentecostais, batistas e católicos conservadores, por exemplo, prestaram à presidência de Jair Bolsonaro.”

 

 

Se olharmos para os Estados Unidos de hoje, ainda é possível ver essa crise hegemônica, que opõe os dois partidos, o Democrata e o Republicano. Vemos atualmente as porções burguesas interessadas numa redefinição mais radical da política dentro e fora dos EUA aglutinadas ao redor do neofascista Donald Trump e seu partido, que atacam inclusive antigos instrumentos da hegemonia estadunidense, como a USAID. O amplo movimento que, no Brasil, gerou os mostrengos que você mencionou, está diretamente ligado a essa disputa. São intelectuais e aparelhos privados de hegemonia que agem como prepostos dessa fração da classe dominante estadunidense. Nossos religiosos conservadores, acompanhando os fundamentalistas dos EUA, engrossam essas fileiras, como pudemos ver na defesa aberta que pentecostais, batistas e católicos conservadores, por exemplo, prestaram à presidência de Jair Bolsonaro.

 

 

É certo que essa grande coligação conservadora, que na verdade é a face mais visível e recente daquilo que eu chamo de Partido da Fé Capitalista, pode ter, pontualmente, divergências, como no caso do catolicismo, que perde fieis rapidamente para os pentecostais, embora isso não impeça a ação de católicos conservadores ao lado da IURD, por exemplo, ou dos monarquistas, que talvez sonhem com um Brasil novamente com apenas uma religião oficial, mas acredito que há também grandes espaços de consenso, capazes de acomodar todas essas vertentes conservadoras, especificamente religiosas, como as igrejas, ou não, como o Brasil Paralelo, como o interesse no avanço de uma pauta econômica ultraliberal e o anticomunismo.

 

 

“Vejo como única alternativa para o quadro atual a democratização da religião evangélica, com a criação de grêmios descentralizados, cuidados pelas comunidades e com total liberdade administrativa e teológica.”

 

 

 

PS

Na sua opinião, o que a esquerda pode, ou deve, fazer frente a esse cenário de primazia neopentecostal que parece ser irreversível? Há a possibilidade, ou viabilidade, de disputa política por dentro das igrejas já constituídas, ou seria necessária a construção de espaços e entidades próprias?

 

 

RSN

Vejo como muito difícil a disputa de espaços dentro dessas igrejas. São organizações muito hierarquizadas e centralizadas ao redor de um pequeno número de líderes com firmes laços com o ambiente teológico e político estadunidense. É um fato, porém, que boa parte dos trabalhadores brasileiros escolheu a religião evangélica e que extrai dessa religião certo conforto, o que não pode ser desprezado. Então eu vejo como única alternativa para o quadro atual a democratização da religião evangélica, com a criação de grêmios descentralizados, cuidados pelas comunidades e com total liberdade administrativa e teológica.

 

 

Como se fazer isso, porém, diante da força da hegemonia do fundamentalismo estadunidense e em um mundo eletronicamente conectado, é algo para o qual não tenho resposta, restando apenas a certeza de que esse é um debate que merece atenção urgente do campo progressista.

Pedro Silva

é bacharel em Geografia e mestre em integração da América Latina pela Unila e apresenta o podcast Marxismo Periférico, onde se dedica ao pensamento marxista de África, Ásia e América Latina.

Rodrigo Sá Netto

é graduado em Comunicação Social e História, é mestre em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e doutor pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Trabalha como Técnico em Assuntos Culturais no Arquivo Nacional, lotado no Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (1964-1985) – Memórias Reveladas. Também pelo Arquivo Nacional, lançou os Cadernos MAPA (Memória da Administração Pública Brasileira) – A Secretaria de Estado dos Negócios do Império (1823-1891) e O Império Brasileiro e a Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça. Atualmente desenvolve pesquisas sobre o imperialismo estadunidense e suas conexões com organizações religiosas conservadoras daquele país.