Primeira edição de 2026 do Selo Crea Atitudes Transformadoras apresenta o BioLuz, iniciativa de alunos do IF Baiano nascida a partir de curiosidade de uma integrante do grupo
Ao se questionar sobre a possibilidade de gerar energia elétrica através das plantas, uma estudante do 2º ano do Ensino Médio do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano (IF Baiano), Campus Alagoinhas, teve a brilhante ideia de transformar sua curiosidade em pesquisa, na qual percebeu que sua hipótese poderia ser concretizada. Por esse motivo, em agosto passado, ela resolveu se juntar a quatro amigos de turma para conceber um projeto interdisciplinar que propõe uma revolução na iluminação sustentável, que recebeu o nome de BioLuz.
De acordo com o orientador José Honorato Ferreira Nunes, professor dos cursos técnicos integrados em Informática e Agroindústria do IF Baiano, onde também leciona no curso subsequente (técnico de nível médio) em Agroindústria, a iniciativa tem por objetivo principal “oferecer uma solução de baixo custo e alta eficiência para comunidades que enfrentam sérios desafios de iluminação pública, o que compromete a segurança e a mobilidade de moradores e estudantes.”
Honorato explica ainda que o BioLuz – atualmente em fase inicial de testes, cuja ideia é acender uma lâmpada de LED e aumentar a produção para o abastecimento em larga escala – funciona através da captação de bioeletricidade, uma forma de energia limpa gerada pela interação entre os microrganismos do solo e as raízes das plantas, ocasionando um processo de simbiose.
“Na prática, utilizamos módulos de vasos onde eletrodos de cobre e zinco são estrategicamente enterrados para captar os elétrons liberados nessas reações. Em uma etapa futura, a energia será processada por um circuito inteligente com Arduino e sensores LDR, que detectam a queda da luminosidade natural e acionam automaticamente lâmpadas LED, armazenando o excedente em baterias de baixo custo para garantir o funcionamento durante toda a noite”, elucidou.
O BioLuz foi criado para participar do programa Solve for Tomorrow Brasil, promovido pela Samsung, no qual figurou entre os 20 melhores da sua mais recente edição. A definição do tema do projeto coube à estudante Michele dos Santos, 16 anos, após estar em casa com sua mãe, que brincou sobre a possibilidade de as plantas gerarem energia. De imediato, o comentário dela despertou a curiosidade da filha que, após pesquisas, descobriu que a ideia poderia se tornar realidade.
“O professor chegou até a mim com o programa pensando em outro projeto que eu estava fazendo. Mas eu não achei que seria legal e lembrei da ideia das plantas. Escrevi o documento de inscrição em duas semanas e convidei meus amigos de turma, que toparam participar”, recordou Michele.
Encontros nas horas vagas
Os encontros dos criadores do BioLuz com o orientador acontecem às sextas-feiras. Além disso, os estudantes também aproveitam os momentos em que não estão nas aulas para corrigir e atualizar o equipamento – gestado no âmbito do curso técnico integrado em Informática e elaborado a partir de materiais coletados pelo grupo como garrafas de água sanitária, que servem como vaso, fios de cobre e zinco.
Docente do IF Baiano desde 2013, Honorato afirma que o projeto traz um conhecimento interdisciplinar enorme para os alunos. “Além dos estudos de Física e Eletrônica, eles tiveram aulas de Botânica e Biologia para aprender sobre o funcionamento do solo. Vamos fazer vídeos educacionais e cartilhas para que outras escolas possam fazer. Isso já faz com que tudo isso valha a pena”, destacou o professor, que acumula experiências em diversas modalidades e disciplinas, adquirindo a base necessária para orientar projetos como esse.
Para Michele, a ideia foi germinada a partir de alguns problemas observados no dia a dia, uma vez que a falta de iluminação diminui a sensação de segurança, aumentando o risco de acidentes, por exemplo. “Desde o início conversamos que não é sobre apenas acender uma lâmpada ou acender um LED, mas também unir a sustentabilidade, a inovação e a curiosidade científica”, justificou a estudante do IF Baiano.
Criação exigiu desafios
Honorato esclarece os principais obstáculos ao conceber a iniciativa, a começar pela própria construção da ideia. “Apesar de eu ter visto que o BioLuz era algo possível de ser desenvolvido, a busca por informações confiáveis foi bastante complexa. Grande parte do conteúdo encontrado estava em artigos estrangeiros, o que dificultou o entendimento e exigiu muito cuidado na escolha de palavras-chave para encontrar materiais que realmente contribuíssem para o projeto. Além disso, muitos exemplos e casos só começaram a aparecer após longos períodos de pesquisa, influenciados pelo próprio algoritmo das plataformas”, disse o orientador.
Ainda segundo ele, outro desafio significativo reside na gestão do tempo, uma vez que era preciso conciliar o desenvolvimento do BioLuz com as atividades escolares e compromissos pessoais da equipe. “Somado a isso, enfrentamos a barreira do conhecimento técnico: os alunos estão no segundo ano do Ensino Médio e não estudaram formalmente conceitos de eletricidade e reações de oxirredução, que são a base do projeto. Superamos essas dificuldades com muita colaboração, pesquisa extra e o apoio fundamental de colegas de diversas áreas, como Física e Química”, afirmou.
Escolhido para competição nacional
O BioLuz foi um dos 20 semifinalistas da 12ª edição do Solve for Tomorrow Brasil, competição da Samsung que busca estimular a criação de equipamentos com base na metodologia STEM – sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática – para solucionar problemas e atender às demandas da sociedade.
“O grande brilho do programa é essa curiosidade e o desenvolvimento do projeto que eles fazem e com isso geramos autonomia e protagonismo para os jovens, porque eles aprendem a aprender. Eles desenvolvem uma curiosidade e pensamento crítico que não para nessa edição, mas que seguem para o resto da vida e para os vários desafios que eles vão enfrentar ao longo do tempo”, salientou o diretor de ESG e Cidadania Corporativa da empresa para a América Latina, Helvio Kanamaru.
Acostumado a liderar projetos de pesquisa no IF Baiano, Honorato classifica seu envolvimento no BioLuz como uma experiência gratificante. Na avaliação dele, iniciativas como essa impulsionam o engajamento dos alunos que podem ter uma experiência prática daquilo que aprendem nas aulas. “Ver a motivação dos alunos em participar e em aprender é o mais importante. Eu não queria orientá-los no início, por estar envolvido com doutorado e outras atividades, mas ver o interesse deles no dia a dia me motiva e mostra o quanto a educação é transformadora”, enfatizou.
Agora em 2026, acredita o docente, existe “um novo horizonte” para que o projeto seja apresentado na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) e na Feira Agropecuária de Alagoinhas. Ademais, declarou ainda que tem avaliado a possibilidade de patentear o projeto, embora esse tipo de registro seja uma experiência nova para ele. No entanto, a iniciativa está sendo priorizada nos aspectos social e pedagógico.
“Mais do que comercializar a ideia, meu desejo é compartilhar essa experiência e garantir que o projeto seja replicado em outras escolas e por diferentes grupos de pessoas. O BioLuz foi concebido para ser uma tecnologia acessível e transformadora, focada em iluminar vidas e fortalecer a autonomia energética de comunidades vulneráveis”, finalizou o orientador.
Opiniões de quem colaborou na ideia
Aos 16 anos, o estudante Thiago Menezes conta que nunca tinha participado anteriormente de um projeto, mas acabou criando um afeto muito grande pelo BioLuz. “Quero que o máximo de pessoas possível possa conhecê-lo, porque está sendo uma experiência muito boa e que eu estou muito feliz em participar. Nunca imaginei estar em uma iniciativa como essa e isso ficará marcado para o resto da minha vida”, disse um dos coautores da ideia.
Já Natália São Pedro, também de 16, considera a iniciativa uma coisa muito nova, “mas que foi muito boa”. “Eu acho que esse projeto tem muito potencial e está sendo uma grande experiência. Estou muito feliz de estar participando e essa é uma bagagem que eu vou levar para a vida”, completou a estudante.
Fonte: CREA-BA -fotos: Divulgação