Relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) afirma que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi morto pela ditadura em 1976, e não vítima de um acidente automobilístico, como apontaram investigações oficiais da época da ditadura militar. A conclusão ocorre  três meses  antes dos 50 anos da morte de JK, que foi assassinado no dia 22 de agosto de 1976. A investigações apontam para assassinato político do ex-presidente, seu motorista,  Geraldo Ribeiro, foi alvejado na cabeça e o opala que dirigia perdeu a direção, atingindo uma carreta que vinha na sua direção.

O documento foi elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, relatora do caso na CEMDP, e tem mais de 5.000 páginas, incluindo anexos. O texto está sendo analisado pelos demais conselheiros do colegiado e deve ser votado na próxima reunião do grupo. Uma reunião chegou a ser marcada para 24 de abril, em São Paulo, mas foi adiada para que os integrantes tivessem mais tempo de estudar o material. O relatório usa como uma de suas principais referências um inquérito civil conduzido pelo Ministério Público Federal entre 2013 e 2019 e divulgado em 2021.

Opala de JK, foto: reprodução

JK morreu em 22 de agosto de 1976, em um domingo,  na Rodovia Presidente Dutra, em Resende (RJ),  na altura do KM 331. JK estava em um Opala dirigido por Geraldo Ribeiro, seu motorista e amigo, quando o carro foi atingido por uma carreta após atravessar o canteiro central e invadir a pista contrária. Ribeiro também morreu no desastre.  As investigações feitas durante a ditadura concluíram que, antes da batida, o Opala teria sido atingido por um ônibus da viação Cometa durante uma tentativa de ultrapassagem.

Esta versão foi desmentida pelo motorista da Cometa, Josias Nunes de Oliveira.  Em depoimento à Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, da Câmara Municipal de São Paulo, realizada em 1/10/2013,  Josias Nunes disse que o Opala seguia dentro do limite permitido para a rodovia na época, de 80 km/h, e, aparentemente sem motivo, “saiu para a esquerda” numa curva que “era para a direita”.

Josias disse ter sido procurado por dois desconhecidos, dias após a morte do ex-presidente, que lhe ofereceram uma mala cheia de dinheiro para assumir a responsabilidade pela morte de Juscelino.

“Se eu dissesse que era o culpado pelo acidente, aquele dinheiro seria todo meu”, afirmou. Ele recusou o dinheiro e passou os anos seguintes se dizendo inocente.

Todos os nove passageiros do ônibus ouvidos no processo contra Josias também confirmaram não ter havido batida. O motorista, que continuou a trabalhar na Cometa anos após o suposto acidente, foi absolvido duas vezes na Justiça das acusações pelas mortes de JK e Geraldo.

 

Foto feita no local do acidente mostra traseira do opala de JK sem colisão traseira, na delegacia,  fizeram outra foto com a traseira avariada

 

Testemunha viu motorista baleado e fotos substituídas

Outro testemunho reforçou a hipótese de Geraldo ter sido baleado. O motorista aposentado Ademar Jahn contou aos vereadores que viu o Opala quando seguia pela contramão, no sentido Rio-São Paulo, instantes antes do choque com a carreta. “Ele afirmou ter visto o motorista do Opala debruçado, com a cabeça caída entre o volante e a porta do automóvel, não restando dúvida, de acordo com Jahn, de que o condutor se encontrava desacordado”, afirma o relatório.

Relatório JK acusa a perícia realizada em 1976, pelo Instituto Carlos Éboli, do Rio de Janeiro, de substituir as fotos originais da traseira intacta do Opala por outras que mostravam a mesma traseira com sinais de batida. “Para esta Comissão da Verdade, a perícia oficial foi deliberadamente fraudada com o intuito de apontar um responsável pelo ‘acidente’”, afirma.

 

 

Perito identificou furo de bala na testa do motorista de JK, polícia, no entanto, impediu foto e divulgou versão de que estilhaço de metal era “prego do caixão”

 

Perito encontrou furo de bala na testa do motorista de JK

O perito criminal Alberto Carlos de Minas, que acompanhou a exumação do motorista Geraldo Ribeiro em 1996, contou à Comissão Vladmir Herzog, que viu um furo no crânio do motorista, mas policiais o teriam impedido de fotografá-lo. Divulgado semanas depois, o laudo da exumação afirmou que o crânio estava esfarelado, a ponto de tornar impossível detectar um eventual buraco de bala.

A exumação encontrou um pedaço de metal, de dois milímetros, no crânio de Geraldo. O Instituto Médico Legal de Minas Gerais concluiu que o objeto era um pedaço do prego do caixão – conclusão repudiada pelos vereadores paulistanos.

“Onde é que um prego de caixão vai entrar no crânio de um cadáver? Isso é conto da carochinha. Não sei como o País pode ter acreditado nisso. Achamos que aquilo era um projétil”, diz Natalini. Para tirar as dúvidas, a Comissão pediu ao governo mineiro uma nova exumação de Geraldo.

Relatório JK faz parte de uma série de iniciativas das Comissões da Verdade para reescrever a história vivida pelos brasileiros sob o autoritarismo. Uma dessas ações foi a devolução simbólica do mandato de 42 vereadores, injustamente cassados entre 1937 e 1969, realizada pela Câmara Municipal de São Paulo no ano passado. Também em 2013, a família do jornalista Vladimir Herzog, morto pela ditadura em 1975, conseguiu alterar a causa da morte no seu atestado de óbito, de enforcamento para tortura. Uma nova tentativa de reescrita da história foi a exumação de João Goulart, em novembro, que busca verificar a hipótese de o presidente deposto ter sido morto por envenenamento, e não por ataque cardíaco, como disseram as autoridades da época. O que somente os próximos anos poderão revelar é qual será o lugar da morte de JK – e do Relatório JK – nessa história toda.

 

 

Operação Condor teve ações de seis governos

 

RAPINA – Charge de Carlos Latuff para o site Brasil 247

 

 

Nos anos 70, seis ditaduras sul-americanas uniram esforços para levar a repressão política além de qualquer fronteira. Com o objetivo de vigiar, perseguir e matar qualquer opositor onde quer que estivesse, os governos de Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai criaram a Operação Condor, que integrou as práticas de terrorismo de Estado realizadas pelas cúpulas militares daqueles governos. Segundo a Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, a operação pode estar por trás da morte de Juscelino Kubitschek.

A Condor foi formalizada em 1975, em reunião realizada na Academia de Guerra do Exército, em Santiago (Chile), com representantes dos seis países. De forma embrionária, contudo, ações conjuntas entre as ditaduras já vinham ocorrendo pelo menos desde 1970, quando autoridades argentinas prenderam e torturaram o coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório a pedido dos militares brasileiros. A Operação Condor desconhecia fronteiras: além de atacar adversários políticos na América do Sul, praticou atentados na Europa e nos EUA.

Matéria da Folha mostra que o General João Baptista Figueiredo, Chefe do SNI de Geisel era o representante do Brasil na Operação Condor

Relatório JK menciona uma carta enviada pelo coronel Manuel Contreras Sepulveda, diretor do serviço secreto chileno e um dos principais nomes da Operação Condor, ao general João Batista Figueiredo, então comandante do Serviço Nacional de Informações (SNI) e futuro presidente do Brasil, em 28 de agosto de 1975. Na carta, que foi confirmada por matéria da Folha de S. Paulo, o militar chileno alerta para o apoio que políticos do Partido Democrata norte-americano estariam oferecendo a dois inimigos das ditaduras latinas: o ex-ministro das Relações Exteriores do Chile Orlando Letelier e o ex-presidente brasileiro Juscelino Kubitschek. A mensagem deixa claro que as forças de repressão do Brasil já haviam traçado um plano para combater os dois adversários, e que contariam com o apoio dos colegas chilenos nessa tarefa. “O plano proposto por você para coordenar nossa ação contra certas autoridades eclesiásticas e conhecidos políticos social-democratas e democrata-cristãos da América Latina e Europa conta com nosso decidido apoio”, afirmou Contreras a Figueiredo.

Os dois nomes mencionados na carta tiveram mortes violentas. Em 21 de setembro de 1976, Letelier foi morto em um atentado a bomba ocorrido em Washington (EUA) – um crime pelo qual o general Contreras, em 1993, acabaria preso e condenado. Cerca de um mês antes (22/08/1976) do atentado contra Letelier, Juscelino e seu motorista haviam sido mortos na Via Dutra.

Fonte: Memorial JK – www.memorialjk.com.br/ Portal do Palácio do Planalto

Com informações da Comissão da Verdade da Câmara Municipal de SP