Governo de Mark Carney rejeitou novas exigências de Washington e aplicará tarifas sobre aço, eletrônicos, produtos agrícolas e outros bens dos EUA

 

O Canadá decidiu enfrentar a nova ofensiva comercial de Donald Trump e anunciou que responderá “dólar por dólar” às tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos ao país. As contramedidas entram em vigor em 8 de setembro e atingirão produtos norte-americanos como aço, laticínios, máquinas agrícolas, papel, eletrodomésticos e eletrônicos.

O primeiro-ministro Mark Carney anunciou a retaliação depois de abandonar as negociações com Washington na noite de sexta-feira (21), diante de novas exigências apresentadas pelo governo Trump na reta final das conversas.

“Não podemos aceitar o que eles ofereceram e não vamos dar o que eles pediram”, afirmou Carney. Ao ser questionado se os dois países estavam em uma guerra comercial, respondeu: “Quando somos atacados, estamos em guerra. Nós fomos atacados”.

As tarifas norte-americanas atingem cerca de US$20 bilhões em exportações canadenses e entraram em vigor no sábado (22). Além dos setores já submetidos a sobretaxas pelos Estados Unidos, como automóveis, aço e alumínio, a nova rodada alcança produtos como móveis, laticínios, cimento, roupas, vinhos e equipamentos esportivos.

A resposta coloca o Canadá entre os poucos países que decidiram retaliar diretamente o tarifaço promovido por Trump, apesar da forte dependência do mercado norte-americano. Cerca de 70% das exportações canadenses têm os Estados Unidos como destino.

Canadá rejeita novas exigências

Os dois governos chegaram perto de anunciar um acordo na semana passada. A negociação previa a redução das tarifas norte-americanas sobre automóveis canadenses de 25% para 15% e das taxas sobre aço e alumínio de 50% para 25%.

Em troca, os canadenses fariam uma série de concessões, entre elas mudanças no sistema de importação de laticínios e o fim de medidas adotadas pelas províncias contra produtos dos Estados Unidos.

O acordo, porém, desmoronou menos de uma hora antes do prazo final. Segundo o Globe and Mail, negociadores canadenses afirmam que Washington acrescentou novas condições ao texto depois de pontos que Ottawa considerava acertados.

Entre as exigências estava uma cláusula que poderia obrigar o Canadá a acompanhar restrições comerciais impostas pelos Estados Unidos contra terceiros países. Na prática, a medida limitaria a capacidade de Ottawa de fechar acordos comerciais de forma independente e poderia prejudicar a estratégia de Carney de diversificar os parceiros econômicos do país.

Washington também queria restringir a redução das tarifas automotivas aos veículos leves, deixando de fora caminhões médios e pesados fabricados no Canadá. Outra exigência atingia regras que obrigam plataformas de streaming norte-americanas a promover produções canadenses, inclusive conteúdos em francês.

“Não estávamos preparados para comprometer a soberania do Canadá ou enfraquecer setores fundamentais”, declarou Carney após o fracasso das negociações.

 

Trump reage e promete nova resposta

A decisão canadense provocou uma reação imediata de Trump. Em publicação nas redes sociais, o presidente norte-americano retomou as provocações sobre a anexação do país vizinho.

“O Canadá quer os benefícios de ser um Estado sem ser um”, escreveu Trump.

O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que Washington prepara novas medidas em resposta às tarifas canadenses e disse que não há, por enquanto, outra rodada de negociações prevista.

A escalada ocorre apesar da forte integração entre as duas economias. As cadeias produtivas dos Estados Unidos e do Canadá são particularmente interligadas em setores como automóveis, aço e alumínio, o que significa que a disputa também pode elevar custos para empresas e consumidores norte-americanos.

Mesmo diante desse risco, integrantes do governo Trump apostam que a dependência canadense acabará obrigando Carney a recuar.

O secretário de Transportes dos EUA, Sean Duffy, afirmou no domingo que a disputa será “devastadora” para o Canadá e que o primeiro-ministro acabará voltando à mesa de negociação.

Até agora, porém, a pressão de Washington produziu o movimento contrário. O governo e a oposição canadenses apoiaram a rejeição do acordo, e o líder conservador Pierre Poilievre defendeu que o país permaneça unido contra os ataques aos empregos e às empresas canadenses.

ENTENDA A CRISE

O Estopim da Crise Comercial
  • Tarifas de 50% dos EUA: Trump impôs tarifas de 50% sobre cerca de US$ 30 bilhões em produtos canadenses, alegando que o Canadá cobra taxas abusivas de agricultores americanos há anos. 
  • Retaliação Canadense: Carney anunciou que o Canadá vai responder e taxar produtos americanos “dólar por dólar” a partir de 8 de setembro, mirando setores como aço, laticínios, eletrodomésticos e eletrônicos.
  • Abandono da Mesa: O governo canadense suspendeu o diálogo por se recusar a assinar um acordo que, segundo Carney, comprometeria a soberania do país e destruiria indústrias locais chaves. 
Retórica e Provocações Públicas
  • Ameaça de Anexação: Trump declarou repetidamente que o Canadá deseja “os benefícios de ser um estado americano, sem ser um”, voltando a mencionar de forma provocativa a ideia de transformar o país vizinho no “51º estado” dos EUA. 
  • “Erro de Cálculo”: Carney rebateu dizendo que o movimento de Trump é um erro estratégico desenhado exclusivamente para “machucar e dividir” os canadenses. 
  • Provocação do Teleprompter: Durante uma coletiva em Toronto, quando seu teleprompter falhou, Carney ironizou o presidente americano dizendo: “Ao contrário de certo líder mundial, não considero isso uma conspiração”. 
Cenário Político Interno
  • Apoio da População: Apesar dos temores de prejuízos econômicos, a postura firme de Carney gerou forte união nacional. Pesquisas do instituto Angus Reid indicam que três em cada quatro canadenses apoiam a decisão de romper as negociações com a Casa Branca.
  • De Davos para a Prática: Conhecido pelo seu perfil técnico como ex-governador do Banco da Inglaterra e do Banco do Canadá, Carney tem se posicionado internacionalmente (como fez no Fórum de Davos) como a principal voz de resistência das potências médias contra o “bullying” econômico de grandes superpotências.

Com agências – fotos: redes sociais – divulgação