Em política, vence quem erra menos.
Marcus Vinícius de Faria Felipe
No telúrico 1973, ano em que a banda Secos & Molhados fascinou o Brasil, meus pais mudaram-se de Goiânia para Ceres. Naquele tempo o município era um pólo regional. A BR-153 estava sendo asfaltada e as máquinas e operários à serviço do antigo DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem) ficavam estacionados em pátios em Ceres e na cidade irmã, Rialma. Era tempo de fartura. Corria dinheiro na cidade e meu pai ganhou uns bons trocados na compra e venda de gado e no comércio de carnes num açougue instalado na Avenida Bernardo Sayão, perto da antiga rodoviária.
Comecei meus estudos fazendo o prezinho numa escola evangélica, o Colégio Alvaro de Mello. Um ano depois, estava matriculado numa escola franciscana, o Colégio Imaculada Conceição, onde fiz todo o primário e o antigo ginásio. Na entrada da escola uma frase para incentivar os estudantes ao melhor: ‘É preciso começar bem, para continuar bem, para terminar bem”.
Durante as aulas de ensino religioso, as freiras enfatizavam outra frase de São Francisco: “Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível”. A ideia era reforçar a necessidade de um começo firme e estruturado.
Faço menção a estes preceitos franciscanos para justificar o título deste artigo que diz que o governador Ronaldo Caiado (PSD) começou mal a negociação da chapa majoritária. A perda de Ana Paula Rezende para a oposição não pode ser menosprezada. É um sinal claro de que houve erros na condução, seja em relação às aspirações de Ana Paula à chapa majoritária, e também em relação ao próprio MDB.
Mas não é só com Ana Paula, e com o MDB, que os articulistas do Palácio das Esmeraldas estão pisando na bola. Há outras lideranças na base governista sendo igualmente ignoradas nos seus pedidos de espaço para participar na chapa majoritária. É o caso do médico e deputado federal Zacharias Callil (União Brasil) e do ex-prefeito de Gustavo Mendanha (PSD). Ambos tem voto, mas estão escanteados.
O comando caiadista repete os mesmos erros de 2022, quando emitiu sinais dúbios aos aliados. Naquele pleito o governador Ronaldo Caiado não firmou o taco com nenhum candidato ao Senado de sua base. Foram lançados diversos nomes, como o Delegado Waldir e o ex-ministro Alexandre Baldy, mas nenhum deles com apoio firme de Caiado. O resultado foi a eleição de Wilder Morais, do PL, que hoje é candidato a governador.
Neste ano o governador insistiu por demais em firmar aliança com o PL, mesmo após os coices que os bolsonaristas deram nas eleições de prefeito em 2024. E apesar de novo coice, desta vez desferido pelo presidenciável Flávio Bolsonaro, o governador Caiado continua emitindo sinais dúbios à sua base, ao participar de ato bolsonarista neste último domingo. Se ele é candidato à presidência pelo PSD, o que foi fazer no palanque de Flávio Bolsonaro em São Paulo?
É preciso dizer que também pegou mal demais as falas misóginas contra Ana Paula. Se continuar nesta toada, ao invés de desgasta-la, irão fortalece-la.
Em política, vence quem erra menos.
Em 2022 a oposição errou muito. Gustavo Mendanha errou ao não costurar a união da oposição. O ex-governador Marconi Perillo errou ao se lançar como candidato avulso ao Senado. E de erro em erro a oposição entregou a eleição a Caiado no primeiro turno.
Neste pleito, quem começou errando é o governo. Se continuar errando, o resultado não será positivo.