Uma nova investigação jornalística do site The Intercept Brasil trouxe a público provas materiais que expõem as engrenagens financeiras por trás de Dark Horse (Azarão), o longa-metragem biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O veículo de imprensa obteve acesso exclusivo a planilhas de desembolso, minutas de contratos, registros financeiros e comprovantes bancários internacionais que permitem reconstituir a trilha do dinheiro utilizado para financiar a produção audiovisual em território norte-americano. Leia em TVT News.
Os arquivos revelam uma operação projetada no valor total de quase 24 milhões de dólares, o que correspondia a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação cambial do período.
Os documentos contábeis detalham tanto o fluxo de aportes previstos pelo Banco Master quanto as quantias que entraram efetivamente nas contas de um fundo de investimentos sediado no exterior e diretamente vinculado à gestão da obra cinematográfica.
O cronograma do financiamento: planilha “Funding Schedule”
O primeiro documento de destaque obtido pela equipe de reportagem é uma planilha gerencial intitulada “Funding Schedule” (Cronograma de Financiamento). O arquivo funcionava como o mapa de controle das transferências e dividia o montante total da operação em 14 desembolsos sucessivos, planejados para ocorrer entre os meses de janeiro de 2025 e janeiro de 2026.

A planilha mostra as datas dos pagamentos e os valores a serem pagos
As linhas da tabela mostram que as duas parcelas iniciais foram fixadas em 2 milhões de dólares cada. Embora o planejamento original previsse os pagamentos para os dias 20 e 25 de janeiro de 2025, os registros internos da planilha provam que a liquidação efetiva aconteceu em 13 de fevereiro e em 24 de março daquele ano.
As 12 parcelas subsequentes foram estabelecidas no patamar fixo de 1,66 milhão de dólares cada.
Desse bloco secundário, a primeira cota foi remetida em 24 de março, duas outras parcelas foram compensadas em 25 de abril e uma quarta foi efetuada no dia 29 de maio.
Ao término das anotações contidas no documento, a soma de valores recebidos pelo Master atingia a marca de 10,6 milhões de dólares.

Cruzamento de informações: planilha e mensagens trocadas entre Vorcaro e empresário do filme
A planilha é complementada por mensagens trocadas em dispositivos eletrônicos.
No dia 7 de agosto de 2025, o empresário Thiago Miranda encaminhou o arquivo a Daniel Vorcaro, acionista controlador do Banco Master, anexando um alerta sobre a inadimplência dos repasses:

“Duas em atraso e está para vencer a terceira agora em agosto”.
A resposta enviada por Vorcaro foi direta e indicou a continuidade dos fluxos:
“Segunda fazemos duas”.
A planilha mostra que pagamentos do Master ocorrem até o mês de maio, mas mensagens mostram que eles continuaram em agosto
O diálogo sugere às autoridades que novos pagamentos foram autorizados no período, o que aponta que o montante final destinado ao projeto pode ter superado os 10,6 milhões de dólares computados na tabela.
A fiscalização interna dos repasses já vinha sendo monitorada de perto por Vorcaro meses antes.
Em 12 de março de 2025, o banqueiro do Master remeteu uma cópia do cronograma ao pastor Fabiano Zettel, seu cunhado e apontado nas investigações como operador financeiro do grupo.
Nas mensagens anexas, Vorcaro determinou textualmente: “precisa me ajudar controlar isso” e “tem que pagar a segunda e a terceira”.
Em resposta imediata, Zettel assegurou o andamento das cobranças junto aos parceiros comerciais:
“Vou pra cima do Mineiro. Passei o fluxo pra ele. Achei que ele tava fazendo”.

As investigações policiais e os cruzamentos de dados do jornal indicam que o codinome “Mineiro” refere-se a Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo com trânsito operacional na empresa Entre Investimentos e Participações Ltda, responsável por executar as remessas internacionais.
A quebra dos dados telefônicos confirmou que o contato de Freixo estava registrado diretamente no telefone celular de Vorcaro sob o apelido citado.
Extrato oficial mostra que Master enviou dinheiro a advogado de Eduardo Bolsonaro
A prova documental que revela, de fato, que houve transação financeira internacional para o financiamento do filme “Dark Horse” é o comprovante de liquidação emitido pela rede SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), a plataforma bancária global que processa transferências entre instituições de diferentes países.

Comprovante atesta envio de 2 milhões de dólares
Datado de 13 de fevereiro de 2025, o extrato oficial atesta a remessa de 2 milhões de dólares para a conta do Havengate Development Fund LP, um fundo de investimentos gerido por Paulo Calixto, advogado do deputado federal Eduardo Bolsonaro.
Conforme a descrição do documento oficial de câmbio, o polo remetente da dinheirama foi a empresa Entre Investimentos e Participações Ltda.
A liquidação física dos valores foi processada no Brasil por intermédio das estruturas do Banco BS2 e teve como destino final uma conta bancária do fundo Havengate mantida junto à instituição norte-americana JPMorgan Chase Bank.
O papel timbrado do SWIFT contém todos os dados regulamentares de controle, incluindo os códigos internacionais de identificação bancária, dados das agências, números de referência de compensação e as chaves de liquidação exigidas pelo sistema financeiro global.
O surgimento da Entre Investimentos e Participações Ltda no topo do comprovante bancário desvelou a engenharia financeira montada para contornar entraves burocráticos internos.
O histórico de mensagens de 5 de fevereiro de 2025 aponta que Fabiano Zettel avisou Daniel Vorcaro que o departamento de câmbio do próprio Banco Master estava gerando óbices técnicos e impondo restrições para chancelar a remessa financeira direcionada ao filme de Jair Bolsonaro.
Diante do travamento burocrático, o banqueiro do Master e o operador discutiram alternativas viáveis e optaram por canalizar a operação por meio da estrutura corporativa da Entre Investimentos.
“Filme!”, escreveu cunhado de Vorcaro após sucesso das transações

A consumação do plano foi festejada dias depois. Em 14 de fevereiro, exatamente 24 horas após o processamento bancário da primeira parcela de US$ 2 milhões no JPMorgan Chase Bank, Zettel enviou a cópia digital do comprovante SWIFT a Vorcaro com uma breve celebração escrita: “Filme!”.
Apesar de as defesas da Entre Investimentos e de Daniel Vorcaro negarem formalmente a existência de vínculos de controle, participações societárias mútuas ou acordos de governança corporativa, os documentos vazados e as apurações judiciais em andamento reveladas pelos jornais O Estado de S. Paulo e Metrópoles apontam para uma íntima coordenação operacional entre as empresas e o banqueiro.
O outro lado
O jornal The Intercept Brasil buscou colher os esclarecimentos de Paulo Calixto, Thiago Miranda e Antônio Carlos Freixo Júnior, bem como das equipes de defesa jurídica de Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro, que cumprem ordens de prisão preventiva emitidas pela Justiça. Nenhuma das defesas enviou manifestações formais até o fechamento da reportagem.
Em nota oficial encaminhada à imprensa, o Grupo Entre limitou-se a declarar que “realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro”.
A companhia acrescentou em seu texto institucional que possui um firme “compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento” da legislação nacional, colocando-se “à disposição das autoridades competentes sempre que necessário” para prestar esclarecimentos sobre suas movimentações financeiras.