De um lado a família Bolsonaro cria mais taxas para o Brasil, de outro o governo Lula libera o mercado chinês para compra de carne bovina de Goiás e de todo Centro-Oeste
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou nesta quarta-feira (3), durante reunião ministerial, que o reconhecimento da China ao Brasil como livre de febre aftosa foi a principal resposta do país ao anúncio de uma recomendação tarifária dos Estados Unidos. Segundo Lula, a medida chinesa ocorreu um dia após o United States Trade Representative (USTR) recomendar taxação de 25% sobre produtos brasileiros. O conteúdo disponível não detalha quais itens seriam atingidos pela tarifa nem a data de eventual implementação
Durante a visita em Catalão, onde inaugurou o Instituto Técnico Federal e um hospital universitário, Lula chamou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de traidor da pátria por articular novas tarifas dos Estados Unidos contra o Brasil, e frisou que a decisão da China de beneficiar os pecuaristas brasileiros era uma demonstração da força do Brasil no comércio exterior.
“Como Deus escreve certo por linhas tortas, nada acontece de graça para um homem cristão como eu, um homem obediente a Deus, o que aconteceu hoje para se contrapor à medida do Trump? A China aceitou que o Brasil está nacionalmente livre da febre aftosa, que a nossa carne está livre para entrar no mercado chinês”, disse Lula enfatizando que as ações de Flávio com o presidente norte-americano Donald Trump prejudicam o agronegócio brasileiro.
Lula salienta que o Brasil não pode ser tratado como uma republiqueta pelo governo norte-americano, e declarou que as novas tarifas fazem parte do jogo de Marco Rubio, Secretário do Departamento de Estado dos EUA, ao qual Flávio Bolsonaro é aliado. Lula informa que espera um telefonema de Trump, lembrando que na visita que fez a Washington no dia 7 de maio ambos ficaram de conversar, um mês depois, sobre as disputas comerciais entre ambos os países.
Lula aproveitou para alfinetar:
“Eu não vou ficar chorando. Se você não quiser comprar de mim, eu vou vender para outro”, acrescentou.
Lula chamou Flávio e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que vive nos EUA e faz campanha junto a autoridades norte-americanas pela imposição de sanções a autoridades brasileiras, de “traidores” da pátria.
Mercado chinês
O reconhecimento oficial por parte da República Popular da China de que o Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação representa um importante avanço para o fortalecimento das relações sanitárias e comerciais entre os dois países. A China é o principal destino da carne bovina goiana, absorvendo mais de 50% de todo o volume exportado pelo estado. Os embarques goianos somaram centenas de milhares de toneladas, com o estado respondendo por cerca de 12,5% dos embarques nacionais.
Principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, a China respondeu por mais de US$ 50 bilhões em 2025. O reconhecimento do status sanitário brasileiro reforça a confiança nas cadeias produtivas nacionais e contribui para o fortalecimento da parceria estratégica entre os dois países.

MAPA e Itamarty
O reconhecimento é resultado das tratativas conduzidas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) durante a missão oficial do ministro André de Paula à China, realizada em maio deste ano. Em reuniões com autoridades chinesas das áreas de Agricultura e Comércio, foram apresentados os avanços do sistema brasileiro de defesa agropecuária e reforçado o pleito pelo reconhecimento do status sanitário nacional.
A decisão ocorre um ano após a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) reconhecer o Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação, consolidando décadas de trabalho dos serviços veterinários oficiais, dos produtores rurais e dos governos estaduais em prol do fortalecimento da sanidade animal.
Para o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, o reconhecimento reflete os resultados do diálogo técnico e institucional mantido entre os dois países. “Hoje o dia começou com uma grande notícia. Logo no início da manhã, o ministro Mauro Vieira confirmou que a China reconheceu oficialmente o Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação. Esse foi um dos principais temas que levamos como prioridade durante nossa recente missão à China. Tivemos reuniões longas e produtivas com os ministros da Agricultura e do Comércio, e essa era uma das reivindicações mais importantes que apresentamos. Por isso, temos razões de sobra para celebrar esse resultado”, afirmou.

O secretário de Defesa Agropecuária do Mapa, Carlos Goulart, destacou a importância estratégica da decisão para a ampliação do acesso de produtos brasileiros ao mercado chinês. “Iniciamos 2026 com o reconhecimento, pela China, do status de país livre de encefalopatia espongiforme bovina (EEB) para a carne bovina brasileira e, agora, recebemos com grande satisfação a notícia do reconhecimento do status de livre de febre aftosa sem vacinação. Esse reconhecimento sanitário é fundamental para avançarmos nas discussões técnicas relacionadas a diversos produtos das cadeias bovina e suína, permitindo a diversificação do portfólio exportado e contribuindo para melhorar o desempenho econômico dessas cadeias produtivas”, destacou.
Durante a missão presidencial à China, realizada em maio de 2025, Brasil e China também assinaram o Memorando de Entendimento entre o Ministério da Agricultura e Pecuária da República Federativa do Brasil e a Administração-Geral de Aduanas da República Popular da China na Área de Medidas Sanitárias e Fitossanitárias. O instrumento fortalece a cooperação bilateral e amplia o diálogo entre os dois países em temas relacionados à sanidade animal e vegetal.
A conquista é resultado do trabalho conjunto do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e do Ministério das Relações Exteriores (MRE).